Arquivo para janeiro \30\UTC 2012

Uma flor de domingo

Eu não sei o nome dela. Já estava aqui quando me mudei, há quatro anos. É tímida, tão tímida que só floresce à noite. Em uma noite especial de verão. Depois morre.

Em 2009 deu meia dúzia de flores. O suficiente para que não fosse cortada do jardim, como um mato qualquer. No ano seguinte, a mesma coisa. Resolvi fazer uma poda dos ramos velhos, adubar, investir na “desconhecida”.

E agora, em 2012, ela retribuiu. No sábado, estava cheia de botões. Mais de trinta, dentro e fora do muro. Quem passou pela calçada se admirou.

Domingo à tarde estava assim.

E então, nesta noite de domingo, ela se abriu. Para a lua, para as mariposas noturnas, para os morceguinhos polinizadores, para nós. Toda a energia concentrada para oferecer este espetáculo dura uma única noite. Amanhã estará murcha, meros bagos brancos despencados, que em uma semana desaparecerão. Resolvi repartir com vocês um pouquinho de sua beleza. Quem souber o nome, pode dizer!

 

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Museus de Buenos Aires

Museu não é uma instituição muito frequentada por brasileiros. Ainda há quem pense que é “um monte de velharias”, o que revela não apenas ignorância, mas lembranças infantis de uma entidade retrógrada e empoeirada, à beira da extinção. Cada vez mais os museus são interativos, cheios de tecnologias digitais, projeções holográficas, telas de LED, sons ambientes, sites funcionais, auditórios multiuso, ambientes sensoriais. Em São Paulo, museus como o do Futebol e o da Língua Portuguesa são verdadeiras maravilhas modernas, capazes de encantar qualquer criança ou adulto. O MIS poderia ser mais do que é, já que transita pela imagem e pelo som.

Claro que um apreciador de artes plásticas – pintura, escultura, gravura, fotografia (?), etc. – não quer ver vídeos ou projeções, mas a obra em si. Sentir a aura da obra original, “descoberta” por Walter Benjamin. O venerável Masp, a charmosa Pinacoteca, o MAM, o MAC, o MAB e mais alguns cumprem esta função, sem deixar de incorporar recursos tecnológicos acessórios que facilitem o acesso a informações. Uns mais, outros menos.

Mas museu é um negócio que a gente visita quando viaja, certo? Muita gente não conhece os museus de sua própria cidade… É um raciocínio estranho, como se conhecer a própria cultura fosse algo desnecessário. Por isso, em qualquer lugar do mundo, é mais comum encontrar turistas que nativos nestes templos do conhecimento.

Em uma semana em Buenos Aires, visitei pelo menos cinco museus. Comecei pelo mais histórico deles, onde está a origem de tudo: o Museo de Arte Hispano-Americano. Há até peças pré-colombianas, mas o forte está no período colonial (que para os argentinos é virreinal, de vice-reino). Muita prataria, peças religiosas, mobiliário e utensílios nobres, além de esculturas e pinturas. O casarão (Palácio Noel) é um oásis no meio do bairro do Retiro, com seus jardins em estilo espanhol.

O imponente MNBA (Museu Nacional de Belas Artes) fica em Palermo, com sua obras que vão do século XII até o XX. O ambiente austero, de arquitetura típica das grandes edificações do século XIX, exibe em 24 salas vários períodos e escolas: barrocos,renascentistas, flamencos, franceses… Destaca-se uma sala dedicada ao fantástico Goya, a coleção de impressionistas, as esculturas de Rodin, os espanhóis e, claro, os pintores argentinos, pouco conhecidos por aqui. Vários paralelos podem ser traçados entre os acadêmicos de lá e de cá, todos influenciados pelas escolas europeias. Aquele impacto revelador de se encontrar frente a frente com uma obra que só conhecia por fotografia (ou pela internet) se deu com um retrato feminino de Rembrandt, um Jesus de El Greco, uma ninfa de Manet, um moinho de Van Gogh, um Gauguin da fase tropical. E tem Monet, vários Degas, Modigliani, De Chirico, Leger, Paul Klee, Picasso, Kandinski, Moore, Pollock…

