Não siga a minha religião

Domingo é dia de conquistar novas almas. Pelo menos é isso que devem pensar certos evangélicos, apostólicos, mormons, crentes, testemunhas, missionários, obreiros, vendedores do carnê celestial ou seja lá como se chamam. Não poucas vezes fui acordado numa bela manhã dominical, fui até a porta, ainda sonolento, e dei de cara com simpáticas senhoras ou uma dupla de gringos loiros e altos, de forte sotaque, prontos para me catequizar. É o que dá morar num bairro de classe média de uma metrópole como São Paulo.

Não consigo ser mal educado com as pessoas, embora a vontade de mandar lamber sabão seja grande. O livro preto nas mãos denuncia a intenção. Por que diabos toda Bíblia tem a capa preta? Aliás, juntar diabo e Bíblia na mesma frase deve ser alguma espécie de pecado…

A pergunta inicial nunca é “o senhor gostaria de ser catequizado?”, pois isso tornaria tudo mais direto e franco: um “não” bastaria.

– Bom dia. Como é o teu nome? Como o senhor está passando? O senhor nos conhece?

Qualquer resposta educada é motivo para puxar a conversa. Perco cinco, dez minutos tentando me desvencilhar.

– Ah, Daniel é um nome bíblico! O senhor já leu a Bíblia?

Claro que li algumas partes, não vou mentir. Como já li trechos do Alcorão, da Torá e do Mahabharata. Mas é sempre um cristão que bate à porta, nunca fui incomodado por representantes de outras religiões. Acabo com algum folheto na mão (que vai sempre para a lixeira), deixando eles felizes  por ter mordido a isca oferecida.

Não adianta dizer que não frequento igrejas, pois revelo que sou uma potencial alma a ser salva. Dizer que sou ateu provavelmente terá o mesmo efeito. Nos últimos tempos, comecei a testar outras estratégias.

– Desculpe, sou judeu.

– (ar de desapontamento) Ah… Que coisa a situação em Israel, né?

Aproveito a deixa.

– É um governo de direita, racista e beligerante. Judeus democratas não apoiam aquele governo, querem a paz.

– Ah, então leia esse texto sobre as guerras no mundo e a salvação!

Não deu certo. Talvez na próxima diga que sou muçulmano. Mas como não uso barba nem turbante, provavelmente vão desconfiar da mentira. A cultura desse povinho catequizador costuma ser muito rasa, devem ter uma imagem estereotipada dos islâmicos.

Já sei! Acabo de fundar uma religião cujo primeiro mandamento é “Nunca tente convencer alguém a seguir tua religião”. Pecado feio, mortal. Tem de ser uma escolha pessoal, uma iluminação. Vou mandar essa, e quero ver a cara de quem me acordar cedo, no próximo domingo!

9 Responses to “Não siga a minha religião”


  1. 1 marisaono 22/04/2012 às 11:19 am

    Pois é, dizer que sou atéia parece que não tem ajudado. Recebo com frequência mensagens via e-mail e outros veículos. Tanta gente preocupada em salvar minha alma que até comove. Mas o que mais me irrita mesmo é o sectarismo. Outro dia minha mãe atendeu no portão, ela foi logo dizendo que era budista e ouviu: “Ah, então a senhora não gosta de religião…” Como se houvesse uma única religião. Faltou pouco para ela pegar um punhado de cascalho e atirar pedras nos inconvenientes.

    • 2 Daniel Brazil 22/04/2012 às 10:22 pm

      Os perigos de uma visão única (e estreita) estão ligados diretamente a um viés autoritário (Nós somos os eleitos, os únicos).
      Nesse ponto, seitas como a Seicho-no-ie e os umbandistas são mais “universalistas”, mais tolerantes. E, principalmente, não batem de porta em porta tentando nos catequizar!

  2. 3 valmir 23/04/2012 às 9:53 am

    elas/eles não gostam de indios creio eu,desde o dia que fui atende-los sem camisa nunca mais apareceram,riscaram a minha casa do mapa e com certeza me mandaram lamber sabão

  3. 5 Julio Xavier 23/04/2012 às 5:26 pm

    Dos males de morar em casa….. Aqui na minha são sempre os/as testemunhas de Jeová. Acho que já levaram tanto desaforo da vizinhança que hoje são menos insistentes. Querem menos papo. Batem a campainha, pergunta seu nome, deixam o folhetinho e se mandam (como se resolvesse, depois de já terem te acordado e feito abrir a porta). O problema com as religiões é sempre esse – tirando os trajes quase sempre ridículos, das autoridades de qualquer uma delas – o MEU DEUS que prega a bondade, a paz e a fraternidade entre os homens é o único e é bem melhor que o SEU DEUS que prega, vê se pode, a bondade, a paz e a fraternidade entre os homens….. Mas vá você fazer a pequena observação de que não, não seguimos nenhuma religião, vixi…. Então o MEU DEUS de amor e perdão, que prega a bondade, a paz e a fraternidade entre os homens vai se zangar, se vingar, castigá-lo e de preferência mandar sua alma (ou equivalente) pras profundas do inferno…..

  4. 7 Charô 26/04/2012 às 10:22 pm

    Digo que sou satanista. Tem me ajudado bastante! =)

  5. 9 Daniel Brazil 29/04/2012 às 12:34 am

    Cartola é Deus, e Paulinho seu único profeta!


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