Gota de Sangue

Um dos gêneros literários mais consagrados pelos leitores em todo o mundo é o policial. Até por isso, é visto com desconfiança pela crítica. Poucos são os romances escritos para serem policiais (ou seja, onde há um crime, um criminoso, e um detetive para descobrir ou apanhar o culpado) que acabam ganhando o status de obra-prima.

Na (sempre discutível) galeria de autores universais, Conan Doyle ou Agatha Christie são considerados autores menores, em termos de estilo, escola ou profundidade. Mas o engenho com que construíram suas tramas desafiam milhões de leitores em todo o mundo. E, cá entre nós, ninguém passou pela vida estudando apenas obras “sérias”, os chamados clássicos que compõem o cânone ocidental. Alguém que só leia isso corre alto risco de ser classificado na prateleira dos chatos, pedantes ou meramente acadêmicos.

Há leitura de lazer, leitura de férias, leitura de juventude, leitura de curiosidade. Há leitura de sacanagem, leitura de humor, leitura de estudo, leitura de descontração. E isso é parte da grande riqueza que a literatura nos proporciona: tem de tudo! Nos meus anos de formação li uma pesquisa americana meio besta que resolveu classificar o que seria alta, média e baixa cultura. Rotularam compositores, escritores, artistas plásticos, cineastas, atores, etc. Lendo a lista, cheguei à conclusão que o ideal, para ser feliz e com mais capacidade de transitar pelo mundo contemporâneo, seria ter um terço de cada: highbrow, middlebrow e lowbrow. Se ficasse em apenas uma das categorias, já pensou o que iria perder?

Mesmo enfrentando o preconceito highbrow, alguns policiais acabam virando obras incontestes, consagradas como “grandes”. Convenhamos, é difícil encontrar um romance de reconhecida envergadura onde não haja um crime, uma morte, ou um mistério a resolver. De Dostoievski a Camus, de Guimarães Rosa a Shakespeare, dos clássicos gregos a Bolaño. Poucos autores passaram longe da tentação de matar alguém (literariamente) pelo menos uma vez na vida.

Esta semana foi lançado o romance policial, com P maiúsculo, Gota de Sangue, de Fábio Brazil. Depois do excelente Bola da Vez (Digitexto, 2009) onde o paulistano bairro do Bexiga era palco de uma trama multifacetada e entremeada com a Copa do Mundo de 94, eu apostei que o autor (meu primo, aviso logo) voltaria para a poesia, praia que habita e onde surfa há anos.

Pois não é que o cara subverte tudo e parte da poesia para voltar à cena do crime? Gota de Sangue tem como mote um célebre poema de Mário de Andrade:

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

Este poema, da maturidade do modernista, foi publicado no volume Lira Paulistana. O nome do romance, no entanto, foi retirado do primeiro livro de Mário, Há uma Gota de Sangue em Cada Poema. Uma pista falsa? Bem, há várias delas espalhadas pelas 190 páginas do livro, e muitas extraídas da obra do autor de Macunaíma.

Você já deve ter desconfiado da trama. Pedaços de um mesmo corpo são encontrados em vários pontos da cidade, tal como no poema. Lúcio, um investigador em crise na vida privada e na profissional, tenta juntar as peças e resolver o quebra-cabeça. O cenário, nesse caso, é principalmente o Centro de São Paulo, nas três semanas que antecedem as eleições municipais de 1985. Claro, há ações em ruas de bairro, como a Lopes Chaves, na Barra Funda, (onde morou Mário de Andrade) e a Carlos Petit, na Vila Mariana (onde morou boa parte da família Brazil…).

Lúcio cruza com passeatas de apoio a Fernando Henrique, e presencia a volta do fantasma Jânio Quadros ao poder.  Na galeria de personagens secundários se destaca Pereirão, investigador aposentado, uma espécie de conselheiro de Lúcio, cínico e desiludido, que se orgulha de “nunca ter lavado as mãos na latrina dos generais”.

Um policial descaradamente paulistano, como o anterior, escrito de uma forma tão entranhada como só um Marcos Rey ou um Alcântara Machado pós-modernos se permitiriam. Fábio Brazil nos recoloca novamente nos anos 80, e a acurada pesquisa de época se revela em todos os detalhes. Quem morou na cidade vai reconhecer esquinas, bares e cinemas. Quem morou no Brasil vai relembrar a transição política da época, com a morte de Tancredo e a ascensão de Sarney, o Eterno. E quem habita o planeta “literatura” vai sentir o gênero policial renovado, inquieto, trocando figurinhas com outros gêneros sem pudor.

Faça o seguinte: imprima o poema e use como marca-página, quando for ler o livro. Você vai relê-lo muitas vezes, como fez Fábio Brazil. Talvez até descubra o criminoso que, confesso, para mim foi uma engenhosa surpresa.

