Arquivo de março \28\UTC 2012

Na ponta dos dedos

Mano Marcelo, grande músico e professor, integrante do ótimo Duo Violeta, lança amanhã seu primeiro livro, dedicado a todos que querem tocar de verdade, em grupo. Arranjos originais, peças inéditas, e um repertório que evidencia o melhor da música popular brasileira.

Estarei lá. O último a chegar é mulher do padre!

Tocando com o dedão

‘Como a maioria dos adolescentes, houve uma época em que desejei tocar um instrumento. Curtia os guitarristas de rock, mas uma guitarra era algo inalcançável.  Um teclado, então, nem pensar. Me virei num precário violão, com umas sopradas eventuais numa flautinha de plástico. Comecei sem professor, de orelhada. E logo percebi que algo me atrapalhava: era canhoto.

Inverter as cordas do violão foi uma boa dica, depois de muito apanhar. Espiava na TV um acorde, e corria para o espelho, onde podia fazer a mesma posição invertida. Depois, aprendi a ler naturalmente, com inversão, as revistinhas cifradas de banca (velha Vigu!). Desenvolvi certa habilidade, mas nunca me tornei um músico profissional. Costumo dizer que a música é uma espécie de amante, com quem terei encontros íntimos a vida toda (espero). Se houvesse casado com ela, não ia dar certo…

Solava com o dedão, contente, até que algum sabido disse que eu tocava errado. Deveria aprender a posição de todos os dedos da mão esquerda (direita, para os destros), puxando ou beliscando as cordas. Foi um atraso de um ou dois anos, até reaprender o “jeito certo”. Lá pelos vinte anos, era um tocador razoável. Mas o “jeito torto” era bem mais legal, confortável para mim.

Nunca larguei o violão, mas virou apenas um companheiro eventual. Aprendi um pouquinho de piano, herdei uma flauta de verdade do meu avô, arrisquei até a compor um choro no bandolim. Hoje em dia cada vez toco menos, premido pelas circunstâncias. As letras me interessam mais que as notas musicais, atualmente. Mas quando ouço um cara como Wes Montgomery, um dos guitarristas mais admirados do jazz, ainda me quedo embevecido.

O grande golpe veio há pouco tempo, com a internet, esse Aleph  que nos permite ver o tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Descobri, mortificado, que o cara tocava só com o dedão! Eu, que nasci gauche na vida, jamais devia ter seguido o conselho de me endireitar, me enquadrar nas regras, me alinhar. Não digo que seria um Montgomery, lógico, mas provavelmente arrancaria alguns suspiros admirados daquelas garotas que frequentavam as rodas de violão, na faculdade. Em vez de ser um  tocador “diferente”, virei um simples tocador medíocre, igual a tantos outros.

O mundo não perdeu um grande artista, no meu caso. Já com Wes… espia só!

O Abaré vai continuar!

Talvez muita gente não compreenda o significado desta exclamação. Abaré é um barco-ambulatório que atende as populações ribeirinhas da região de Santarém, nos rios Tapajós e Arapiuns. Um projeto que começou há mais de 20 anos, pela visão pioneira do médico Eugênio Scannavino, criador da ONG Projeto Saúde e Alegria.

 

Seu irmão Caetano, coordenador do projeto, é meu amigo há muitos anos. Estive duas vezes em Santarém, conhecendo e filmando o PSA. Na segunda vez, em 2006, tive o prazer de participar da viagem inaugural do Abaré, um barco equipado com consultórios de diversas especialidades, doado por uma entidade holandesa, a Terre des Hommes. Só há outro igual no mundo, na Tailândia.

 

Felizmente a prefeitura de Santarém entrou com apoio, pois o projeto é tão premiado que virou política pública. A pendenga jurídica foi resolvida, e a população daquele lugar maravilhoso pode comemorar.

 Espero voltar a Alter do Chão e dar um abraço no Caetano e em toda a equipe. Enquanto isso, estouro aqui o meu pequeno rojão de comemoração, feliz pela continuidade de um dos mais belos programas sociais que já vi na vida.

Guerra e Paz

Não, não vou comentar sobre a obra-prima de Tolstói, que os russos chamam de Война и миръ. Confesso que li na adolescência, me impressionou muito, mas preciso reler com olhos de adulto. Está na minha lista de indispensáveis para uma temporada de cama, seja lá por que motivo. Perna quebrada, espero, e não algo mais grave.

Hoje fui ver os painéis homônimos de Portinari, no Memorial da América Latina. São 140 m² de óleo sobre tela, montados em díptico, capazes de emocionar o mais alheio dos indivíduos. Uma realização do espírito, da vontade e do talento, capaz de se ombrear à Guernica de Picasso, ou aos momentos mais sublimes de Orozco, Rivera e Siqueiros.

