Carlão

Semana complicada, de muito trabalho. Demorei para  escrever sobre a morte de Carlos Reichenbach, pois a sensação de proximidade ainda é muito grande. Medo de contaminar o texto com doses desmedidas de emoção.

Carlão – como era chamado pelos amigos – foi uma figura que marcou muito a minha geração de estudantes de Cinema, do início dos anos 80. Intelectual, culto, sofisticado, não teve pudor em realizar seus primeiros trabalhos na Boca do Lixo, com atores que muitas vezes saíam de uma pornochanchada para seus filmes. Era o cinema possível, sob a censura da ditadura militar. Lembro do empolgamento de minha turma com Lilian M: Relatório Confidencial. Um filme digno de figurar ao lado de O Grande Momento (Roberto Santos),  São Paulo S/A (Person) e Noite Vazia (Khouri) como uma dos mais completos retratos das relações humanas numa metrópole como São Paulo.

Me encantou o fato de personagens se movimentarem de forma coreografada. Ele explicou que usou playback nas cenas, o que era inusual, pelo menos em filmes não-musicais. Aliás, Carlão entendia de música, tocava e compunha no teclado com desenvoltura.

Suas pornochanchadas mais hardcore tinham momentos desconcertantes. Enfiava filosofia no meio da orgia. Lembro do filme A Ilha dos Amores Proibidos, onde um casal transava lendo o Livro Vermelho de Mao-Tsé-Tung. Citações visuais do cinema japonês e de filósofos alemães eram usuais na sua obra, embora poucos percebessem. O público habitual das pornochanchadas odiava, e o público dito “culto”, bem, esse não assistia pornochanchadas… Ou não confessava.

Convivemos uma semana num Festival de Gramado, no início dos anos 80. Ele, pela primeira vez concorrendo com um longa (acho que Império do Desejo). Nós, estudantes de cinema, com um curta-metragem de animação. Ele parecia um adolescente tímido, meio envergonhado de subir ao palco. Mas no bar do hotel, dava aulas de cinema e sabedoria para os mais jovens. Surgiu dali uma amizade meio silenciosa, que se revelava através de fortes abraços quando nos encontrávamos nos bares da rua Augusta, em São Paulo. (Era outra a rua Augusta, crianças).

Eu desandei da vida de aspirante a cineasta, me afastei daquele mundo. Carlão perseverou, e criou obras inesquecíveis. Talvez Anjos do Arrabalde seja o filme mais “paulista” dele, embora eu goste menos que outros. Filme Demência consolidou sua fama de cult, alternativo, independente. Alma Corsária me agrada mais, tem cenas inesquecíveis. Dois Córregos é decididamente ruim.

Percebo que o afastamento me fez mal. Não vi os últimos filmes dele, vou correr atrás. Arrisquei uma espiada no Reduto do Comodoro, blog que ele mantinha com afinco (Comodoro era um dos cinemas 70 mm de São Paulo, para quem não sabe), mas não quis me confundir com um simples fã. Nunca postei nada lá. Mas neste fim de semana me peguei sentindo falta daquele abraço de urso…

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