Leituras de férias

Muita gente que conheço diz que não encontra tempo pra ler. Alguns só leem jornais e revistas, outros até curtem poesia ou contos, mas não encaram qualquer coisa com mais de 30 páginas. Confesso que há períodos em que esse mal contemporâneo também me aflige. Vou deitar tão cansado (gosto de ler na cama, desde a infância) que leio duas páginas, os olhos começam a pesar e fecho o livro. No dia seguinte tenho de voltar e reler a última página, o que faz o rendimento de leitura ser abaixo do medíocre.

Minha mulher, professora, passa assim o ano todo. Quando chegam as férias, a primeira coisa que faz é correr para uma livraria e comprar quatro ou cinco romances, que lê em vinte dias. Boa leitora, ouve dicas, escolhe ótimos títulos, se informa com o livreiro de confiança. No caso, a Cida, da Livraria da Vila, que sempre acerta.

Neste começo de ano, resolvi aproveitar os poucos dias de folga e fazer o mesmo. Leitura de férias, adequadas para o réveillon chuvoso que assolou toda a região Sudeste. Comecei pelo parrudo Asterios Polyp, um fascinante tijolaço de páginas não numeradas, escrito e desenhado por David Mazzucchelli. Não é uma história em quadrinhos tradicional, mas alguma coisa entre isso e a alta literatura. Vencedor de importantes prêmios na categoria Graphic Novel, o livro tem como personagem um arquiteto arrogante e cínico de 50 anos, fracassado e solitário. Aos poucos, vamos conhecendo seu passado, sua vida de professor no interior dos EUA, e principalmente seu envolvimento com uma jovem de ascendência oriental com quem viveu por alguns anos. Entre citações literárias e filosóficas, Asterios vai se tornando real, um típico personagem de nossos tempos, complexo e desiludido. O desenho, quase esquemático, pouco realista, surpreende aqui e ali. Não é que o autor não saiba desenhar, pois ele foi o criador gráfico de Batman, Ano Um, obra que influenciou até o cinema.  Em Asterios Polyp até as (poucas) cores utilizadas refletem estados emocionais dos personagens, o que convida o leitor a interromper a leitura para observar alguns detalhes. Repare como o holofote rouba a atenção de Hana, artista iniciante, e vai para o pretensioso Polyp, enquanto a voz dela vai desaparecendo. Imagine descrever esta situação sem desenhos, apenas com palavras! É livro para reler/rever com prazer, pela riqueza semântica e por apontar novos caminhos para a literatura. Quem já leu os contos desenhados do mestre Will Eisner sabe do que estou falando.

Aí, respirei fundo e peguei o Passageiro do Fim do Dia, do carioca Rubens Figueiredo. Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e do Portugal Telecom, em 2011, instigou minha curiosidade. Não havia lido nada do Rubens, apenas traduções (o cara é craque nos russos, como Tchekhov e Tolstói). Um pequeno romance de 190 páginas, denso e tenso do início ao fim. O argumento é pouco atraente: um jovem vendedor de livros, pobre e meio avoado, pega um ônibus para ver a namorada, na periferia. A viagem se prolonga por causa um incidente meio nebuloso, e Pedro (o personagem) vai rememorando sua vida, o livro de Darwin que está lendo, o trabalho da noiva Rosane, a história do bairro, a violência urbana, o acidente que mudou seus planos, etc. O livro acaba antes que o ônibus chegue ao ponto final, e é admirável do ponto de vista de construção dramática. Não é leitura que vá agradar a todos, mas certamente é superior ao vencedor do ano passado (Se Eu Fechar os Olhos Agora, de Edney Silvestre), embora aquele tenha um final bem mais emocionante. Enfim, o Passageiro é um romance psicológico, com tintas machadianas pós-modernas. (Se eu fosse crítico literário escreveria frases como essa, e todos ficariam tentando adivinhar o que eu quis dizer…).

Mas não sou, felizmente. Apenas um leitor em férias. Que, aliás, não são bem férias, já que trabalho esta semana. Na semana que vem, estarei em Buenos Aires por alguns dias. Humm… que livro vou ler por aquelas bandas?

6 Responses to “Leituras de férias”


  1. 1 helion 08/01/2012 às 11:38 pm

    O Cantor de Tango, de Tomaz Eloy Martinez. Li durante a minha antepenultima viagem a Buenos Aires, numa tacada (noite) só, no café da esquina de Corrientes com Callao. Acompanhado de acepipes e de um bom vinho. Estava sozinho, depois de terminado o trabalho, e era a minha ultima noite na cidade. Não consegui largar até o fim, ou seja, o dia raiando.

  2. 3 vpaulics 10/01/2012 às 1:48 pm

    day tripper dos irmãos fábio e gabriel. leu? lindo.


  1. 1 Leituras de férias « FÓSFORO | iComentários Trackback em 09/01/2012 às 2:56 am
  2. 2 Prêmio São Paulo de Literatura 2012 « FÓSFORO Trackback em 25/09/2012 às 5:55 pm

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