Guerra e Paz

Não, não vou comentar sobre a obra-prima de Tolstói, que os russos chamam de Война и миръ. Confesso que li na adolescência, me impressionou muito, mas preciso reler com olhos de adulto. Está na minha lista de indispensáveis para uma temporada de cama, seja lá por que motivo. Perna quebrada, espero, e não algo mais grave.

Hoje fui ver os painéis homônimos de Portinari, no Memorial da América Latina. São 140 m² de óleo sobre tela, montados em díptico, capazes de emocionar o mais alheio dos indivíduos. Uma realização do espírito, da vontade e do talento, capaz de se ombrear à Guernica de Picasso, ou aos momentos mais sublimes de Orozco, Rivera e Siqueiros.

Portinari é o maior pintor brasileiro do século XX. A didática exposição mostra a enormidade de esboços, desenhos, ensaios e maquetes que o artista executou antes de se aventurar na imensidão. Cada um, isolado, é uma preciosidade. Os cães-hienas da guerra, as mães chorando o filho morto, os cavalos de olhos alucinados, os meninos que empinam pipas, as meninas em ciranda, as mãos de dedos entrelaçados, tudo é resultado de invenção e memória, cultura e poesia.

Não há uma única arma representada no painel Guerra, mas sentimos toda a tragédia pela representação da dor, desolação e desamparo, principalmente através de mães chorosas, órfãos e homens abatidos. Os tons azuis, violáceos e escuros criam zonas contrastadas onde nossos olhos encontram detalhes terríveis.

A Paz mostra crianças cantando e brincando, homens e mulheres trabalhando. Azuis mais claros se mesclam com amarelos e rosas, em suaves camadas. A visão dos painéis em conjunto, complementada por um belo vídeo interativo, projetado em tela da mesma dimensão, é inesquecível. Foi a última grande obra de Portinari, que morreu envenenado pela tinta que usava. Por ser comunista, foi impedido de entrar nos Estados Unidos para inaugurar os painéis, doação do governo brasileiro à ONU.

Os painéis são a maior obra na sede da entidade, em Nova Iorque, e estão lá desde 1957. Voltaram ao Brasil para serem restaurados, e foram visitados no Teatro Municipal do  Rio de Janeiro, em 2010, por 44 mil pessoas em 12 dias, ainda desbotados. Foram 4 meses de recuperação, em 2011.  Daqui vão para a Europa, e voltarão para a ONU em 2013, de onde não sairão tão cedo.

Ou seja, quem quiser conhecer as obras aqui, na terra natal do artista, tem até 27 de abril no Memorial, em São Paulo. A exposição gratuita ocupa três prédios, com direito a visita guiada, projeções, catálogo e acesso a documentos históricos e objetos pessoais do artista.  Garanto que é uma experiência única, maravilhosa, um ato de comunhão com o melhor que a humanidade já produziu. Guerra e Paz é uma obra que reacende a fé na vida. Enquanto pudermos produzir artistas como Portinari, haverá esperança.

8 Responses to “Guerra e Paz”


  1. 1 Cíça Mora 19/03/2012 às 8:29 am

    Concordo em gênero e número com tudo quanto você escreveu desse nosso grande artista brasileiro, o querido Portinari.
    Para mim, além de grande artista, foi um grande homem, pois respirava a arte e percorreu caminhos, durante toda a sua vida, que seguiam o seu sonho.
    Pintar era sua grande alegria. Morreu por isso. Um herói da Arte. Experimentou um grande paradoxo : se continuasse a pintar, morreria. Mas pintar era a sua vida. Então, escolheu viver, morrendo.
    Estar diante de sua obra é algo inominável.
    O que fica dentro da gente, depois desta visita ao Memorial é algo inadjetivável, se é que existe essa palavra! Rs…
    Fiquei feliz que tenha ido e que tenha colocado aqui este post.
    Adorei o que escreveu e assim como você, eu recomendo.
    Um beijão, querido.
    Cíça Mora
    (Artista têxtil e curadora)

  2. 3 dalila teles veras 19/03/2012 às 12:32 pm

    Ainda não fui, mas não perderei a oportunidade ímpar (seu instigante texto como reforço do já intuído) de ver fruir ao vivo a nossa “Guernica”. Abraço da leitora dalila

  3. 5 Gerva Martins 27/03/2012 às 10:03 pm

    Domingo visitei a exposição. Maravilha. O público responde à altura, com os olhinhos brilhantes, extasiados, parecem crianças ante tal maravilha.
    Por mais que a gente “saiba o que vai ver” é surpreendido pela grandeza da obra do nosso grande pintor.
    Daniel, eu ia escrever sobre a exposição, mas vou compartilhar seu depoimento bastante pertinente… Abraços


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