Na terra de Borges

Extraordinária. É a primeira palavra que me ocorre para definir a fascinante experiência sensorial que tive em Buenos Aires, na noite de anteontem, ao assistir uma peça do Teatro Ciego. Já ouvira falar de grupos assim em Londres e Nova York: uma associação de deficientes visuais que montam espetáculos onde exploramos os “outros” sentidos. O Teatro Ciego portenho se dá ao luxo de manter várias peças em repertório, na sua sede em Abasto. Tem comédia, drama, até infantil. Escolhemos o jantar-espetáculo A Ciegas com Luz.

Um grupo de, no máximo, 50 pessoas, é levado a um ambiente totalmente escuro. Negrume absoluto. Somos guiados delicadamente por mãos cegas que transitam – quase flutuam – entre as mesas onde vão nos acomodando. Ao sentar, somos informados que há um prato retangular à nossa frente, e que devemos comer com os dedos. Não se assuste, todos passamos um álcool gel nas mãos, na sala de espera. À nossa direita há um copo, à frente uma cesta de pães e grissinis. Podemos escolher vinho tinto, branco, refrigerantes ou água. Aos poucos, fui tateando e descobrindo o espaço ao meu redor. O copo, localizei rapidinho (anos de prática!), as comidinhas foram sendo descobertas. Um pedaço de pizza de entrada, um espetinho de legumes grelhados, um de carnes vermelhas e brancas (há um cardápio especial para vegetarianos), delicadezas que vão sendo sentidas com o tato, com o olfato, com o paladar. Tem até postre (sobremesa).

Os músicos começam a tocar. Um pianista e uma clarinetista/saxofonista dedilham Piazzolla. Sons e cheiros invadem o ambiente. Estamos numa típica bodega argentina. Os saltos altos marcam a entrada de uma mulher, que conversa com o (barman? Dono? Garçom?). Há uma cena de ciúmes, algo se quebra, passa um trem, uma moto atravessa a sala (pelo menos o ruído), algumas piadas provocam risadas nos argentinos presentes (eu boiei em várias, confesso…). Alguém diz que o pão está ficando pronto, e sentimos cheiro de pão quente. Alguém fala do campo, e sentimos perfume de flores e terra molhada. E a tal mulher se revela uma soprano maravilhosa, entoando as canções de Piazzolla. Não vou me esquecer jamais da María de Buenos Aires, cantada na escuridão. Lo que ves, cuando no ves?

No final, uma vela é acesa, por mãos cegas. Por alguns momentos, vemos nossos companheiros de mesa, a arquitetura, os músicos. Aplausos, entre a perplexidade, o encantamento e o assombro. E as janelas se abrem, e estamos no segundo andar de um sobrado em Abasto, absolutamente impactados pela beleza do que acabamos de perceber. Até chuva sentimos, em certo momento, um borrifo perfumado que acompanha as últimas palavras da peça. Certamente, o espetáculo mais emocionante que não vi na minha vida.

PS: Pô, porque não temos algo assim no Brasil? Com tanta gente talentosa e cega por aí… Alô, Fundação Dorina Nowill, vamos montar o nosso Teatro Cego? Trabalho e renda, com dignidade artística para todos!

PS2: Graças ao patrocínio de uma vinícola (Graffigna) e o apoio de um restaurante, o ingresso sai por meros 160 pesos. Um casal gasta mais que isso pra comer pizza, em São Paulo, num ambiente ruidoso e onde não ver certas coisas seria uma benção.

PS3: 160 pesos = pouco mais de 60 reais (câmbio janeiro/2012).

13 Responses to “Na terra de Borges”


  1. 1 Adelina 23/01/2012 às 12:42 am

    Oi amigos, que bom que vcs gostaram de Bs As, pena que a gente não se viu… Não conhecia esse teatro, mas vou procurar. Só digo que o preço é carerésimo para nós, simples mortais habitantes desta cidade. Conto também, que quando eu fui ao Museu do Futebol, no Pacaembu, na sala à esquerda da entrada, havia uma produção sensorial “cega”, para “sentir” o futebol. Também me deixou emocionada. A vida é assim… a gente descobre muita coisa quando olha com outros olhos… às vezes de turista. Beijo grande para os dois!