A festa da modernidade está mesmo no Malba, onde fica a maior coleção de arte latino-americana do continente. Com exposição comemorativa dos 10 anos de existência, o moderno prédio transmite vibração e frescor. Dá um pouquinho de inveja ver o Abaporu da Tarsila por lá, junto com obras de Berni, Rivera, Portinari, Volpi, Frida Kahlo, Di Cavalcanti, Torres-Garcia, Oiticica, Botero e outros…

O Palais de Glace é um espaço contemporâneo e jovial, onde antes funcionava um rinque de patinação no gelo (daí o nome). Também moderno é o Centro Cultural Borges, anexo à Galeria Pacífico, onde vi fotos emocionantes e belíssimas dos selecionados da Bienal Internacional de Fotografia. Há também uma individual de Bob Gruen, um dos principais fotógrafos do rock mundial. Conhece aquele cara lá no fundo?

Completei o ciclo com o Museu Quinquela Martin, do qual já falei aqui. E nem tentei ir no museu do Boca Juniors, do Carlos Gardel ou da Evita. Nem mesmo no de Xul Solar, artista que Jorge Luis Borges considerava o homem mais extraordinário que havia conhecido. Devia ser uma figura fascinante, mas não curto muito sua pintura.  É bom lembrar que Borges não enxergava muito bem…

K, de Kucinski

Conto nos dedos as vezes em que um livro realmente me fez largar tudo e respirar fundo, de olhos fechados, absorvendo todo o impacto da leitura. K., de Bernardo Kucinski (Editora Expressão Popular, 2011)  me emocionou como poucos, pouquíssimos. O autor eliminou tudo que é supérfluo, enfeite, penduricalho verbal, e nos oferece apenas a essência de uma narrativa poderosa e emocionante. São 177 páginas, concisas mas intensas.

É o melhor e mais refinado romance sobre o período da ditadura brasileira que já li. Tudo é real, mas uma realidade envolta em mentiras. Não à toa o título nos remete ao Kafka de “O Processo”: a inglória luta de um homem contra a arrogância de um estado que não explica motivos, sequestros ou assassinatos. K não é Kafka, mas um velho judeu polonês, que teve a família dizimada pelos nazistas durante a 2ª. Guerra e mora no Brasil escrevendo artigos em iídiche para a comunidade. Um dia sua filha, professora de Química da USP, desaparece, junto com o marido. A busca do velho pai é titânica, desesperada, e com ele vamos descobrindo a crueldade dos agentes da ditadura, que mentem, dão pistas falsas, extorquem e matam.

Kucinski abre o livro com um pequeno aviso ao leitor: “Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu”. Dominando plenamente os recursos estilísticos, dá voz a vários personagens em cada capítulo: guerrilheiros urbanos, assassinos, a amante do torturador, um general, colegas da professora desaparecida. Tudo é costurado pela busca desesperada do Senhor K, que se encontra várias vezes com personagens que nós conhecemos bem. A narrativa é dolorida, pois a dimensão trágica do personagem está colocada desde o início. Mas é também um prodígio de escritura, plena de humanidade e sentimento. Um livro belíssimo, enriquecido pelas ilustrações expressionistas de Enio Squeff, de cuja leitura você não vai sair ileso.

Aliás, fiz a besteira de começar, alguns dias depois, a leitura do elogiado Brooklin, de Colm Tóibin. Já passei da metade e estou achando bem chatinho, esquemático, sem profundidade. Culpa do K…

Protestos, lá e cá

Em uma semana na Argentina vi duas manifestações bem distintas. Uma, de veteranos da Guerra das Malvinas, que estão acampados em frente à Casa Rosada, sede nacional do governo.

Outra, de um grupo de camelôs, a maioria peruanos, que protestavam contra a proibição de venderem suas quinquilharias no calçadão da rua Florida, no centro. Por dois dias eles ocuparam a avenida Corrientes, uma das principais de Buenos Aires, com bumbos e megafones. Esticaram os panos no asfalto, interrompendo o trânsito. O que faria o bondoso cristão Alckmin, numa situação dessas?

