Cordão da Mentira

Pra não perder o hábito, acordei no último domingo disposto a lutar pela “beleza, a verdade e a justiça”.  Este lema, que pra mim sintetiza tudo, é uma fala do personagem Paulo no glauberiano filme Terra em Transe. Desde que ouvi pela primeira vez senti que havia encontrado minha bandeira. Nem pátria, nem igreja, nem partido, nem patrão. Alguns pactos eventuais, no máximo, com algumas dessas entidades.

E um deles foi me irmanar à manifestação, puxada por jovens, chamada Cordão da Mentira. Depois de uma semana vibrante, onde denunciaram publicamente vários torturadores impunes, escolheram o dia Primeiro de Abril para uma ação mais ampla. E lá fui eu, meio de ressaca ( o sarau da véspera foi lindo!), às 11 h da manhã para o Cemitério da Consolação, ponto de partida de uma verdadeira maratona cívica.

No início, pouca gente. Várias tribos, todas unidas pelo fim da ditadura. Hã? Isso mesmo, Joãozinho, os resquícios, o entulho, a impunidade continuam aí, só não vê quem não quer. Encontrei os poetas da Cooperifa, a turma da capoeira, o Miltão do MNU, o Gegê dos movimentos urbanos, as nossas Mães de Maio, militantes comunistas de cabelos brancos, jovens libertários, o pessoal da Nauweb, uma amiga de faculdade…

E o povo foi chegando, e o cordão engrossando. Descemos a Consolação às 14 h, em direção à Maria Antônia. Cenário histórico de enfrentamento entre esquerda X direita nos anos 60. USP x Mackenzie. O Centro cultural da USP no local foi batizado como José Guimarães, estudante (colegial!)  morto por um tiro. O assassino é mais um impune, incólume, acobertado pela ditadura infame que perseguiu, torturou e matou tantos outros estudantes, trabalhadores e militantes durante 21 anos. O grupo Engenho Teatral fez um pequeno esquete no local.

O Cordão ainda faria manifestações em frente ao Mackenzie, na sede da TFP e na Folha de SP, terminando no velho DEOPS, hoje Memorial da Resistência. Parei por ali, pensando na História mal escrita desse país. História que este senhor fazia questão de contar com detalhes para cada jovem que encontrava.

Gosto de velhinhos entusiasmados e convictos. Espero me tornar um desses (vai demorar um pouco, eu sei), e não um resmunguento reacionário que não sai do sofá, reclamando da vida e assistindo a rede Globo. Tô fora!

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3 Responses to “Cordão da Mentira”


  1. 1 valmir 03/04/2012 às 12:04 pm

    é preciso realmente se fazer justiça,algumas pessoas acham isso desnecessário,faz tanto tempo e coisa e tal é o que dizem. Famílias precisam saber onde estão os seus mortos, precisamos com certeza abrir esta página para que possamos fecha-la com dignidade.

  2. 3 dalila teles veras 15/04/2012 às 10:27 pm

    Muito bom, depois de alguns dias de ausência, passar por aqui e ser presenteada com tudo isso! É realmente muito, muito enriquecedor ler os seus textos, ser brindada com o mais autêntico e independente jornalismo, feito por quem possui envolvimento, paixão e compromisso cidadão (além de escrever bem pra caramba!). Parabéns da leitora
    dalila


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