Arquivo de julho \27\UTC 2012

Teatro de Grupo na TV PUC

Um dos projetos mais bacanas que realizei nos últimos tempos, e que cheguei a comentar aqui no Fósforo, foi o do Teatro de Grupo.

Participei das discussões iniciais, da formatação, das diversas peregrinações à Secretaria de Cultura de SP para que a verba fosse liberada. Acabei escrevendo o roteiro e dirigindo o vídeo inaugural da série, sobre o grupo Folias d’Arte, em 2010.

O grupo até mudou de nome (hoje é Galpão do Folias), mas o projeto continuou inédito. Foi apresentado à TV Cultura e a alguns patrocinadores, sem sucesso. São programas de 26 minutos, gravados em HD, prontos para exibição, mas…

Outros dois grupos foram enfocados, nessa primeira fase. O pessoal do Pombas Urbanas, lá da Zona Leste de SP, recebeu a visão carinhosa e surpreendente de Aline Sasahara. Tadeu Knudsen colocou seu talento na abordagem do Engenho Teatral. Amigos queridos, que pegaram o espírito da coisa e levaram adiante.

Por enquanto são três vídeos, mas pretende ser uma série, abordando essa vertente tão rica do teatro paulista e brasileiro. O nome Teatro de Grupo define aquele tipo de teatro que normalmente engloba criação, produção e gestão coletiva, sem estrelas ou figurões.

Várias vertentes estão aí representadas: o teatro de rua, o teatro operário, o teatro de crítica social, de sátira e deboche. Mas, acima de tudo, é teatro de invenção, fora dos padrões televisivos e longe do teatrão comercial. Há mais amor à arte do que dinheiro em jogo, certamente.

Esteja convidado a conhecer estas fascinantes experiências coletivas de criação!

A Loucura das Armas

A tragédia do assassino americano que matou 12 pessoas e feriu outras 58 em Colorado revelou um lado perverso da imprensa. A coisa foi logo denunciada nas redes sociais (bendita internet livre, que os tucanos querem censurar!).

Eu acrescento: se fosse negro, seria tratado como “um jovem americano”? E se fosse mexicano, oriental ou brasileiro? E se fosse gay, canhoto, órfão, filatelista ou protético, que destaque isso teria na velha e velhaca mídia?

Quando pensamos que o horror vai acabar, chega outra notícia assustadora: “Venda de armas no Colorado sobe 43% após massacre”.

Retrato de uma sociedade dominada pelo medo, como já denunciava – entre outros – o cineasta Michael Moore no filme Tiros Em Columbine.

Segundo um vendedor da maior loja de armas de Denver, capital do estado, no dia seguinte à tragédia, uma sexta-feira, ele foi trabalhar e encontrou cerca de 20 pessoas esperando a abertura da loja. Após o fim de semana, nas palavras dele, “foi provavelmente a segunda-feira de maiores vendas no ano todo.”

Pausa para respirar. E me passou pela cabeça algo que espero ser apenas paranoia. E se um fabricante de armas, entusiasmado com esse resultado expressivo de vendas, resolve incentivar outros atiradores? Seria inescrupuloso, claro, mas quem me garante que um sujeito que fabrica e vende armas tem escrúpulos?

Há poucos anos o plebiscito sobre porte de armas rolou aqui no Brasil. Venceram os defensores do direito de matar. Perdemos a chance de sermos civilizados como o Japão ou a Inglaterra. Escolhemos o bang-bang americano. É incrível como gostamos de copiar o que eles tem de pior, e geralmente ignoramos o que eles produzem de melhor.

Mas ninguém pode dizer que São Paulo, com toda sua violência estimulada por péssimos exemplos vindo das autoridades, copia os americanos.  Os paulistas defensores de armas podem bater no peito e dizer, orgulhosos, que já tinham um serial killer de cinema antes do americano. Um bom rapaz de classe média branca, como aquele. Não era tão bom no gatilho, mas compreende-se, afinal não passa de um brasileiro…

Os nazistas de São Paulo

O candidato José Serra declara que vê “nazismo” na militância do PT. Como disse um amigo, é incrível como essa triste figura da política brasileira projeta nos adversários os próprios pensamentos, que tenta esconder. Caso de psicanálise…

Moro em São Paulo há mais de 40 anos. Em virtude do meu trabalho, conheço cada região (embora confesse que ainda me perco na Zona Leste). De Parelheiros a S. Miguel Paulista, do Edifício Itália até as fronteiras de São Mateus, do Masp até o Campo Limpo. Sei que é uma cidade grande, cheia de problemas incontornáveis, com os defeitos de toda grande metrópole. Poluição, trânsito, filas…

O que me preocupa, de fato, é a mudança no comportamento das pessoas. Sou de um tempo em que jogava bola na rua até cansar. As crianças de Vila Mariana, onde cresci,  brincavam de pique-esconde até o anoitecer.

Muitas vezes fui a pé ou de bicicleta até o Parque do Ibirapuera ou o da Aclimação, com 11 ou 12 anos, e ficava lá a tarde toda. (Não existia celular, crianças, e nem por isso nossas mães ficavam desesperadas.)

A rua era um espaço de convívio, e não de conflito. O que mudou? Conheço outras metrópoles, e não ficaram tão frias, tão violentas, tão insensíveis. Tenho a maior inveja do Rio de Janeiro, com seus bares de mesas na calçada, aposentados jogando dominó e aquela vasta e democrática área de lazer que é a praia.

Passeei em janeiro deste ano em Buenos Aires, e o que mais fiz foi andar pelas calçadas, parar nos cafés que ficam abertos até altas horas, com toda aquela gente andando, conversando, brincando… sendo felizes! Que saudade me deu daquela São Paulo! A São Paulo de hoje se tornou uma cidade infeliz. Mais neurótica, mais agressiva (o comportamento dos motoristas é assustador), mais reprimida. E o exemplo, infelizmente, veio de cima.

O último governo que tentou criar um clima de convivência nessa cidade foi o de Marta Suplicy. Os CEUs, maior realização urbana da década passada, integram educação, lazer, esporte e cultura em espaços antes abandonados. No CEU de meu bairro, Butantã, há até ensaios sinfônicos da Osusp, além de eventuais peças, espetáculos de dança e de música. Muito menos do que poderia, a meu ver, mas o espaço existe. Felizmente, restam focos de resistência cultural, como o Morro do Querosene (veja post anterior) que arejam a vida comunitária da região. Ou alguém acha que vida comunitária é reunião de condomínio? Ou, talvez, pagar caro pra dançar num bar superlotado!

A Virada Cultural é um erro monumental. Concentrar uma verba gigantesca num único fim de semana é muito mais “evento” e muito menos “cultura”. Distribuir estas atividades nos CEUs, parques e outros espaços, por muito mais tempo, seria mais amplo, consistente e inteligente. Como é feito nas grandes metrópoles do mundo onde há uma política cultural de integração. Ah, mas dá menos manchete de jornal, esqueci…

As políticas públicas da era Serra-Kassab são marcadas pela violência, pela exclusão. Cracolândia e Pinheirinho são faces da mesma moeda. Ordens truculentas para tirar os mendigos da rua. Atirar antes de averiguar. Sair fuzilando motorista que ultrapasse a velocidade. Levar jovens negros para terrenos baldios e executá-los. Estimular a construção de condomínios com muros altos, arame farpado, câmeras de vigilância, guardas armados. O que é nazismo, mesmo?

Os maus governantes fizeram isso de São Paulo. Uma cidade lúgubre, amedrontada, discriminatória. E você, que não se conforma com essa situação, que quer novamente andar pelas ruas até de noite, brincar, sorrir, namorar, tornar a cidade melhor, mais humana e decente, cuidado! Ainda vai ser chamado de “nazista” pelos verdadeiros responsáveis por essa situação.

Ana Maria Carvalho – O Maranhão em São Paulo

         

           O Morro do Querosene ocupa um lugar especial no cenário cultural de São Paulo. Pequena elevação na rive gauche do Rio Pinheiros, ganhou o apelido por causa das primeiras ocupações, ainda sem energia elétrica. Do bairro de Pinheiros, do outro lado do rio, os paulistanos avistavam o morro faiscando à noite por causa dos lampiões de querosene.

            Com a instalação da USP por aquelas bandas o bairro do Butantã cresceu e se modernizou. O Morro do Querô (como dizem os íntimos) perdeu os lampiões, ganhou luz elétrica e ruas asfaltadas. Ainda resta uma grande mancha verde, a Chácara da Fonte, com uma nascente que serviu aos tropeiros que partiam para o sul no século XIX e – dizem – pontuava o famoso Peabiru, o mítico caminho dos índios que ligava o Atlântico ao Pacífico. Muitas casas viraram repúblicas, e os estudantes se instalaram por ali nos anos 70 e 80. Hoje o morro é morada de artistas plásticos, arquitetos, cineastas, poetas e músicos, que mudaram o perfil da região.

            As festas de rua sempre foram características do Morro do Querosene. As juninas, principalmente, herança dos nordestinos que ali moravam. No início dos anos 80, um grupo de maranhenses introduziu a Festa do Boi no pedaço. Acabou se tornando uma das festas mais concorridas da cidade, gerando um núcleo de músicos, dançarinos, cantores e compositores populares, que formaram o grupo Cupuaçu, em 1986.

            Tião Carvalho se destacou, alcançando sucesso nacional pelas vozes de Ná Ozzetti e Cássia Eller com Nós (“pois é, esse samba é pra você, ô meu amor…”). Principal voz da festa do Boi, sempre teve ao lado a irmã Ana Maria, também fundadora do Cupuaçu. Dando aulas de dança, canto e folclore, formaram gerações de jovens interessados em cultura brasileira. Até hoje eles mantém fortes laços com o Teatro Ventoforte, dirigido por Ilo Krugli, com várias criações conjuntas.

             Às vésperas de completar 60 anos, Ana Maria Carvalho finalmente tem sua obra registrada em CD. Compositora de temas embebidos do folclore de sua terra natal, Ana Maria se aventura em sambas, cirandas, maracatus, baiões e toadas, bordados com delicado lirismo.

            O astral dessa figura simbólica pode ser medido pela quantidade de participações especiais no disco (Por Mim e Por Meu Povo, Pôr do Som, 2012), gravado com recursos do Programa de Ação Cultural 2011 do governo de SP.

            O grupo de base conta com o grande flautista Toninho Carrasqueira (que assina o texto de apresentação), o multi-instrumentista Marquinho Mendonça, o 7 cordas Carlinhos Amaral e a percussão de Henrique Menezes (outra voz do Boi) e Manoel Pacífico. O diretor musical Gabriel Levy ficou com o acordeom, e é responsável pelos arranjos.

            Cida Moreira canta numa faixa, Tião Carvalho participa de várias, Thomas Rohrer comparece com sua rabeca, Simone Soul percute, Graça Reis, Ana Flor Carvalho e Rô Macedo juntam suas vozes ao coro de amigos.

            Umas faixas são dançantes, outras mais introspectivas. Em Esperando Alice, só com voz e flauta, Ana Maria e Carrasqueira atingem alto nível de sofisticação musical. E aos poucos vamos descobrindo detalhes, relances de um Maranhão profundamente entranhado em São Paulo, absorvendo e refletindo minúcias musicais de todo o Brasil. Não à toa, os bordados que enfeitam a capa e o encarte do CD são da própria artista.

            Um disco precioso, que revela a encantadora personalidade criativa de Ana Maria Carvalho e reforça a importância desse núcleo tão brasileiro, sediado no mítico Morro do Querosene.

 (Publicado originalmente na Revista Música Brasileira)

    Foto: Liliana Cavallo.

Foi cá, sabe?

Amigos perguntam se sou o compositor de certo blues de protesto que está rolando pela internet. Fui ouvir, intrigado. Dei boas risadas.

Não, não fui eu. