O cabaré mineiro de Prates Correa

Amigos me convidaram para elaborar uma lista de 40 filmes brasileiros (20 titulares e 20 reservas), para um projeto didático. Dediquei uma semana de pesquisa, refrescando a memória e checando dados e datas (Tá, eu sei que datas são dados. Um lance de datas não elimina os dados!).

Repisei vários clássicos, arrisquei alguns contemporâneos, não abri mão de documentários, que para mim estão entre o que de melhor o cinema brasileiro produz. Salve São Eduardo Coutinho!  E não é uma beleza o documentário que Nelson Pereira dos Santos fez sobre Tom Jobim, do alto de seus 80 e tantos anos? Claro que a codireção de Dora Jobim é vital, chama necessária para o calor do resultado. Grande filme, grande música.

Terminei minha lista, enviei, aguardei comentários. Consultei filha e mulher, porque o homem que não ouve as mulheres é um idiota. Ainda mais com uma filha produtora de cinema, diretora de curtas e cursando pós na área.

Palpites aqui, sugestões ali, críticas acolá sobre esta ou aquela escolha. E fechei a lista, sentindo que faltava alguma coisa. Acordei no meio da noite com um estalo. Carlos Alberto Prates Correa!

Pra muita gente, este nome não quer dizer nada. Um cineasta mineiro de escassa bilheteria nos anos 70 e 80, com militância no cinema carioca, principalmente como produtor de Joaquim Pedro de Andrade. Espie o nome dele na Wikipedia se quiser informações biográficas completas.

E são de Prates Correa alguns dos filmes que mais amo, nesse densa e desequilibrada caatinga da cinematografia brasileira: Perdida, Cabaret Mineiro e Noites do Sertão. Quem puder assistir nessa ordem vai descobrir deliciado que personagens de um filme citam ações do filme anterior, que diálogos inteiros são reproduzidos ipsis litteris em situações distintas, de uma forma genial. Ainda mais se considerarmos que Noites é uma transcriação fiel do conto Buriti, de Guimarães Rosa. Neste, um personagem secundário, Chefe Zequiel, interpreta os sons da noite, percebe o mundo através dos sapos, grilos e corujas, e não dorme nunca. Prates Correa convocou Milton Nascimento para o papel, o que é, em si, um gesto poético.  Imagine o que Guimarães Rosa teria escrito se tivesse a sorte de ouvir Milton! É papo de mineiros, do qual só percebemos vislumbres. Uma cachacinha, por favor!

Prates Correa nasceu em Montes Claros, norte de Minas. E é acometido de delírios típicos daqueles trópicos. No Cabaret, já recitava Guimarães Rosa e cantava Drummond. As principais personagens do filme chamam-se Salinas (Tamara Taxman) e Avana (Tânia Alves). A premiada trilha sonora de Tavinho Moura mistura temas originais com modas de viola. A fotografia de Murilo Sales é uma beleza, um alumbramento. Há sambas de Noel Rosa que ouvi ali pela primeira vez: Nunca… Jamais…  e Pra Esquecer. Rosa com Rosa, entendeu?

Filme-poema, filme não linear, feito com poucos recursos, onde a poesia está presente em cada fotograma. E tem Uakti, Grupo Corpo, Marujada de Montes Claros…

Perdida é um digno antecessor. Noites do Sertão, uma consagração, embora menos autoral. Difícil disputar com o gigante Rosa, mas Prates Correa chega junto. Um conto difícil (Buriti, de Corpo de  Baile), com a única cena de sexo entre mulheres inventada pelo grande escritor, vivida com delicadeza por Débora Bloch e Cristina Aché. Entendeu o que significa o verso “Não demore, ela é donzela, mas conhece outra mulher” da canção-tema de Milton?

Não vi o primeiro filme dele, Crioulo Doido, nem o posterior à trilogia citada, Minas-Texas, protagonizado por José Dumont e Andréa Beltrão ( no papel de Januária).

Enfim, este é um texto de fã que só viu três filmes. O cinema de Prates Correa me deslumbrou nos anos 80, quando eu cursava Cinema, e não entendia porque um cara tão talentoso não fazia sucesso. Depois entendi, claro. Nesse mundo em que vivemos, poetas são seres à margem. Estive uma única vez perto dele, num festival de Cinema em Gramado, quando sumiu antes de um debate sobre seu filme.

Esse menino Carlos é assim. Foge de jornalistas, dá raríssimas entrevistas, não gosta de aparecer. Mineiramente, construiu um sertão de imagens e sentimentos que poucos podem usufruir. Avana, Salinas, Januária… Aceita um cálice, compadre?

