Jornalistas, acima da lei?

Eu gostaria de ouvir um único motivo convincente dos que defendem a não-convocação de jornalistas na CPI do Cachoeira. Ou em qualquer CPI.

Jornalista é inimputável? Nasceu ungido de inocência perpétua? Crimes e delitos não existem dentro das redações, estes conventos da  informação?

A última desculpa que ouvi foi a de que abriria um “perigoso precedente”. Perigoso pra quem? Para a liberdade de imprensa? Claro, sabemos todos que investigar a verdade pode ser perigoso, alguns até perdem a vida nessa busca. Mas não se deve deixar de buscar, nunca! E imprensa livre não é exatamente aquela que se enconde atrás de acordos obscuros.

Além do mais, o jornalista que falou de “perigoso precedente” é um desinformado. Ou seja, um péssimo jornalista. O professor Venício Lima lembra bem, aqui, que já houve convocação de jornalistas em CPIs no Brasil. No resto do mundo civilizado, é até praxe.

A CPI da Última Hora rolou no tempo de Getúlio, e convocou notórios jornalistas como Samuel Wainer e Carlos Lacerda. O mundo não caiu por causa disso. Aliás, ficou mais claro.

Durante a ditadura militar rolou a CPI do acordo Globo X Time-Life, que convocou representantes de ambas as partes. Além de Walter Clark (diretor da Globo) e João Calmon (então presidente da Abert), o próprio Roberto Marinho foi convocado e se submeteu a interrogatório. Portanto, houve precedente, e envolveu gente bem mais categorizada que os suspeitos de hoje.

Enfim, vivemos num país onde parlamentares, religiosos, advogados, juízes, prefeitos, governadores e presidentes podem ser convocados, julgados e condenados (ou inocentados). Por que jornalistas estariam acima da lei?

2 Responses to “Jornalistas, acima da lei?”


  1. 1 Fábio Brazil 28/05/2012 às 12:37 am

    Dani, faz algum tempo eu aprendi uma palavra que achei genial: “disconcordar”. Claro que saiu de uma boca por onde havia entrado muita cerveja, mas me afeiçoei a ela.
    Passei a usar quando não discordo – discordar é terminante, é cabal – mas quando concordo, porém, com uma ressalva, pequena muitas vezes, mas onde cabe disconcordar.

    Sim, sem papo de jornalista não poder ser chamado numa CPI, por mim até Papa – ou até principalmente Papa – pode ser chamado numa CPI. Mas eu acho que disconcordo é de CPI, entende?

    Sei bem que o meu raciocínio é simplista, mas é o seguinte: crime quem resolve é polícia! Inquérito quem faz é polícia. Indiciamento quem faz é polícia. Chamar para depor quem chama é polícia. Nem precisa me alertar sobre a nossa polícia – sei, sei, sei… – mas depoimento para mim é em sala escurinha com delegado de barba mal feita e um belo sargentão com 120 quilos de pura delicadeza por perto – rsrsrs.

    Político investigando político, sei não. Para mim é 100% de balela, 100% de teatrinho mal feito, 100% de construção de meias verdades e principalmente 100% de enrolação. Ninguém ali está procurando nada além de dividendos políticos. CPI é somente um campo de batalha diferente, mas dentro da mesma guerra diária que os políticos travam contra a sociedade. Claro, é um campo de batalha mais exposto, com mais audiência, com mais jornal, mas a guerra é a mesma e sempre com o mesmo detalhe sórdido: eles no fundo vão se proteger, unidos se protegerão do inimigo maior – nós. Direita, esquerda, centro, embaixo e em cima, vão se unir e se defender.

    Não, não é a defesa da instituição política, ou da democracia, ou das esferas partilhadas de poder, é a defesa pura e simples de sua própria sobrevivência, no fundo vejo Gabeiras e Genebais, Babás e Aníbais, Sarneys e Soninhas, ACMs e Adelis brigando para dirigir o barco onde estão, mas o problema é o barco, porra.

    Sei lá, tem maracutaia, tem desvio, é polícia e xilindró, como para qualquer bandido. Olha essa palavra: desvio. Só aparece porque tem político no meio, senão é roubo, puro e simples. Agora vão vender um “desvio de conduta” para os jornalistas, fosse para qualquer outro seria estelionato, perjuro, exercício ilegal.

    Sei, sei, sei. Sei bastante sobre a nossa polícia, ou sobre qualquer polícia no sistema capitalista. Mas se for para investigar crime, acho mais fácil um policial ser a honrosíssima exceção e realmente “socar o meliante na toba do camburão”, do que um político fazer o mesmo com um colega.

    CPI não tem poder de polícia, todos sabemos. Como também não tem os métodos, os interesses, a função, as finalidades e os procedimentos. CPI é politicalha travestida de inquisição, mas com uma seriedade de teatro bufo. Olha só a coisa: uma investigação que nasceu na Polícia Federal, que tava andando, que estava chegando aos bandidos, foi tomada pelos políticos, para virar política e ser esquecida numa gaveta do Judiciário. Será que se fosse só uma investigação – sem os políticos no meio – um dia não ia bater um camburão na porta do Pirillo e do Agnelo? – Virou CPI, agora, Pirillo e Agnelo estão mais livres que as pombas da Praça da Sé.

    E depois da CPI no Legislativo, sabe o que vem? Sim, a coisa toda pula para o Judiciário, sem passar pela Polícia Federal novamente. E tome mais teatro, só piora um pouco o figurino e o texto, aquelas togas e aquele linguajar são de doer…

  2. 2 Daniel Brazil 28/05/2012 às 11:44 am

    Grande Fávio!

    Tuas observações apenas confirmam o descrédito que temos em relação aos nossos políticos (embora eu esteja satisfeito com os meus eleitos, tem mais prós que contras em suas atuações).
    O que não podemos é transformar esse sentimento justo em descrédito à instituição! É o caminho para o raciocínio simplista:
    “Pra que serve político?” “Pra que deputado?” “Pra que vereador?”
    Ora, feche-se tudo e institua-se uma ditadura. Caminho fácil, mas com resultados conhecidos, em todo o mundo.

    Viu Tropa de Elite 2? Creio que exemplifica bem o tipo de aliança que há entre polícia e políticos corruptos.Ademais, o tal do “foro privilegiado” impede que um político seja investigado como um bandido comum. Ao ser investigado por seus pares, abre-se uma segunda frente, um cerco interno, onde a polícia não age!

    CPI sim, portanto. Várias CPIs apresentaram resultados significativos, que trouxeram benefícios. a CPI do Trabalho Escravo (gerou uma lei mais dura), a do.Orçamento (lembra do processo de cassação dos 7 anões do Congresso?), a do Narcotráfico (o ex-deputado Hildebrando Paschoal está preso até hoje!).

    Veja esse argumento: “Um estudo da USP que analisou CPIs entre 1946 – o ano da pioneira comissão – e 1999 mostrou que 53% das 303 CPIs instaladas foram concluídas. Uma delas foi fundamental até para derrubar um presidente.” (http://mundoestranho.abril.com.br/materia/como-funciona-uma-cpi)

    Claro, o índice é muito abaixo do satisfatório. Mas só com deputados melhores o sistema vai melhorar. Aí, o problema é outro, pois quem elege deputado do DEM (campeão de corrupção no país, como mostrei em post recente) parece que gosta do “quanto pior, melhor”.

    Abraço,


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