    • 2 Daniel Brazil 23/01/2012 às 11:47 am

      Oi, Adelina! Realmente, sentimos tua falta. Mas, pense bem, 160 pesos por um jantar e uma peça de teatro não é tão caro. Olha que eu e a Carmen saímos satisfeitos, nem passou pela cabeça comer uma empanada antes de dormir. fomos de metrô (Estação Carlos Gardel) e voltamos de táxi, felizes por termos sentido um espetáculo único.

      • 3 Daniel Brazil 23/01/2012 às 11:53 am

        Aliás, olhar com outros olhos não foi bem o caso… Digamos, sentir com outros sentidos!

  2. 4 Thaís Brazil 23/01/2012 às 12:57 am

    Deve ter sido fantástico!
    Estava conversando com Rosa sobre Abraços Partidos (Almodóvar) e, nos extras, existe uma cena de um jantar às escuras. Tio, vocês viveram uma cena do Almodóvar, que incrível!!

    • 5 Daniel Brazil 23/01/2012 às 11:51 am

      Pois é, Thaís, virou moda em alguns lugares do planeta esse negócio de jantar no escuro. A comida é sentida de outro jeito, prestamos mais atenção às texturas, sabores e aromas. E neste caso, com bela música e bom teatro incluído.

  3. 6 Tainá Almeida 23/01/2012 às 8:47 am

    Para falar a verdade quando terminei de ler me deu um gostinho de quero mais… Deu vontade de mudar meu roteiro de férias só para passar por essa experiência…. Será que tem coisas assim no chile??? :p
    Amei… amei…

    • 7 Daniel Brazil 23/01/2012 às 11:55 am

      Pois é, Tainá, acho que o Chile ainda não acordou para essa idéia. Tá que nem o Brasil, de olhos fechados…

      • 8 Tainá Almeida 23/01/2012 às 6:46 pm

        Na verdade hoje no trabalho um amigo me falou que em São Paulo tem… {a chamada ‘festa sensorial’} Mas pelo que ele disse é algo meio underground…

  4. 9 Daniel Brazil 23/01/2012 às 7:06 pm

    Festa sensorial? Claro, qualquer casal num quarto escuro experimenta isso. Ou vários casais.
    Mas algo feito/criado/produzido/interpretado por cegos é a diferença. Há um sentido maior nisso, Tainá. Não é à toa que citei Borges, no título do post.

    • 10 Tainá Almeida 24/01/2012 às 10:29 pm

      Claro, claro… mas no caso a pessoa que me contou sobre isso disse que a proposta era essa mesma… uma festa underground produzida para que as pessoas pudessem experimentar os outros sentidos… Porém entendi o seu ponto…

  5. 11 Carmen 23/01/2012 às 10:15 pm

    Adelina, foi uma pena mesmo esse desencontro. Teríamos adorado por a conversa em dia em um café!

    Quanto a peça, eu digo que vale! (Essa com jantar é a mais cara). Depois da constatação de que não faz MESMO a menor diferença abrir e fechar os olhos – não há o menor vestígio de luz no ambiente – vc (eu, pelo menos) se “apropria” do microespaço rapidamente e com certa facilidade: identificar os copos, o prato e a comida nele, a cesta de pães, reconhecê-los pela textura. Passado esse momento, caímos na real de que estamos em um ambiente bem mais amplo, em uma mesa com (bem) mais gente: as conversas começam a rolar tímidas e tensas no início, mas aos poucos começamos a imaginar quem são nossos vizinhos, quantos são, o tamanho da mesa… A imagem vai se formando lentamente, aos poucos, mas inexoravelmente! Como o timbre de voz, entonação, etc. são muito mais ricos do que percebemos!
    Mas pra mim, o mais incrível mesmo, foi, quando as velinhas começaram a ser acesas, ver os garçons, a cantora, etc, que inclusive acendiam as ditas cujas com uma precisão e delicadeza incríveis, continuarem a se mover entre as mesas, deslizando com segurança entre nós – naquele mesmo escuro absoluto de segundos atrás, tão concreto! como se não existisse – ficou uma grande sensação de que deficientes mesmo eramos ´nosoutros´!
    Experiência sensacional! Impossível de ser descrito com palavras!

  6. 12 Lucas Bender 28/01/2012 às 11:27 am

    Fantástico, nunca ouvi falar disso. Grande dica!


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