Museus de Buenos Aires

Museu não é uma instituição muito frequentada por brasileiros. Ainda há quem pense que é “um monte de velharias”, o que revela não apenas ignorância, mas lembranças infantis de uma entidade retrógrada e empoeirada, à beira da extinção. Cada vez mais os museus são interativos, cheios de tecnologias digitais, projeções holográficas, telas de LED, sons ambientes, sites funcionais, auditórios multiuso, ambientes sensoriais. Em São Paulo, museus como o do Futebol e o da Língua Portuguesa são verdadeiras maravilhas modernas, capazes de encantar qualquer criança ou adulto. O MIS poderia ser mais do que é, já que transita pela imagem e pelo som.

Claro que um apreciador de artes plásticas – pintura, escultura, gravura, fotografia (?), etc. – não quer ver vídeos ou projeções, mas a obra em si. Sentir a aura da obra original, “descoberta” por Walter Benjamin. O venerável Masp, a charmosa Pinacoteca, o MAM, o MAC, o MAB e mais alguns cumprem esta função, sem deixar de incorporar recursos tecnológicos acessórios que facilitem o acesso a informações. Uns mais, outros menos.

Mas museu é um negócio que a gente visita quando viaja, certo? Muita gente não conhece os museus de sua própria cidade… É um raciocínio estranho, como se conhecer a própria cultura fosse algo desnecessário. Por isso, em qualquer lugar do mundo, é mais comum encontrar turistas que nativos nestes templos do conhecimento.

Em uma semana em Buenos Aires, visitei pelo menos cinco museus. Comecei pelo mais histórico deles, onde está a origem de tudo: o Museo de Arte Hispano-Americano. Há até peças pré-colombianas, mas o forte está no período colonial (que para os argentinos é virreinal, de vice-reino). Muita prataria, peças religiosas, mobiliário e utensílios nobres, além de esculturas e pinturas. O casarão (Palácio Noel) é um oásis no meio do bairro do Retiro, com seus jardins em estilo espanhol.

O imponente MNBA (Museu Nacional de Belas Artes) fica em Palermo, com sua obras que vão do século XII até o XX. O ambiente austero, de arquitetura típica das grandes edificações do século XIX, exibe em 24 salas vários períodos e escolas: barrocos,renascentistas, flamencos, franceses… Destaca-se uma sala dedicada ao fantástico Goya, a coleção de impressionistas, as esculturas de Rodin, os espanhóis e, claro, os pintores argentinos, pouco conhecidos por aqui. Vários paralelos podem ser traçados entre os acadêmicos de lá e de cá, todos influenciados pelas escolas europeias. Aquele impacto revelador de se encontrar frente a frente com uma obra que só conhecia por fotografia (ou pela internet) se deu com um retrato feminino de Rembrandt, um Jesus de El Greco, uma ninfa de Manet, um moinho de Van Gogh, um Gauguin da fase tropical. E tem Monet, vários Degas, Modigliani, De Chirico, Leger, Paul Klee, Picasso, Kandinski, Moore, Pollock…

A festa da modernidade está mesmo no Malba, onde fica a maior coleção de arte latino-americana do continente. Com exposição comemorativa dos 10 anos de existência, o moderno prédio transmite vibração e frescor. Dá um pouquinho de inveja ver o Abaporu da Tarsila por lá, junto com obras de Berni, Rivera, Portinari, Volpi, Frida Kahlo, Di Cavalcanti, Torres-Garcia, Oiticica, Botero e outros…

O Palais de Glace é um espaço contemporâneo e jovial, onde antes funcionava um rinque de patinação no gelo (daí o nome). Também moderno é o Centro Cultural Borges, anexo à Galeria Pacífico, onde vi fotos emocionantes e belíssimas dos selecionados da Bienal Internacional de Fotografia. Há também uma individual de Bob Gruen, um dos principais fotógrafos do rock mundial. Conhece aquele cara lá no fundo?

Completei o ciclo com o Museu Quinquela Martin, do qual já falei aqui. E nem tentei ir no museu do Boca Juniors, do Carlos Gardel ou da Evita. Nem mesmo no de Xul Solar, artista que Jorge Luis Borges considerava o homem mais extraordinário que havia conhecido. Devia ser uma figura fascinante, mas não curto muito sua pintura.  É bom lembrar que Borges não enxergava muito bem…

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