Plínio Marcos e o samba paulista

Aparece tanta gronga, boiando nas águas barrentas em que navego contra a maré, que meu patuá de fé e de valia já anda até entortado.

Com essas palavras o dramaturgo das quebradas do mundaréu, Plínio Marcos, subia ao palco em 1973 para apresentar com sambistas de São Paulo. Também com elas o crítico Fausto Fuser saudou, nas páginas da Folha de SP, o espetáculo que unia, em plena ditadura, o censurado Plínio e os marginalizados compositores Geraldo Filme (1928-1995), Toniquinho Batuqueiro (1929 – 2011) e Zeca da Casa Verde (1927 – 1994).

O espetáculo misturava piadas, causos e sambas, e driblava a censura pesada do período. Plínio tinha várias obras proibidas, mas o texto ali era meio improvisado, em cima da malandragem e da cultura popular.

Dirigido por Emílio Fontana, o espetáculo jogou luz sobre um tipo de produção musical que andava fora da mídia. São Paulo havia se tornado a terra dos festivais, dos músicos pop, berço da nova MPB, e relegava seus sambistas de raiz ao anonimato. A matriz carioca-baiana era mais influente no samba, como é até hoje, e os nomes que se destacavam nacionalmente eram apenas Adoniran Barbosa e Vanzolini.

Plínio Marcos em Prosa e Samba apontava para outra direção. Para um samba negro paulista, de netos de escravos, que lutavam para manter a tradição em suas comunidades, nas escolas (de samba), nos quintais, engenhos e subúrbios. É bom lembrar que o dramaturgo já havia escrito peças onde a música cumpria função destacada, como Balbina de Iansã, e Os Pagodeiros, encenados no Teatro de Arena.

Os três sambistas haviam participado desses espetáculos, havia uma camaradagem entre eles. Quando a censura apertou, e qualquer texto de Plínio Marcos era imediatamente proibido, surgiu a ideia de um espetáculo apenas musical. Plinio seria uma espécie de mestre de cerimônias, e os bambas mostrariam seu repertório.

O espetáculo fez sucesso e foi gravado. Lançado em 1974 pela Continental, com tiragem pequena, não alcançou sucesso nas rádios e virou preciosidade para colecionadores.

Agora, em 2012, depois de muitos anos fora de catálogo, o CD é relançado com o selo Warner, pelas mãos do garimpeiro Charles Gavin. O CD traz texto de apresentação de Tárik de Souza, e pretende ser lançado em shows especiais, com músicos contemporâneos.

Dizer que é histórico é pouco. É indispensável na prateleira de qualquer amante da boa música brasileira. Belos sambas, gravados num espetáculo que virou símbolo de resistência popular numa época de sufocante falta de liberdade.

(publicado originalmente na Revista Música Brasileira)

2 Responses to “Plínio Marcos e o samba paulista”


  1. 1 valmir 21/06/2012 às 1:01 pm

    magico isso meu velho. bom motivo para entrar numa loja para compar cd


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