Arquivo para janeiro \17\UTC 2012



Na terra de Gardel

Uma semana na terra de Gardel, Evita, Piazzolla e Maradona. Verano porteño, com céu absolutamente limpo de nuvens e um calor de 30 graus à sombra. Os bares com mesinhas na calçada, cheios até altas horas da madrugada. Bermudas, shorts e blusinhas sem manga para todo lado. Centenas de turistas – principalmente brasileiros – cambiando dólares, enchendo os restaurantes, procurando shows de tango, colorindo os parques.

Aliás, como tem parque em Buenos Aires! Pobre São Paulo, sufocada pelo concreto e pelos automóveis, prima rica, e muito mais pobre… E como tem museus! Comecei pelos históricos, pretendo chegar aos modernos. O de Arte Hispano-Americana, no Palácio Noel, é lindo, com peças maravilhosas de prata e madeira, além de pinturas e esculturas barrocas. Aliás, o rio da Prata tem esse nome por ter sido o grande escoadouro da prata peruana para a Europa, a primeira grande “veia aberta da América Latina”. Buenos Aires surgiu ali, no meio do caminho.

A terra de Borges, Berni, Yupanqui e Che Guevara surpreende os turistas. Alguns, pelo menos. Uma perua, no elevador do hotel, pergunta:

– Brasileiros?

– Sim.

– Todos fazendo compras por aqui, né? Tem ofertas incríveis! (O sotaque revelou a origem paulista).

– Bem… Não compramos nada até agora, mas visitamos dois belos museus.

– (cara de incrédula) Museus?… Vale a pena?

Não, senhora. Pra gente como você, nunca valerá a pena, infelizmente. Assim como acharia um desperdício se soubesse que, no dia seguinte, iríamos alugar duas bicicletas e passear na Costanera, durante toda a tarde. Coisas simples, e quase mágicas, que a terra de Cortázar, Sábato, Quinquela Martín e Charly Garcia nos oferece com um encanto todo especial.

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Racismo

Em 1988, ano do centenário da Abolição, ganhei um prêmio da Ford Foundation para fazer um vídeo sobre “negritude”. Escolhi o tema do negro no mundo do trabalho, e fui à luta. Sindicalistas relutantes, esquerda branca racista (direita, então, nem se fala…),  falta de registros históricos, pouca grana.

Mesmo assim, consegui entrevistar pessoas fundamentais, gente que faz parte da história deste país, heróis do meu panteão pessoal. Um deles é o professor Clóvis Moura, que abriu as portas de seu pequeno apartamento no bairro de Santa Cecilia para receber aqueles jovens malucos (um branco, um negro e um cor-de-burro-quando-foge). Adoentado, mas cheio de energia, conversou por duas horas conosco. Encerrei o vídeo com uma frase dele: “Nós, negros, precisamos ser a esquerda brasileira!”.

Outra frase, perdida no meio do vídeo (eram mais de 20 entrevistados…) me voltou à memória nesta semana: “Numa greve, num piquete, o negro é quem leva a primeira porrada.”

Clóvis Moura redarguia à afirmação de um sindicalista negro (hoje deputado federal), de que no sindicato “todos eram iguais”. Este vídeo, USP-2012, mostra o quanto o professor sabia das coisas.

Leituras de férias

Muita gente que conheço diz que não encontra tempo pra ler. Alguns só leem jornais e revistas, outros até curtem poesia ou contos, mas não encaram qualquer coisa com mais de 30 páginas. Confesso que há períodos em que esse mal contemporâneo também me aflige. Vou deitar tão cansado (gosto de ler na cama, desde a infância) que leio duas páginas, os olhos começam a pesar e fecho o livro. No dia seguinte tenho de voltar e reler a última página, o que faz o rendimento de leitura ser abaixo do medíocre.

Minha mulher, professora, passa assim o ano todo. Quando chegam as férias, a primeira coisa que faz é correr para uma livraria e comprar quatro ou cinco romances, que lê em vinte dias. Boa leitora, ouve dicas, escolhe ótimos títulos, se informa com o livreiro de confiança. No caso, a Cida, da Livraria da Vila, que sempre acerta.

Neste começo de ano, resolvi aproveitar os poucos dias de folga e fazer o mesmo. Leitura de férias, adequadas para o réveillon chuvoso que assolou toda a região Sudeste. Comecei pelo parrudo Asterios Polyp, um fascinante tijolaço de páginas não numeradas, escrito e desenhado por David Mazzucchelli. Não é uma história em quadrinhos tradicional, mas alguma coisa entre isso e a alta literatura. Vencedor de importantes prêmios na categoria Graphic Novel, o livro tem como personagem um arquiteto arrogante e cínico de 50 anos, fracassado e solitário. Aos poucos, vamos conhecendo seu passado, sua vida de professor no interior dos EUA, e principalmente seu envolvimento com uma jovem de ascendência oriental com quem viveu por alguns anos. Entre citações literárias e filosóficas, Asterios vai se tornando real, um típico personagem de nossos tempos, complexo e desiludido. O desenho, quase esquemático, pouco realista, surpreende aqui e ali. Não é que o autor não saiba desenhar, pois ele foi o criador gráfico de Batman, Ano Um, obra que influenciou até o cinema.  Em Asterios Polyp até as (poucas) cores utilizadas refletem estados emocionais dos personagens, o que convida o leitor a interromper a leitura para observar alguns detalhes. Repare como o holofote rouba a atenção de Hana, artista iniciante, e vai para o pretensioso Polyp, enquanto a voz dela vai desaparecendo. Imagine descrever esta situação sem desenhos, apenas com palavras! É livro para reler/rever com prazer, pela riqueza semântica e por apontar novos caminhos para a literatura. Quem já leu os contos desenhados do mestre Will Eisner sabe do que estou falando.