CABARÉ MINEIRO (Drummond)

A dançarina espanhola de Montes Claros
dança e redança na sala mestiça
Cem olhos morenos estão despindo
seu corpo gordo picado de mosquito.
Tem um sinal de bala na coxa direita,
o riso postiço de um dente de ouro,
mas é linda, linda gorda e satisfeita.
Como rebola as nádegas amarelas!
Cem olhos brasileiros estão seguindo
o balanço doce e mole de suas tetas….

 

 

 

 

15 Responses to “O cabaré mineiro de Prates Correa”


  1. 1 helion 04/03/2012 às 11:05 pm

    Você falou da trilha de Cabaré Mineiro. Gostei tanto quando vi que fiz questão de comprar o LP, aliás raríssimo. Faltou falar na incrível “Suíte do Quelemeu”, cantada no filme pelo Nelson Dantas. Nunca se gravou nada tão pornô…

  2. 2 helion 04/03/2012 às 11:08 pm

    Sim, e Noites do Sertão é uma beleza, com as idem idem Cristinha Aché e Débora Bloch. Esse filme sumiu, acho, nunca mais soube dele.

  3. 3 Daniel Brazil 04/03/2012 às 11:12 pm

    Grande Helion, todos estes filmes estão sumidos. Guardo na memória, há mais de vinte anos. Mineirice típica!
    Tenho o vinil também, com a Tânia Alves na capa. Suíte do Quelemeu, cantada pelo ator Nelson Dantas, é fácil de encontrar na rede, baixar, etc. O pessoal gosta de sacanagem, né?
    “Manda pra cá esse cu que ele é meu!”

  4. 4 Carolinne Neves 05/03/2012 às 8:27 pm

    A-d-o-r-e-i seu blog !!!
    Excelentes matérias culturais e com uma linguajem extremamente crítica e realista, com uma boa visão de vida! E muito alem disso: você consegue ver a mágica nas coisas ! Uma visão que poucos tem ! Parabéns!

  5. 6 Flor 07/03/2012 às 7:41 pm

    Li o post e fiquei totalmente convencida que preciso ver Prates Correa. Liguei imediatamente pro Julio Miranda, dono da Polytheama, a histórica locadora carioca responsável há 20 anos por fornecer cults e classicos, cineastas, críticos, acadêmicos e afins (mas é só pra quem conheçe o Julio, que guarda seu acervo em um galpão e entrega os filmes de carro, em mãos, junto com sua mulher Lucia). Para o meu desespero, ele disse que nada tem, e me sugeriu que falasse com Jorge Ruffinelli, através de um amigo intermediário… lá vou eu, deseje-me sorte.

  6. 8 Flor 07/03/2012 às 7:46 pm

    opa, …cults e clássicos a cineastas, críticos, etc… (faltou esse “a” ali em cima, que fez toda falta).

  7. 9 Daniel Brazil 07/03/2012 às 10:41 pm

    É, o cara é preciosidade, artigo raro no mercado. É por isso que – com o coração partido – deixei de fora da minha lista indicativa. Ninguém consegue assistir, neste século!

  8. 10 fbrazilFábio Brazil 08/03/2012 às 2:39 pm

    Dani, passando por aqui, e sempre gostando do que leio.
    Será, que seria muito feio ou aqui, fora do meio,
    pedir para conhecer esse seu cabeceio
    de listar, sem receio,
    filmes de nosso veio?

  9. 12 Nacib Hetti 27/11/2012 às 4:54 pm

    Tive a felicidade de conviver por quatro anos com o Carlos Alberto Prates, no curso de Sociologia e Política da UFMG, mesmo antes da sua jornada de cineasta. Na condição de coordenador do jornal FACE, do DA da escola, eu pedí ao Carlos Alberto uma matéria para o jornal. Ele produziu uma crítica do filme “Ano passado em Marienbad”, que guardo até hoje. A última vez que o vi ele estava às voltas com uns equipamentos de filmagem em uma esteira de aeroporto. Grande figura!
    Nacib Hetti

    • 13 Daniel Brazil 28/11/2012 às 12:01 am

      Que maravilha ter convivido com essa figura, Nacib! Obrigado pelo comentário e pelas informações sobre este mineiro genial.

  10. 14 Fernando Rodrigues Oliveira 12/05/2013 às 4:40 am

    Sou de Montes Claros e pesquisador da obra do Prates. Na minha graduação em Ciências Sociais o meu projeto de pesquisa foi sobre preconceito racial a partir do filme Crioulo Doido (1970), primeiro longa dele. Hoje, no mestrado, estou escrevendo dissertação sobre Minas, Texas (1989). Ser conterrâneo do Prates é um orgulho pra mim. Acho a obra dele genial!


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