Bimbalham os sinos

Na minha infância, o dia primeiro  de dezembro era o marco para que surgissem de dentro dos baús, sótãos e maleiros os enfeites de Natal.  Se algum comerciante pensasse em pendurar guirlandas e papais-noéis na fachada no mês de novembro, seria considerado maluco.

Os tempos mudaram (se é que o tempo muda… Mudaram as coisas!), e em 2011 os shopping centers(que não existiam em minha infância soteropolitana), desde final de outubro, ostentam jingoubéis de todas as cores.

Certamente não movidos por espírito natalino, mas pecuniário. Transformaram o Dia das Mães em um grande negócio. Os pais, as crianças, a Páscoa, o Carnaval e o nascimento de Cristo não iam escapar dessa. Pra bom entendedor, tá lá escrito nas cédulas de 1 dólar: In gold we trust.

Trocar presentes do dia 25 de dezembro é uma coisa esquisita. O certo seria dia 6 de janeiro, lembrando a data em que os Reis Magos entregaram os seus presentes – ouro, incenso e mirra – naquela gruta de Jerusalém.  Mas, sabe como é, em janeiro as crianças estão de férias, muitos estão viajando, que tal puxar a data para os últimos dias de trabalho do ano? “Genial, caro Fernandinho! Você será promovido a gerente de vendas.”

Não, não vou me deter na figura caricata de Santa Klaus, com seu gorro de arminho anti-ecológico, passeando pelos trópicos com seu trenó movido a renas. Como é que São Nicolau, um bispo nascido na Turquia em 280 dC,  virou aquela figura de bochechas rosadas e olhos azuis é mais que sabido. Até o semita Jesus passa por essa transformação, em muitas ilustrações eurocentristas. Se alguém nascesse loiro e com olhos da cor do céu no Oriente Médio, naquele tempo, esse fato certamente seria apontado em todos os registros, até na Bíblia.

Enfim, estou falando de mistificações, mas o que me incomoda mesmo é o comércio despudorado. O consumismo redutor do ser humano, que transforma qualquer coisa em produto vendável. Religião é comércio, sexo é comércio, arte é comércio, morte é comércio. Tornamo-nos menos humanos e mais consumidores.

Os animais escapam desse círculo odioso simplesmente porque não compram. Mas consomem, e aí o alvo da propaganda é o dono do bichinho. Já acho estranha a ideia de ser “dono” de um bicho, mas enfim… Há muita gente boa, que realmente cuida bem de seus animais. O justo seria   fazer um pacto com o vira-lata: Você vigia minha cabana (ou ajuda a cuidar do rebanho) e, em troca, dorme num lugar coberto, ganha um osso de vez em quando, até um agrado. Cães são boa gente, costumam aceitar essa negociação.

Um dos aspectos mais ridículos do Natal é quando a dona/o dono resolve dar um presente pro lulu (ou pro bichano). “Coitadinho, vai ficar sentido se não ganhar nada!” E no dia das Mães, nada? E dos Pais? E das Crianças? Estamos caminhando para isso, aguardem. A inteligência humana tem limites, já a estupidez…

Domingo fui comprar comida pros passarinhos. “Ah, ele ironiza mas tem gaiolas com pássaros!” Errado. Meus beija-flores, sanhaços e cambacicas vivem soltos, e frequentam meu jardim apenas porque negociei com eles: néctar especial renovado diariamente, e em troca basta existir. E frequentar minha casa, claro.

Na fila do caixa vejo uma dondoca com um pacote de 2,5 kg de ração especial para yorkshire. Madame pagou sem vacilar: R$ 59,90. Filé mignon seria mais barato, não? E tenho certeza de que coxão duro ou acém iria deixar o bicho muito feliz. O que será que a gororoba tem de tão especial, a ponto de não servir para um lulu da Pomerânia ou um pequinês, só para yorkshires?

Ainda teve mais, para meu sacrílego espanto. Ao meu lado, uma gôndola anunciava, de forma convidativa, um panetone para cães. Com fibras de carne e passas. Cachorro come passa? Se o alimento tiver formato de panetone, de suástica  ou de cocô, faz diferença pra ele?

Não interessa, para o comércio. Estou fazendo muitas perguntas. É novembro, é Natal, os sinos bimbalham, a neve está caindo, e vou procurar comidinha de renas, quem sabe elas passam pela minha casa esse ano. É isto que indústria do consumismo inútil (é redundância, eu sei) quer me fazer crer.

4 Responses to “Bimbalham os sinos”


  1. 3 dalila teles veras 25/11/2011 às 10:35 am

    Assino e dou fé, Daniel! as façanhas do “gigante mercador”, como diria meu amigo Possidonio, alcançam níveis realmente assustadores. Você conseguetratar disso num texto irrepreensívelmente leve, bem humorado e ao mesmo tempo provador que deixa o leitor fisgado e… reflexivo. O Natal sempre foi uma data comemorada em minha família (nós mesmos confeccionavamos os enfeites de Natal, os pratos da ceia, enfim… e os brinquedos… eram apenas lembrancinhas, símbolos para lembrar do aniversariante (quem mesmo?) e o cão tinha uma simpática casinha no quintal e roía ossos de verdade. A simples proximidade da data (tão antecipada como você bem aponta) e a consequente histeria consumista, de há tempos me causa incômodo, mal estar mesmo Bem, mas isso é saudosismo de gente entrada em vários enta. Afinal, meu neto de 3 anos e meio já demonstra fascínio pelos tais mitos (e olha que é um menino de olhar seletivo que já escolhe os livros que deseja ler..)
    abraço da leitora
    dalila.


  1. 1 Bimbalham os sinos « FÓSFORO | iComentários Trackback em 18/11/2011 às 2:26 am

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