Porrada, certamente, como tem feito na Cracolândia e em Pinheirinho. Dando lição de civilidade, as autoridades portenhas desviaram o trânsito e não chamaram a polícia, mas mandaram um negociador conversar com as lideranças do grupo. Ao final do segundo dia os camelôs desimpediram a avenida, sem violência, balas de borracha ou gás pimenta. E na Casa Rosada, cartão postal da cidade, os acampados continuam, sendo castigados unicamente pelo sol e pelos pombos. É um braço de ferro com o governo de Cristina Kirchner, mas onde não cabe nenhum tipo de agressão por qualquer das partes.

O Brasil tem muito a aprender com a Argentina, um país onde a Comissão da Verdade funcionou, militares apoiadores da ditadura estão na cadeia, torturadores foram condenados. Não há a sensação de impunidade que campeia por aqui.

Na terra de Borges

Extraordinária. É a primeira palavra que me ocorre para definir a fascinante experiência sensorial que tive em Buenos Aires, na noite de anteontem, ao assistir uma peça do Teatro Ciego. Já ouvira falar de grupos assim em Londres e Nova York: uma associação de deficientes visuais que montam espetáculos onde exploramos os “outros” sentidos. O Teatro Ciego portenho se dá ao luxo de manter várias peças em repertório, na sua sede em Abasto. Tem comédia, drama, até infantil. Escolhemos o jantar-espetáculo A Ciegas com Luz.

Um grupo de, no máximo, 50 pessoas, é levado a um ambiente totalmente escuro. Negrume absoluto. Somos guiados delicadamente por mãos cegas que transitam – quase flutuam – entre as mesas onde vão nos acomodando. Ao sentar, somos informados que há um prato retangular à nossa frente, e que devemos comer com os dedos. Não se assuste, todos passamos um álcool gel nas mãos, na sala de espera. À nossa direita há um copo, à frente uma cesta de pães e grissinis. Podemos escolher vinho tinto, branco, refrigerantes ou água. Aos poucos, fui tateando e descobrindo o espaço ao meu redor. O copo, localizei rapidinho (anos de prática!), as comidinhas foram sendo descobertas. Um pedaço de pizza de entrada, um espetinho de legumes grelhados, um de carnes vermelhas e brancas (há um cardápio especial para vegetarianos), delicadezas que vão sendo sentidas com o tato, com o olfato, com o paladar. Tem até postre (sobremesa).

Os músicos começam a tocar. Um pianista e uma clarinetista/saxofonista dedilham Piazzolla. Sons e cheiros invadem o ambiente. Estamos numa típica bodega argentina. Os saltos altos marcam a entrada de uma mulher, que conversa com o (barman? Dono? Garçom?). Há uma cena de ciúmes, algo se quebra, passa um trem, uma moto atravessa a sala (pelo menos o ruído), algumas piadas provocam risadas nos argentinos presentes (eu boiei em várias, confesso…). Alguém diz que o pão está ficando pronto, e sentimos cheiro de pão quente. Alguém fala do campo, e sentimos perfume de flores e terra molhada. E a tal mulher se revela uma soprano maravilhosa, entoando as canções de Piazzolla. Não vou me esquecer jamais da María de Buenos Aires, cantada na escuridão. Lo que ves, cuando no ves?

No final, uma vela é acesa, por mãos cegas. Por alguns momentos, vemos nossos companheiros de mesa, a arquitetura, os músicos. Aplausos, entre a perplexidade, o encantamento e o assombro. E as janelas se abrem, e estamos no segundo andar de um sobrado em Abasto, absolutamente impactados pela beleza do que acabamos de perceber. Até chuva sentimos, em certo momento, um borrifo perfumado que acompanha as últimas palavras da peça. Certamente, o espetáculo mais emocionante que não vi na minha vida.

PS: Pô, porque não temos algo assim no Brasil? Com tanta gente talentosa e cega por aí… Alô, Fundação Dorina Nowill, vamos montar o nosso Teatro Cego? Trabalho e renda, com dignidade artística para todos!

