Tocando com o dedão

‘Como a maioria dos adolescentes, houve uma época em que desejei tocar um instrumento. Curtia os guitarristas de rock, mas uma guitarra era algo inalcançável.  Um teclado, então, nem pensar. Me virei num precário violão, com umas sopradas eventuais numa flautinha de plástico. Comecei sem professor, de orelhada. E logo percebi que algo me atrapalhava: era canhoto.

Inverter as cordas do violão foi uma boa dica, depois de muito apanhar. Espiava na TV um acorde, e corria para o espelho, onde podia fazer a mesma posição invertida. Depois, aprendi a ler naturalmente, com inversão, as revistinhas cifradas de banca (velha Vigu!). Desenvolvi certa habilidade, mas nunca me tornei um músico profissional. Costumo dizer que a música é uma espécie de amante, com quem terei encontros íntimos a vida toda (espero). Se houvesse casado com ela, não ia dar certo…

Solava com o dedão, contente, até que algum sabido disse que eu tocava errado. Deveria aprender a posição de todos os dedos da mão esquerda (direita, para os destros), puxando ou beliscando as cordas. Foi um atraso de um ou dois anos, até reaprender o “jeito certo”. Lá pelos vinte anos, era um tocador razoável. Mas o “jeito torto” era bem mais legal, confortável para mim.

Nunca larguei o violão, mas virou apenas um companheiro eventual. Aprendi um pouquinho de piano, herdei uma flauta de verdade do meu avô, arrisquei até a compor um choro no bandolim. Hoje em dia cada vez toco menos, premido pelas circunstâncias. As letras me interessam mais que as notas musicais, atualmente. Mas quando ouço um cara como Wes Montgomery, um dos guitarristas mais admirados do jazz, ainda me quedo embevecido.

O grande golpe veio há pouco tempo, com a internet, esse Aleph  que nos permite ver o tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Descobri, mortificado, que o cara tocava só com o dedão! Eu, que nasci gauche na vida, jamais devia ter seguido o conselho de me endireitar, me enquadrar nas regras, me alinhar. Não digo que seria um Montgomery, lógico, mas provavelmente arrancaria alguns suspiros admirados daquelas garotas que frequentavam as rodas de violão, na faculdade. Em vez de ser um  tocador “diferente”, virei um simples tocador medíocre, igual a tantos outros.

O mundo não perdeu um grande artista, no meu caso. Já com Wes… espia só!

3 Responses to “Tocando com o dedão”


  1. 1 valmir 27/03/2012 às 11:13 am

    Cara, muito bacana esse texto, fui nessa manhã azul ao passado Bar onde você dedilhava o velho Nelson Cavaquinho e o sempre novo Paulinho da Viola.
    abraço

  2. 2 Daniel Brazil 27/03/2012 às 11:33 am

    O velho Jajabar não existe mais, só na memória…

  3. 3 dalila teles veras 15/04/2012 às 10:21 pm

    Bela crônica, Daniel! Quanto ao Wes… Como é que pode? Muito bom, mesmo. obrigada
    dalila


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