A rua dos bobos e o pai dos burros

Na semana passada, os jornais noticiaram a causa de um ex-empregado dum condomínio em Mangaratiba. Ele processou – e ganhou! – por danos morais os ex-patrões porque na guia de dispensa constava como endereço “Rua dos Bobos, 0”.

É lugar comum a afirmação de que a música popular brasileira é nosso maior patrimônio cultural.  Apesar de certo exagero, todos concordam que um dos aspectos da cultura brasileira mais conhecidos e admirados em todo o mundo é a música (já foi o futebol…). Quase poderíamos dizer “música popular”, não fosse a presença desse gigante chamado Villa-Lobos, que é até mais tocado e estudado que seus pares do formato canção.

             Neste cenário, é de se supor que a citação de autores, intérpretes ou obras de nosso cancioneiro fosse algo corriqueiro em textos jornalísticos, ensaísticos e mesmo na literatura de ficção. E que esse acervo cultural fosse do conhecimento da maioria, principalmente daquela camada que se autonomeia como “culta”, formada em universidades.

            Infelizmente, no dia a dia das redações, topamos com exemplos constrangedores de ignorância. Os caras enchem a boca pra falar da última bandinha de garagem que surgiu na semana passada em Londres (e da qual ninguém se lembrará daqui a um ano), mas não sabem quem foi Lamartine Babo…

            A frequência de asneiras só não é maior porque a maioria prefere esconder seu desconhecimento sobre a cultura brasileira. Afinal, no mundo idealizado, globalizado e cosmopolita onde ficam as sedes dos jornalões, é mais cool citar Madonna que Dolores Duran. E quando arriscam, sai besteira.

No Estado de SP, matéria não assinada de 13/04/12 (caderno Metrópole) afirma que o verso “Rua dos Bobos, número zero” é de uma canção do “violonista brasileiro Baden Powell”. O mais modesto A Voz de Caxias, sobre o mesmo assunto, tascou que a música era de Toquinho. Os redatores deveriam voltar à escola (de samba, talvez, se é que alguma vez pisaram lá). Outros, mais escaldados, deram a notícia mas evitaram chutar a autoria do verso.

De onde vem tal divergência? Terá a memória traído os redatores, que certamente cantarolaram esta canção na infância? É fácil observar a origem da gafe, basta entrar no Google. A fonte de informações não confiáveis em que se transformou o “pai dos burros do século XXI” coloca no topo da lista de  busca com o verso Rua dos Bobos, número 0 “ A CASA – Toquinho”.  Logo abaixo, no terceiro tópico, indica “A CASA – Baden Powell.” Os apressados jornalistas, sem tempo para checar as fontes, como se diz no jargão profissional, sequer perceberam que na mesma página havia informações contraditórias. E, por sinal, ambas erradas!

De fato, Toquinho interpretou várias vezes esta canção italiana (de Bardotti e Endrigo), que teve a letra traduzida por Vinicius de Moraes. Como o poetinha andou pela Itália e foi amigo dos autores, alguns podem até arriscar que ele deu um pitaco na letra original. Mera conjectura. O certo é que esta se transformou numas das canções mais populares da Itália (e do Brasil), cantada de cor por várias gerações. As crianças se divertem com o verso “não se podia fazer pipi, porque penico não tinha ali”, que não foi inventado por Vinicius (no original: Non si poteva far la pipì, perché non c’era vasino lì).

É grande a lista de mancadas nos chamados cadernos culturais da velha (outrora, grande) imprensa. A mais comum é atribuir versos aos autores errados. Muitas vezes quem leva a fama é o intérprete, como Toquinho no caso acima. Mas também atribuem origem errada ao artista (“o compositor nordestino Sérgio Ricardo”), confundem o gênero musical (“o sambista Jackson do Pandeiro”), trocam o instrumento do músico, situam em outra época ou até dão por morta gente que ainda tá por aí traçando sua feijoada.

Não chego a defender que a adoção da matéria História da Música Brasileira deva ser obrigatória nas escolas. Mas o simples ensino da música, plena e universal, na rede pública, como já foi no passado (uma bandeira de Villa-Lobos, arriada pela ditadura militar), provavelmente faria as novas gerações despertarem para seu significado cultural dentro de nossa formação como povo, como nação. A partir dessa base, os futuros jornalistas talvez respeitassem mais esse patrimônio tão rico e tão maltratado.

E vamos combinar que pra confiar cegamente na primeira linha do Google é preciso ter residência fixa na Rua dos Bobos, em qualquer número!

(artigo publicado originalmente na Revista Música Brasileira  – http://www.revistamusicabrasileira.com.br)

2 Responses to “A rua dos bobos e o pai dos burros”


  1. 1 Carmen 17/04/2012 às 11:58 pm

    Houve um tempo em que o indiscutível papel da escola era transmitir conhecimento, e conhecimento das fontes de conhecimento.
    Isso passou. Há montanhas de informações disponíveis para um número incrivelmente maior de pessoas. O grande desafio é ensina-las a lidar com isso, a separar o joio do trigo, a pensar criticamente sobre cada gota das informações que chegam diariamente aos borbotões. Haja desafio!

  2. 2 Daniel Brazil 19/04/2012 às 6:08 pm

    Diagnóstico perfeito. Desenvolver o pensamento crítico na escola, o gosto pela pesquisa, pela descoberta, pelo desafio e pelo acerto.


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