Portinari é o maior pintor brasileiro do século XX. A didática exposição mostra a enormidade de esboços, desenhos, ensaios e maquetes que o artista executou antes de se aventurar na imensidão. Cada um, isolado, é uma preciosidade. Os cães-hienas da guerra, as mães chorando o filho morto, os cavalos de olhos alucinados, os meninos que empinam pipas, as meninas em ciranda, as mãos de dedos entrelaçados, tudo é resultado de invenção e memória, cultura e poesia.

Não há uma única arma representada no painel Guerra, mas sentimos toda a tragédia pela representação da dor, desolação e desamparo, principalmente através de mães chorosas, órfãos e homens abatidos. Os tons azuis, violáceos e escuros criam zonas contrastadas onde nossos olhos encontram detalhes terríveis.

A Paz mostra crianças cantando e brincando, homens e mulheres trabalhando. Azuis mais claros se mesclam com amarelos e rosas, em suaves camadas. A visão dos painéis em conjunto, complementada por um belo vídeo interativo, projetado em tela da mesma dimensão, é inesquecível. Foi a última grande obra de Portinari, que morreu envenenado pela tinta que usava. Por ser comunista, foi impedido de entrar nos Estados Unidos para inaugurar os painéis, doação do governo brasileiro à ONU.

Os painéis são a maior obra na sede da entidade, em Nova Iorque, e estão lá desde 1957. Voltaram ao Brasil para serem restaurados, e foram visitados no Teatro Municipal do  Rio de Janeiro, em 2010, por 44 mil pessoas em 12 dias, ainda desbotados. Foram 4 meses de recuperação, em 2011.  Daqui vão para a Europa, e voltarão para a ONU em 2013, de onde não sairão tão cedo.

Ou seja, quem quiser conhecer as obras aqui, na terra natal do artista, tem até 27 de abril no Memorial, em São Paulo. A exposição gratuita ocupa três prédios, com direito a visita guiada, projeções, catálogo e acesso a documentos históricos e objetos pessoais do artista.  Garanto que é uma experiência única, maravilhosa, um ato de comunhão com o melhor que a humanidade já produziu. Guerra e Paz é uma obra que reacende a fé na vida. Enquanto pudermos produzir artistas como Portinari, haverá esperança.

De volta ao local do crime

 Passei a semana em S. Bernardo, preparando um vídeo. Foi bom retornar à TVT, depois de quase 3 anos de ausência. A produtora cresceu, virou emissora de TV, tem um monte de gente nova no pedaço.

Minha relação com o ABC vem de longa data, e é cheia de vais e vens. Trabalhei na Secretaria de Cultura de Santo André, no início dos anos 90. Período bonito, criativo, que deixou lembranças e bons amigos.

No início deste milênio, fiz vários trabalhos para a TVT. Corri o Brasil por conta de uma série de vídeos sobre cooperativas. Participei da equipe do ABCD Maior em Revista, que fazia um programa semanal de TV, e tive o prazer de fazer amizade com a poeta e ativista cultural Dalila Teles Veras, mentora da livraria-editora-centro cultural Alpharrabio.

Os laços com o ABC são tão fortes que ali situei a maior parte da ação de meu primeiro romance, Terno de Reis, ainda inédito. O auge dramático da história se passa às margens da represa Billings, e marca definitivamente a trajetória do personagem principal.

De certa forma, toda vez que piso no ABC, volto ao local do crime.

Fita Azul

Terminei a leitura do Fita Azul, primeiro romance do premiado contista Edmar Monteiro Filho. A impressão final é de que usufruí de uma sofisticada experiência literária, construída com requintes de joalheiro. Cada plano, cada clivagem, cada faceta é finamente planejada, polida, lapidada, e o resultado é um objeto de beleza indiscutível.

Não há exatamente capítulos, mas blocos narrativos marcados por uma indicação cronológica bem sacada. “Tenho nove anos de idade”, diz a personagem, no primeiro capítulo. “Tenho cento e trinta anos”, diz no final. Uma mulher seca, áspera consigo e com os outros, muitas vezes má, tantas vezes vítima, que se refugia na literatura para driblar a família desintegrada, o casamento frustrado, a paixão não correspondida. Escrevendo em primeira pessoa,  Edmar transmite credibilidade e mostra pleno domínio narrativo.

A anti-heroína não deve comover o grande público, que prefere emoções mais baratas e epidérmicas. No fundo, todos preferem torcer pelo bem contra o mal, e personagens mais complexos exigem reflexão. Fita Azul é para poucos, para quem gosta de alta literatura. Introspectivo, com contornos meio indefinidos, como uma figura na neblina.

Li Brooklin, de Colm Tóibin, antes do Carnaval, e coincidentemente também é a história de uma mulher que não consegue tomar as rédeas de seu destino, porém jovem, por um curto período de dois ou três anos. Não tenho dúvida em dizer que o Fita Azul é muito melhor, vai durar muito mais na memória.

Minha sogra, mulher culta, instruída e grande leitora, gostou muito do livro. A opinião de uma senhora de 80 anos vale muito mais que a minha, ao comentar a vida de uma mulher de 130!

