Arquivo para junho \04\UTC 2012



Mr. Sganzerla, o filme

É fascinante assistir o documentário vencedor do Festival É Tudo Verdade de 2012. O diretor, Joel Pizzini, conseguiu o feito de quase anular a sua personalidade criativa, adotando uma forma totalmente sganzerliana de trabalhar as imagens. Mas notamos que há uma inteligência reverente por trás de tudo, fazendo uma homenagem de estilo.

O filme começa caótico, tremido, delirante, desfocado, e tem gente que abandona em dez minutos. Mas as coisas começam a se alinhar, começamos a perceber a ordem da proposta, e do meio pro fim vira uma delícia. Realmente vivenciamos as palavras, o pensamento, as imagens do anárquico diretor que se notabilizou como com dos pioneiros do Cinema Marginal, pós-Cinema Novo.

                Não é um documentário tradicional, claro. Talvez faltem algumas legendas de identificação, em certos momentos. O jovem de 22 anos que filmou o Bandido da Luz Vermelha, marco do cinema brasileiro, em 1968, era um mitômano. Idolatrou Orson Welles, emulando seus filmes e tentando recriar sua aventura brasileira, o inacabado filme It’s All True, que dá nome ao festival. Ao mesmo tempo, cultuou Noel Rosa e Jimi Hendrix, dedicando filmes a cada um deles. A contracultura alucinada, o contato com as drogas, a fuga da realidade sob uma ditadura que não dava opções (“quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha!”), tudo isso ajudou a criar a figura do intelectual na contramão, contra tudo e contra todos, meio arrogante, meio patético, com uma obra sempre aquém das ideias por falta de grana.

                Até por isso, Godard, Méliès, Oswald de Andrade e Zé do Caixão também estão presentes no seu ideário (e no filme).  A grande ausência certamente é Glauber Rocha, figura central do período, ex-marido de Helena Ignez, musa de Sganzerla. Ela interpretou e ajudou a produzir todos os seus filmes, além de terem duas filhas. É personagem central, protagonista das principais cenas “atuais”.

                Que o Cinema Marginal é filho do Cinema Novo ninguém discute. Filho rebelde, complicado, que muitas vezes quis matar o pai. Existiria sem o precursor? Talvez essa discussão mereça outro filme, mas é a única lacuna que senti em Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz.

Portanto, aplaudo o trabalho de Joel Pizzini e de Maria Flor, produtora e assistente de direção. Minha filha, pra quem não sabe!

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Encontro com Modigliani

Sexta-feira, quando saí de uma reunião de trabalho na Avenida Paulista, me deparei com uma cena curiosa. Sob o vão do Masp, um homem fazia um discurso entusiasmado para meia dúzia de estudantes que o ouviam, atentos. Ao lado, um cartaz anunciava o fim do mundo, em 20/12/2012, quando o planeta Vênus vai explodir por estar em sei lá que conjunção com outros planetas. Claro que o homem tinha bilhetes para a salvação “com Jesus”, e quem não comprar agora afundará nas trevas.

                Parei um pouco, divertido com a conversa. De repente, meu foco visual se ajustou para o fundo da cena, onde um cartaz anunciava as exposições do museu. Caramba, há quanto tempo não entro no Masp? Calculei que faria bem trocar a hora de almoço por um reencontro com as obras que marcaram minha juventude.

                O museu não é o mesmo que conheci pela mão de meu pai, em meados do século passado. Nem mesmo quando passava longas tardes por lá, na época de estudante, em 1979, com uma namorada que estudava Artes Plásticas. Os famosos painéis de vidro criados por Lina Bardi, que faziam os quadros flutuarem no andar inteiro como se fosse grande instalação, não existem mais. Hoje tem uma cara mais tradicional, parece com outros museus, digamos, comuns: quadros pendurados em paredes (ou divisórias). Mas que quadros!

                Além do acervo permanente, com obras que sempre tenho prazer em rever, como quem revê velhos amigos, o que me provocou o impulso de entrar foi a exposição de Modigliani. Ecoou na lembrança a voz de minha mãe, que sempre dizia “Modi, le maudit” quando se referia ao perturbado artista. E também as grandes mulheres nuas, mulheres-paisagem, sempre com braços ou pernas cortadas, que incendiavam minha imaginação infantil nos livros de arte de meu pai. Não eram os nus clássicos ou românticos, que não me causavam nenhum frisson erótico, acostumado que estava com aquelas imagens desde pequeno. Era uma coisa diferente, ao mesmo tempo provocante e inatingível.

                Pois este Grande Nu está lá, claro, além de vários retratos famosos. No primeiro piso, descendo o elevador, uma bem organizada exposição conta a história de Amadeo Modigliani, através de painéis didáticos e uma linha do tempo, desde que saiu de Livorno, na Itália, até a morte em Paris, aos 36 anos. No meio do caminho, as bebedeiras, drogas, mulheres, amigos e inquietações artísticas. Nota-se claramente o percurso estético do artista, oscilando entre a herança romântica, a influência primitiva (como suas esculturas se parecem com máscaras africanas!) e as revoluções que ocorriam à sua volta, como o Cubismo.

                As fotos (há várias) são fascinantes. Creio que fiquei mais tempo diante delas que das obras. Jeanne Hébuterne, a jovem com quem viveu os últimos anos, era linda. Suicidou-se, grávida de 8 meses, no dia seguinte à morte do “mauldit”. Tinha apenas 21 anos.

                Modigliani conviveu com muitas estrelas, na Paris do início do século XX. Há fotos dele com Picasso, Brancusi, Cocteau, Apollinaire, Kisling, Juan Gris, Soutine… Retratou vários amigos, fez um único auto-retrato, que também está exposto no Masp.

Aliás, retrato é o que não falta. Entre no Google Imagens e digite “Modigliani”: você não verá uma única paisagem ou natureza morta! A não ser que considere aquelas grandes mulheres nuas uma espécie de paisagem. Aí é outra viagem…


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