PS2: Graças ao patrocínio de uma vinícola (Graffigna) e o apoio de um restaurante, o ingresso sai por meros 160 pesos. Um casal gasta mais que isso pra comer pizza, em São Paulo, num ambiente ruidoso e onde não ver certas coisas seria uma benção.

PS3: 160 pesos = pouco mais de 60 reais (câmbio janeiro/2012).

Cruzando o Rio da Prata

Buenos Aires está aqui, na banda ocidental. Do outro lado, ficam os orientais, ou melhor, a República Oriental do Uruguai. Alguns barcos e balsas fazem a travessia, que cumpre todos os rituais de fronteira: passaporte, aduana, imigração.

O Atlantic III, da Buquebus, gigantesca lancha que leva carros e mais de 400 pessoas divididas em duas classes, mal sai do porto e abre as portas de sua… duty free! Uma manada de pessoas se atira sobre as quinquilharias de praxe, como se a vida dependesse daquilo. Teve gente que só saiu de dentro 50 minutos depois, quando a loja novamente fecha as portas, antes de atracar em solo uruguaio. Consumismo, a doença infantil do capitalismo…

                São 50 km, percorridos a 35 nós. Do outro lado, Colônia Del Sacramento, uma graciosa cidade colonial, fundada por portugueses lá no início do século XVII. O último enclave português abaixo do Rio Grande, que mudou de mãos várias vezes: espanhóis retomaram, e vice, e versa mais duas vezes, em disputas que incluíam até ingleses na jogada. Cidade estratégica para o contrabando da prata que vinha de Potosí pelo rio. Ou para o policiamento do contrabando. De qualquer modo, era invasão portuguesa, pois ficava além do Tratado de Tordesilhas.

                Hoje é Patrimônio Cultural da Humanidade. Calçamento em pedra pé-de-moleque, construções seculares, curiosos calhambeques pela rua, como se também os automóveis fossem tombados. Um posto de atendimento ao turista impecável, com mapas, dicas e instruções precisas, além de um vídeo-instalação bacana e uma linha do tempo com painéis de led interativos. Novíssimo, inaugurado em outubro de 2011.

                A cidade é dominada por um farol, cujo acesso é permitido ao turista. Lá de cima, o Rio da Prata é cor de jumento-quando-cruza. Águas barrentas, como o Amazonas, o São Francisco, como qualquer grande rio. Mas quanta história carrega em suas águas!

La Boca de Benito

La Boca. Caminito. O endereço turístico mais obrigatório de Buenos Aires. Mais que a Plaza de Maio, a Casa Rosada ou, sei lá, o túmulo de Evita Perón. Mas a “Santa”, como Guevara ou Maradona, está presente em murais, grafites, pôsteres, canecas, chaveiros, camisetas e toda sorte de badulaques. No próprio Caminito, acena da sacada junto com Gardel e Dieguito.

Mesmo com a infestação de turistas (havia dois navios vindos do Brasil ancorados no dia em que fui à Boca), ainda é possível se encantar com os artistas de rua, os dançarinos de tango, os gaúchos com roupas típicas, os mapuches e seu artesanato. Vários bares e restaurantes oferecem, além da parrilla, espetáculos de canto e dança.

Mas logo ali, ignorado por 95% dos turistas, está o belo museu Benito Quinquela Martín, com as obras do “inventor” do Caminito. O garoto órfão que, adotado por uma família italiana, se tornou o grande pintor da vida rude do cais. Navios, estivadores, armazéns e guindastes constituem a iconografia do mestre que, depois de rico e famoso, devolveu à região muito do que recebeu como inspiração. Coloriu as casas, doando as tintas, por achar que “a cor fazia bem para a alma”. Construiu o museu, acolhendo obras de outros artistas e criando um centro cultural em plena Boca. Um ídolo de merecido reconhecimento popular.

Saí da Boca feliz por ter conhecido melhor a obra de um grande homem, verdadeiro herói de carne e osso. Pena que a maioria dos brasileiros nem saiba quem é…