Arquivo de fevereiro \28\UTC 2012

Carnaval no Mamanguá

Faz dez dias que não escrevo aqui, meio por preguiça, meio por ressaca do Carnaval. Pelo segundo ano consecutivo não pulei na Vai Quem Quer, gloriosa banda paulistana que cresce a cada ano. Teimosamente, fui a Paraty resolver um problema com o sol, que não deu as caras no réveillon e no Carnaval do ano passado. E dessa vez ele entregou os pontos, compareceu com toda sua majestade.

O Saco do Mamanguá, um dos trechos mais belos do litoral brasileiro, fica a 40 minutos de barco de Paraty Mirim. Não tem luz elétrica nem telefone, não pega celular. Geladeira a gás, chuveiro aquecido a placa solar. E uma paisagem que deixa qualquer um sem fôlego. Até a turma do Crepúsculo, que filmou ali o final do último episódio. Claro que não assisti, me contaram. A casa onde se hospedaram é apontada pelos barqueiros, virou ponto turístico. É esse telhado aí, na foto abaixo.

A foto foi feira do Pão de Açúcar, o pico mais alto do Mamanguá, também conhecido por Mama. Escalamos no domingo.Visual inebriante, pernas doendo no dia seguinte. Dá pra esquecer uma paisagem dessas?

Olha só o visual do quarto onde dormi. Acordar cedo, abrir a janela e ver essa paisagem desperta uma estranha vontade de nunca mais voltar para São Paulo…

Mas acabei voltando. E decidido a cair fora de Sampa assim que for possível. Convenhamos: Metrópole é uma ideia que não deu certo na história da humanidade. Tá tudo errado! Lembro-me de ter assistido um encontro internacional de urbanistas, na Eco-92, onde os caras demonstraram que a cidade ideal, com todos os benefícios (universidade, estádio, opções de lazer, transporte público de qualidade, etc.) teria 300 mil habitantes. Esse monstro onde vivo tem 12 milhões! Não pode dar certo…

Os dez sambas mais bonitos

Outro dia conversava com dois colegas, mais jovens que eu. Falávamos de música  brasileira, e o papo derivou para o samba, que eles acham meio quadrado, careta, etc. Em cinco minutos, percebi que se tratava de desinformação. Ou falta de formação. O conhecimento de samba da dupla era superficial, embora conhecessem tudo de rock.  Comecei a citar um e outro, lembrei alguns versos clássicos, e me surpreendi com o argumento:

– Ah, isso eu conheço, acho lindo, mas não é samba!

– Ué, por que não?

– O Cazuza cantava isso! (Ou a Cássia Eller, o Caetano, ou alguma cantora moderninha).

Achei a lógica meio estapafúrdia, mas interessante. Passamos a discutir o papel da mídia na difusão de valores  autênticos, a cultura brasileira, o colonialismo cultural. Eram formados em comunicação, portanto alfabetizados. E aí derivamos para as novas mídias, a internet, o Youtube. Eles alegaram que essas coisas não se encontram com facilidade. Voltei pra casa intrigado, e liguei o computador. Fiz uma lista apressada dos dez melhores sambas de todos os tempos (poderiam ser vinte, trinta…) e em menos de 30 minutos, vi que nove estavam na rede, em diversas versões.

Enviei para eles, numa ordem aleatória. Gostaram. Creio que abri uma porta. No mínimo, para futuros bate-papos. E olhe que não coloquei nenhuma Bossa Nova, que no fundo, no fundo, são sambinhas!

1) Paulinho e Marisa Monte cantam Para Ver as Meninas, com Rafael Rabello.

2) A Flor e o Espinho, na voz do próprio autor, Nelson Cavaquinho.

3) Luz Negra, também do Nelson Cavaquinho. Não tem jeito, sou fã do cara! Aqui, na versão sugerida pelos camaradinhas:

4) Um samba que adoro, de Fernando Lobo, imortalizado por Caetano Veloso nos anos 60. Escolhi aqui a versão de Maysa, intensa cantora que também merece ser mais conhecida.

5) Ninguém ousa discutir Cartola. O duro é escolher a mais bela de suas canções… Cartola é Deus, e Paulinho seu único profeta.

6) Pressentimento é um samba maravilhoso. Escolhi uma versão com o autor, Elton Medeiros, acompanhado por uma sambista de responsa.

Quem quer ouvir uma versão mais moderna de Pressentimento, pode experimentar a maravilhosa Roberta Sá. Recomendo!

7) Aqui arrisquei algo menos óbvio. Este samba de Synval Silva, motorista de Carmen Miranda, é perfeito.  Ná Ozzetti fez uma linda versão nos anos 80. O Youtube me ofereceu o prêmio de ouvir com Célia, uma das maiores cantoras dessa país. É um slide-show meio tosco, onde aparece até uma imagem de Jackson do Pandeiro (?). Feche os olhos e ouça a música!