O cabaré mineiro de Prates Correa

Amigos me convidaram para elaborar uma lista de 40 filmes brasileiros (20 titulares e 20 reservas), para um projeto didático. Dediquei uma semana de pesquisa, refrescando a memória e checando dados e datas (Tá, eu sei que datas são dados. Um lance de datas não elimina os dados!).

Repisei vários clássicos, arrisquei alguns contemporâneos, não abri mão de documentários, que para mim estão entre o que de melhor o cinema brasileiro produz. Salve São Eduardo Coutinho!  E não é uma beleza o documentário que Nelson Pereira dos Santos fez sobre Tom Jobim, do alto de seus 80 e tantos anos? Claro que a codireção de Dora Jobim é vital, chama necessária para o calor do resultado. Grande filme, grande música.

Terminei minha lista, enviei, aguardei comentários. Consultei filha e mulher, porque o homem que não ouve as mulheres é um idiota. Ainda mais com uma filha produtora de cinema, diretora de curtas e cursando pós na área.

Palpites aqui, sugestões ali, críticas acolá sobre esta ou aquela escolha. E fechei a lista, sentindo que faltava alguma coisa. Acordei no meio da noite com um estalo. Carlos Alberto Prates Correa!

Pra muita gente, este nome não quer dizer nada. Um cineasta mineiro de escassa bilheteria nos anos 70 e 80, com militância no cinema carioca, principalmente como produtor de Joaquim Pedro de Andrade. Espie o nome dele na Wikipedia se quiser informações biográficas completas.

E são de Prates Correa alguns dos filmes que mais amo, nesse densa e desequilibrada caatinga da cinematografia brasileira: Perdida, Cabaret Mineiro e Noites do Sertão. Quem puder assistir nessa ordem vai descobrir deliciado que personagens de um filme citam ações do filme anterior, que diálogos inteiros são reproduzidos ipsis litteris em situações distintas, de uma forma genial. Ainda mais se considerarmos que Noites é uma transcriação fiel do conto Buriti, de Guimarães Rosa. Neste, um personagem secundário, Chefe Zequiel, interpreta os sons da noite, percebe o mundo através dos sapos, grilos e corujas, e não dorme nunca. Prates Correa convocou Milton Nascimento para o papel, o que é, em si, um gesto poético.  Imagine o que Guimarães Rosa teria escrito se tivesse a sorte de ouvir Milton! É papo de mineiros, do qual só percebemos vislumbres. Uma cachacinha, por favor!

Prates Correa nasceu em Montes Claros, norte de Minas. E é acometido de delírios típicos daqueles trópicos. No Cabaret, já recitava Guimarães Rosa e cantava Drummond. As principais personagens do filme chamam-se Salinas (Tamara Taxman) e Avana (Tânia Alves). A premiada trilha sonora de Tavinho Moura mistura temas originais com modas de viola. A fotografia de Murilo Sales é uma beleza, um alumbramento. Há sambas de Noel Rosa que ouvi ali pela primeira vez: Nunca… Jamais…  e Pra Esquecer. Rosa com Rosa, entendeu?

Filme-poema, filme não linear, feito com poucos recursos, onde a poesia está presente em cada fotograma. E tem Uakti, Grupo Corpo, Marujada de Montes Claros…

Perdida é um digno antecessor. Noites do Sertão, uma consagração, embora menos autoral. Difícil disputar com o gigante Rosa, mas Prates Correa chega junto. Um conto difícil (Buriti, de Corpo de  Baile), com a única cena de sexo entre mulheres inventada pelo grande escritor, vivida com delicadeza por Débora Bloch e Cristina Aché. Entendeu o que significa o verso “Não demore, ela é donzela, mas conhece outra mulher” da canção-tema de Milton?

Não vi o primeiro filme dele, Crioulo Doido, nem o posterior à trilogia citada, Minas-Texas, protagonizado por José Dumont e Andréa Beltrão ( no papel de Januária).

Enfim, este é um texto de fã que só viu três filmes. O cinema de Prates Correa me deslumbrou nos anos 80, quando eu cursava Cinema, e não entendia porque um cara tão talentoso não fazia sucesso. Depois entendi, claro. Nesse mundo em que vivemos, poetas são seres à margem. Estive uma única vez perto dele, num festival de Cinema em Gramado, quando sumiu antes de um debate sobre seu filme.

Esse menino Carlos é assim. Foge de jornalistas, dá raríssimas entrevistas, não gosta de aparecer. Mineiramente, construiu um sertão de imagens e sentimentos que poucos podem usufruir. Avana, Salinas, Januária… Aceita um cálice, compadre?

CABARÉ MINEIRO (Drummond)

A dançarina espanhola de Montes Claros
dança e redança na sala mestiça
Cem olhos morenos estão despindo
seu corpo gordo picado de mosquito.
Tem um sinal de bala na coxa direita,
o riso postiço de um dente de ouro,
mas é linda, linda gorda e satisfeita.
Como rebola as nádegas amarelas!
Cem olhos brasileiros estão seguindo
o balanço doce e mole de suas tetas….