Noel e o humor na canção

Noel Rosa sempre dá samba. Em qualquer roda que se preze isso não é novidade. Mas Noel, com toda sua grandeza, também dá tese, artigo, ensaio e livro.

   O mais recente, que saiu do forno na semana passada, é o da professora e pesquisadora Mayra Pinto, de São Paulo. Depois de escrever vários livros didáticos e passar por mestrado e doutorado, descobriu no sambista da Vila Isabel um tema original, que vem enriquecer a estante de estudos sobre a música (e a poesia) popular brasileira.

  Para ela, Noel “criou um modelo de excelência poética”. A partir dele, “ficou a experiência de que a canção, em sua imbricação de linguagens – musical e linguística – poderia ser uma produção cultural de primeira grandeza”. Conversei com Mayra,  pedi uma entrevista para a Revista Música Brasileira, fui no lançamento e acabamos amigos!

– Como surgiu a ideia de escrever sobre Noel, com este enfoque?

Por incrível que possa parecer, tive a ideia de analisar a obra do Noel via um teórico russo, o Bakhtin. Para quem trabalha com cultura popular e/ou análise literária com viés enunciativo, há uma obra dele cuja leitura é obrigatória: A cultura popular na idade média e no renascimento. Há toda uma teoria do humor aí, além de um ensaio brilhante sobre a obra de Rabelais, que teria sido, segundo Bakhtin, um lugar erudito (no renascimento) que pôde ser atravessado por diversas imagens próprias da cultura popular (da idade média) europeia. Bem, a partir dessa leitura, fiquei pensando se não teria havido na nossa cultura um fenômeno semelhante, já que aqui há toda uma larga história das confluências entre cultura erudita e popular desde o século XIX sobretudo na música. E Noel, pra mim, cumpriu de certa forma essa função de misturar elementos próprios da cultura popular – além dos temas, claro, toda a linguagem musical que vinha sendo reelaborada pelos sambistas do Estácio – e da cultura erudita – com a sofisticação poética de letras carregadas de ironia e marcadas pelo discurso coloquial que, só a partir da geração dele, entrou de fato como uma marca linguística de primeira grandeza na canção.

– O humor está na origem da poesia (e da música) brasileira, desde Gregório de Matos. Letras satíricas, canções chistosas e lundus maliciosos fazem parte da nossa formação. Noel é uma mudança qualitativa nessa tradição?

Acho que sim, porque com ele entrou um tipo de ironia que não havia antes e com uma segurança poético-musical incrível. Como disse o Luiz Tatit, a obra do Noel dá a impressão de que o samba sempre existiu! Tamanha a “naturalidade”, a familiaridade que a gente sente ao ouvir suas canções. No seu momento mesmo, há toda uma produção humorística nas canções, como você diz, chistosas, maliciosas e/ou satíricas (não nos esqueçamos das deliciosas marchinhas de carnaval e de inúmeros sambas clássicos, inclusive de Noel, com esse tipo de humor). Mas Noel traz a ironia na canção. Por exemplo, leia/ouça “Gago apaixonado” cujo discurso é de um gago que encaixa milimetricamente nas frases musicais; é literalmente um samba cantado por um gago! Só por isso, já seria genial, mas aí temos o toque noelino precioso: a autoironia. Noel funda na canção esse sujeito lírico capaz de tirar sarro de si mesmo. Moderníssimo isso.

– Por que a canção “Com Que Roupa?” é tão emblemática na obra de Noel?

Porque é o primeiro samba dele gravado (junto com “Malandro medroso”) e já nasce um clássico por inúmeras razões, mas, a principal, a meu ver, é que ele entra aí num baita confronto com o que está começando a se estabelecer como um paradigma em várias frentes: desde o arranjo da canção – bem mais simples só com um violão e cavaquinho – passando pela interpretação – ele mesmo grava a canção, com sua voz “pequena” num meio dominado pelo vozeirão-modelo de Francisco Alves (Mário Reis começava aí, e claro que foi uma inspiração e incentivo pro Noel) – até chegar na letra da canção – que confronta o estereótipo do malandro “bem sucedido”, que mal começava a se formar, veja, e era o mote de inúmeros sambas da época (em “Com que roupa?” o malandro não tem dinheiro sequer para vestir uma roupa adequada para ir ao samba devido à crise financeira de 29 que afetou a todos, inclusive o malandro!). Então, essa voz de Noel, que chamo de uma voz de confronto (com os valores dominantes do trabalho, da moral etc.), já se mostra claramente, e de modo seguro, desde seu primeiro samba. Se vc pensar que um artista, geralmente, leva anos para amadurecer seu trabalho, para conquistar a segurança de um estilo, é bastante surpreendente o que aconteceu com o poeta da Vila já aos 19 anos.

– Um traço característico da música brasileira, principalmente do samba, é falar da dor de modo irônico, dando risada. A falta de dinheiro, de trabalho, de amor, a traição e até a morte serviram de tema para inúmeras canções irônicas, alegres, que fazem rir e pensar. Noel foi um dos criadores dessa fórmula?

Creio que sim. Mas Noel contribuiu para essa fórmula no viés mais “amargo”. Sua risada não é “solar”, por exemplo, como a de um Braguinha ou de um Lamartine Babo, contemporâneos e parceiros seus. Várias canções de Noel carregam um riso que é também a expressão de uma dor; a crítica, em sua obra, não é só do deboche, que há também, mas em boa parte de suas canções, a ironia sugere um desprezo pelos valores dominantes com um traço de amargura. Pense em “Filosofia”, por exemplo, em que o sambista se queixa da “incompreensão” do mundo a respeito de sua condição de artista/sambista e, ao mesmo tempo, revela sua “estratégia” para lidar com essa dor: “Mas a filosofia/Hoje me auxilia/A viver indiferente assim./Nesta prontidão sem fim/Vou fingindo que sou rico/Para ninguém zombar de mim”. Sua estratégia é o fingimento de um suposto desprezo, no fim das contas, por esses valores: ele finge não se importar, mas, ele se importa; como qualquer artista, o sambista precisa do reconhecimento de seu trabalho para seguir. Essa é a um marca singular da voz de Noel: a ambiguidade própria da ironia permite um jogo de disfarce em que o sujeito “finge” seu desprezo pelos valores dominantes (com graça, num tom alegre) e ao mesmo tempo denuncia esses valores como opressivos (com amargura, num tom menor). Veja a última estrofe de “Filosofia”: “Quanto a você/ Da aristocracia/Que tem dinheiro/Mas não compra alegria/Há de viver eternamente/Sendo escrava desta gente/Que cultiva hipocrisia”. Fica bem clara aí a atitude crítica, e agressiva até, desse sujeito aparentemente desvalido e frágil, mas ao mesmo tempo capaz de denunciar, com eloquência, as contradições mais cruéis da ordem social.

O livro Noel Rosa – O Humor na Canção (Ateliê Editorial/ Fapesp), de Mayra Pinto, foi lançado em São Paulo no dia 8 de maio, na Livraria da Vila. Vamos torcer para que, em breve, esteja em todas as rodas… digo, livrarias do Brasil!

(foto: Helvio Romero)

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