Pina, por Win Wenders

Assistir Pina, o filme de Win Wenders, é uma experiência sublime. Envolvidos pelas imagens em 3D, sentimos a respiração dos bailarinos, quase sentimos a pulsação acelerada, o sangue correndo nas veias. Toda a radicalidade formal do Tanzstheater  (dança-teatro) de Pina Bausch  se espalha pela tela, captada com emoção e invenção por Wenders, que foi amigo da coreógrafa alemã.

A ideia inicial era filmar tudo no palco, dentro da sede da companhia. A morte de Pina, em 2009, quase encerrou o projeto. Wenders  então reuniu os bailarinos da companhia e pediu que cada um sugerisse o que gostaria de dançar/dizer para Pina. O resultado delineia um retrato intimista da artista, carregado de emoção e sinceridade, ao mesmo tempo em que descortina a grandeza de sua obra.

A Sagração da Primavera abre o espetáculo de forma magnífica. Sentimos a força da encenação, marcada por uma simbologia pictórica de grande impacto. Há um homem, uma mulher, e o início de tudo, marcado pela única veste vermelha. Imagens de Pina são projetadas em uma sala escura, em 2D, por um velho projetor de 16 mm (que vemos em 3D). Wenders não nos deixa esquecer que estamos vendo cinema, grande cinema.

Mas foi a segunda peça, Café Müller, que me fez viajar no tempo. Mais precisamente para um dia remoto, há quase três décadas, quando assisti pela primeira vez, no Teatro Municipal de São Paulo, a chocante e revolucionária coreografia. Os personagens se debatiam entre cadeiras, caíam no chão, sofriam. Meu primo Fábio saiu da sessão tão marcado que pouco depois acabou se casando com uma bailarina! Um pequeno trecho desta peça foi mostrado também  no filme Fale Com Ela, de Almodóvar, lembra?

Wenders foi genial em colocar os bailarinos em cenários reais, ao ar livre. Eles dançam no meio do trânsito, no metrô suspenso de Wuppertal, em parques, em escadas rolantes, à beira de uma enorme escavação. O cineasta demonstra a universalidade de Pina fazendo os bailarinos darem seus depoimentos sobre a saudosa coreógrafa em russo, espanhol, francês, japonês, alemão e português (há uma delicada fala de Regina Advento, que abre o clipe abaixo, dançando sobre as cadeiras).

Tudo é movimento, poesia e beleza. A câmera acompanha os movimentos com uma leveza impressionante. Quando as luzes se acendem, e nos levantamos e encaminhamos para a saída, por alguns momentos parecemos personagens de Pina/ Wenders, dando continuidade à  mise en scène.  Wenders conseguiu transportar a magia da dança para as salas de projeção, com plena felicidade. Quase saí dançando…

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