6 Responses to “Gota de Sangue”


  1. 1 Jussara 28/11/2011 às 1:46 am

    Já que confessou que é o primo, confesso que sou a irmã e madrinha, e o livro é demais.
    Adorei a ideia de imprimir o poema e usar como marca páginas!
    bjs
    Jussara

  2. 2 Julio Xavier 28/11/2011 às 12:28 pm

    No papel de editores, o que dizer além de obrigado? Obrigado pela generosidade, obrigado pelo carinho, obrigado pela clareza e pela capacidade de ver além do crime e do poema do Mário. Chamada por muitos de “a década perdida”, por desatinos econômicos e políticos, duvidamos um pouco/muito da expressão. Foram anos em que nós como país realmente patinamos, andamos de lado, retrocedemos; mas agora, vendo já um pouco de longe, dá pra perceber que andamos pra frente também. Fizemos muita merda politica e economicamente? Ok, mas será que isso não serviu para – como acontece com todo mundo – aprender o que não fazer? Acreditamos piamente que a história dos anos 80 ainda precisa ser contada e nesse ponto o GOTA DE SANGUE vem abrir os caminhos para que outros também contem sua versão de uma década (e no caso do GOTA DE SANGUE um ano específico – 1985), em que aconteceu um pouco de tudo. Pra finalizar, só uma observação: se puder, divulgue que o livro está à venda no site http://www.digitexto.com.br e pode ser pago com cartão de crédito. Estamos (a editora e o autor) tentando também furar um esquemão das grandes livrarias de ficar com todo o lucro e o autor e a editora com todas as despesas. Quer um exemplo? A amazon.com ainda não entrou com tudo no Brasil porque ela exige um desconto de 90% da editora, para vender um livro. Mas isso é uma discussão um pouco mais longa e fica pra uma outra hora…. por enquanto, obrigado de novo.

  3. 3 Fábio Brazil 28/11/2011 às 11:39 pm

    Dani, crítica atenta, gostosa e generosa! Obrigado. Também acho engraçado esse negócio de que policial não é “alta literatura”. Isso, sob um olhar rigoroso, de cara descartaria a Ilíada, o Velho Testamento, uma batelada de Shakespeares e todas as Tragédias Gregas, onde crimes e sangue é o que não faltam. Sim, claro, o modelo que se consagrou como policial, como todos os modelos, uma hora se esgota; as minas de ouro de Conan Doyle e Agatha Christie já foram bastante exploradas e já não produzem como antes, isso me parece indiscutível. O que eu acho discutível é esse olhar muito preso aos gêneros; livros são bem ou mal escritos, o autor tenta atuar sobre o código verbal ou apenas usá-lo, o resultado exige do leitor ou apenas o apassiva.Os gêneros servem como classificações gerais, mas que muitas vezes mais escondem do que revelam, chamar Graciliano Ramos de regionalista mais atrapalha do que ilumina, idem para Guimarães. Nesse sentido, o GOTA poderia ser classificado como regionalista, em relação a São Paulo; romance histórico, em relação às eleições de 85; encomiástico, em relação a Mário de Andrade e policial, em relação à trama repousar sobre um crime e a descoberta de seu autor. Bacana e bem sintonizada com o livro a sua ideia de usarmos o poema como marcador, sem prejuízo do lindo marcador que foi produzido pelo Júlio/Digitexto. Se tive uma intenção que me acompanhou durante todo o projeto do GOTA foi justamente causar curiosidade sobre a obra poética de Mário de Andrade, sonho com leitores que terão a curiosidade de encontrar em cada capítulo o poema ali escondido, já pensei em postar os poemas que usei no blog do livro – http://www.gotadesangue.caleidos.com.br – , mas sempre recuo em nome de deixar que o leitor faça sua viagem sem esse mapa ( o que você acha, revelo ou não? ). Valeu pelo espaço no Fósforo iluminador, obrigado, Fábio.

  4. 4 Daniel Brazil 29/11/2011 às 3:59 pm

    Boas informações, Julio! É difícil para o leitor comum compreender o problema da distribuição. Esta informação sobre a Amazon mostra como é difícil para os Davis enfrentarem os Golias do mercado.
    Fábio, não revele agora. Quem sabe daqui a alguns anos… Ou dê pequenas pistas, mas não entregue todo o jogo. Creio que ainda vão ter perguntar muito sobre isso.
    Abraços!

  5. 5 Pandora 04/12/2011 às 11:39 pm

    Me ganhou! Confesso que não curto suspense e li a Aghata e o Doyle por “obrigação alto-imposta”, queria conhecer, conheci e não me apaixonei, acho que o único autor de suspense que sou fã é o Poe, mas confesso que não entendo o motivo que leva alguns a não considerarem Doyle e Aghata literatura de boa qualidade, eu não vi neles nada de menos… Muito pelo contrario, são textos inteligentes que não subestimam nossa capacidade interpretativa… E sim, apesar de não ser fã do gênero definitivamente sinto-me seduzida por esse livro… Ele praticamente chama o meu nome… Ou seja, em breve estarei caminhando por São Paulo e mergulhando em um suspense com poesia…

    Ótima resenha, no mínimo sedutora!!!

    • 6 Daniel Brazil 05/12/2011 às 5:20 pm

      Ótimo comentário, Pandora! Creio que os bons leitores vão gostar mais do Gota de Sangue que os fãs radicais do gênero policial.
      (Aliás, convenhamos: quem é viciado em apenas um gênero não é um bom leitor, certo?)


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