8) Como? Não tem Chico Buarque?!? Tem, claro. Outra escolha difícil, entre muitas obras primas. Um samba nada menos que maravilhoso, na voz do autor.

9) Aqui cheguei no único furo do Youtube. Procurei um samba do Baden Powell, gênio absoluto. Não encontrei “Voltei”, com letra do Paulo César Pinheiro. No lugar deste, vai outro da dupla, Refém da Solidão. Só pra chatear, com a divina Elizeth:

10) Fiquei tão emocionado ao encontrar Baden que resolvi bisar, desta vez em parceria com Vinicius. Apelo, outra prima obra:

Como eu temia, dez é pouco. Aguarde a lista dos vinte, com Geraldo Pereira, Wilson Batista, Noel Rosa, Vanzolini, João Nogueira, Mauro Duarte, Dorival Caymmi, Lupiscínio e mais uns bambas. E vinte será pouco!

Ponto de ônibus

Foi em Fernando de Noronha, em 2011, que topei com esses pontos de ônibus. Achei bem simpática a ideia de homenagear pessoas do lugar!

O curioso é que José Ferreira tem o apelido de Duda, e João Januário de Zé. Vá entender…

Tom Jobim no cinema

Uma delícia ir ao cinema e assistir na tela grande o maestro soberano desfilar sua elegância. O filme de Nelson Pereira dos Santos, Dora Jobim e Miúcha dispensa discursos. É um recorte – entre muitos possíveis – das canções do mais internacional dos compositores de música popular brasileira.

                O filme abre com cenas do Rio nos anos 50, mostrando a construção do Aterro do Flamengo. A cidade-tema de tantas canções jobinianas pontua, aqui e ali, o desfile de astros: Adriana Calcanhoto, Alaíde Costa, Agostinho dos Santos, Carlinhos Brown, Chico Buarque, Diana Krall, Dizzy Gillespie, Elis Regina, Ella Fitzgerald, Elizeth Cardoso, Frank Sinatra, Gal Costa, Henri Salvador, Jean Sablon,  Lisa Ono, Maysa, Milton Nascimento, Miúcha, Nara Leão, Sammy Davis Jr, Sara Vaughan, Stacey Kent e mais uma penca (penca que conta com Caetano, Gil, Paulinho da Viola, Vinicius, Tom Jobim, etc.).

A ordem alfabética me salva da hierarquia do gosto, no parágrafo anterior. Prefiro ouvir uma música mais de uma vez, antes de dar opinião. Idem, de um filme como esse, que é todo música. Mas, quer saber? Chapei no velho Peterson, me encantei com a Calcanhoto, achei a Lisa Ono adequada, Maysa envolvente, Carlinhos Brown surpreendente, Elis perfeita, a italiana Mina engraçada, Stacey Kent brejeira, e a banda Nova chatinha. Nota-se certa acomodação estética do gênio no fim da vida, cercado de noras e agregadas bonitinhas, em apresentações medianas (pra não dizer medíocres).

Mas o homem é um mestre. A obra é genial, um dos pontos altos da música popular do século XX. Não é à toa que os maiores jazzistas se renderam à bossa nova, reconhecendo que foi o gênero que mais influenciou sua linguagem musical.

Tá tudo lá? Claro que não. Tom Jobim tem mais de duzentas no catálogo, um filme só não dá conta. Algumas preferidas, minhas e de muita gente, não estão lá. É bom lembrar que é um filme, e que algumas canções lindas só existem em áudio, sem imagens. Na minha lista pessoal, faltam Eu Te Amo (Tom e Chico), Passarim e o Tema de Amor de Gabriela.  Mas o resto… que resto! Você vai ouvir Desafinado, Corcovado e Garota de Ipanema em várias línguas e épocas, e se comover em muitos momentos. Confesso: chorei pra caramba!

Trilhas Urbanas Portenhas

Que Buenos Aires tem belos parques quase todo mundo sabe. Mas que tem uma reserva ecológica dentro do perímetro urbano, com trilhas rústicas à beira do Rio da Prata, você sabia? Um vasto banhado, que na época das chuvas forma vários lagos, onde biguás, patos e gaivotas se reproduzem, e que no auge do verão secam, tornando-se um grande capinzal.

Curioso é o contraste entre o parque, bem ali na costanera, e Puerto Madero, o mais caro e moderno bairro da cidade. Para quem mora em São Paulo, parece uma Berrini à beira do rio. Rodamos por dois dias por ali, de bicicleta, sentindo a diferença. Que beleza é uma cidade (quase) plana para um ciclista!