Aí, respirei fundo e peguei o Passageiro do Fim do Dia, do carioca Rubens Figueiredo. Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e do Portugal Telecom, em 2011, instigou minha curiosidade. Não havia lido nada do Rubens, apenas traduções (o cara é craque nos russos, como Tchekhov e Tolstói). Um pequeno romance de 190 páginas, denso e tenso do início ao fim. O argumento é pouco atraente: um jovem vendedor de livros, pobre e meio avoado, pega um ônibus para ver a namorada, na periferia. A viagem se prolonga por causa um incidente meio nebuloso, e Pedro (o personagem) vai rememorando sua vida, o livro de Darwin que está lendo, o trabalho da noiva Rosane, a história do bairro, a violência urbana, o acidente que mudou seus planos, etc. O livro acaba antes que o ônibus chegue ao ponto final, e é admirável do ponto de vista de construção dramática. Não é leitura que vá agradar a todos, mas certamente é superior ao vencedor do ano passado (Se Eu Fechar os Olhos Agora, de Edney Silvestre), embora aquele tenha um final bem mais emocionante. Enfim, o Passageiro é um romance psicológico, com tintas machadianas pós-modernas. (Se eu fosse crítico literário escreveria frases como essa, e todos ficariam tentando adivinhar o que eu quis dizer…).

Mas não sou, felizmente. Apenas um leitor em férias. Que, aliás, não são bem férias, já que trabalho esta semana. Na semana que vem, estarei em Buenos Aires por alguns dias. Humm… que livro vou ler por aquelas bandas?

Recomeço

E lá se foi 2011. Ano cheio de voltas, revoltas e reviravoltas. Revoluções pipocando, gente com causa e com camisa, sem causa e sem camisa, indo às ruas e provocando ruído no sistema.

Creio que ainda não assimilamos todas as sacudidas de 2011, tsunami incluído. As marcas vão ser visíveis por muito tempo. Para quem acha que o mundo vai acabar em 2012, aviso que em 2011 o mundo acabou para muita gente.

Aqui na terrinha, um ano de escândalos. Muitos, fabricados pela imprensa, que cada vez mais tem seu papel questionado. Vamos discutir um marco regulatório para as comunicações, finalmente? Para que não aconteçam mais vergonhas como a série de reporcagens sobre febre amarela da Falha de SP, por exemplo, pra não falar das mais recentes.

E muitos escândalos reais, claro. Politiquinhos e politiqueiros continuam sujando o nome da Política de verdade, sem a qual nenhum povo ou país progride. Este ano temos eleições, Comissão da Verdade, e o Rio+20 promete polarizar as atenções do planeta. Sejamos realistas, tentemos o impossível!

Pessoalmente, 2011 foi um ano atípico. Tive um trabalho fixo (coisa rara na última década!), mais alguns ocasionais. Escrevi um livro, plantei algumas flores, não tive mais filhos (felizmente). Abandonei o violão, e ouvi menos música do que deveria. Quase não fui a shows, e me atualizei pela internet (baixando discos autorizados pelos músicos, pois não compro CD ou DVD pirata). Pouco cinema (Melancolia foi o que mais marcou), algum teatro.

Continuo a escrever na Revista Música Brasileira, além de dirigir e escrever na webtv da CUT. Pra quem não conhece bem o que faz uma central sindical, digo que – além de lutar por emprego e renda, claro – é uma das organizações sociais mais envolvidas em temas como a luta contra o novo Código Florestal, a organização do Rio+20, a democratização dos meios de comunicação, a defesa do serviço público, da educação para todos, da reforma agrária, política e fiscal, do fim do imposto sindical, dos monopólios e da violência no campo e na cidade. Temas que pouco abordo aqui, mas que fazem parte de minha labuta diária.

Cumprindo um ritual de vários anos, li pelo menos um clássico. Desta vez foi Pedro Páramo, do Juan Rulfo. Mas podemos considerar já clássicos o Lobo Antunes (Os Cus-de-judas) e o Hatoum (Dois Irmãos). Aliás, confesso que pela segunda vez tentei ler Perto do Coração Selvagem, da nossa Clarice, e não consegui chegar ao fim. Tenho algum problema com essa diva fugidia, de quem aprecio as crônicas, contos e o último romance.

Foi um ano de poucas viagens. Ilhabela foi quase uma estadia, o Rio uma passagem, Joanópolis um fim de semana prolongado. Fernando de Noronha sim, foram férias, assim como o Carnaval no Saco do Mamanguá, no litoral do Rio. E Paraty, na chuvosa entrada de 2012. As viagens interiores foram mais demoradas, embora a paisagem nem sempre seja tão bela.

Enfim, para quem teve paciência de me acompanhar, obrigado. Alguns conheço pessoalmente, outros nem imagino onde estejam ou o que fazem. Foram 97 posts em 2011, com uma média de 180 acessos diários. Alguns títulos deram picos de 300, outros ficaram no quase anonimato. É muito menos que qualquer top blog, porém muito mais do que eu pretendia, no início. Entro no quarto ano do Fósforo, tentando acender alguns rastilhos, e convido você a fazer o mesmo. Afinal, cobra que não anda vira cinto…


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