A despedida de Ivan Lessa

A morte de Ivan Lessa me provocou uma melancólica reflexão sobre o humor em nosso país. Reli algumas de suas crônicas, e é nítido que vai fazer muita falta. Seu texto me atraía desde o tempo em que, adolescente, lia seus artigos no Pasquim. Na época, não demorei a descobrir que ele também encarnava o anárquico Edélsio Tavares, que respondia as cartas dos leitores no combativo hebdomanário. Meu colegas duvidavam, pediam provas, achavam que era outro redator, talvez Millor, talvez Paulo Francis. O segredo foi mantido por algum tempo, até que uma inconfidência jornalística comprovou a minha tese.

Gip Gip Nheco Nheco, a coluna escrita por ele e ilustrada por Redi, Jaguar e outros craques, era uma delícia. Não que fosse perfeito (certa vez confundiu lemingues com lêmures, acho que só eu percebi), mas era quase isso. Um texto enxuto, com alta graduação de ironia, sarcasmo e certo ceticismo perante o mundo. Era um pessimista, no fundo (e também na superfície). Morreu convicto de que o nosso planeta vai de mal a pior, e que a humanidade não tem solução.

“Áivan Lissa”, como diziam os brasileiros que queriam sacaneá-lo, escreveu que “todo homem tem o sagrado direito de ser imbecil, por conta própria”. Talvez por isso, dava um desconto para o humor de agora, grosso, sem sutilezas. Achava que, nos anos 60 e 70, seriam todos assim, mas a censura, a ditadura e os costumes de época não permitiram. Isso fez com que o humor se sofisticasse, criando duplos sentidos e jogos de palavras que os censores deixavam passar, engolindo frangos históricos de nossos craques.

Tendo a discordar. Afinal, grossura existe desde o início da humanidade, e não se refinou durante a ditadura (basta ver as pornochanchadas da época). E o próprio Ivan, em sua produção, jamais abdicou da inteligência para fazer humor. Era um pesquisador nato de expressões picantes, ditados curiosos  e canções brejeiras (e sérias também, claro). Carregava um outro Brasil dentro dele, bem diferente deste que está na mídia.

Quando assisto a performance de certos humoristas contemporâneos, incultos e rasteiros, tenho certeza de que não gastaria um real pra ver esses caras num palco. Na TV, mudo de canal. Afinal, pra ouvir grossura, basta ir num boteco qualquer e se misturar com a peãozada. É mais autêntico. Já ri muito ouvindo histórias da boca de caminhoneiro, de pescador, de estudante. Mas não pagaria por isso. Infelizmente, tem patrocinador que banca esse tipo de humor chulo em lugares impróprios, como na televisão, na música, no cinema. E, pior: muito desmiolado consome as cretinices excretadas e, de quebra, o produto dos anunciantes!

Citando o próprio Ivan Lessa, “tem gente por aí que tem os dois pés no chão – e as mãos também.” Enfim, o humor culto perde mais um militante, no mesmo ano em que se foi Millor Fernandes. Tá difícil achar substitutos!

2 Responses to “A despedida de Ivan Lessa”


  1. 1 Regina Leite 11/06/2012 às 4:43 pm

    Eu conheci o Ivan Lessa ha tempouco tempo, em Londres, qdo ele escrevia prara a BBC Brasil em Londres e me diverti muito!!!! não perdia uma crônica. É com pesar que eu abro o site da BBC e não o vejo lá….. que falta ele vai me fazer…..


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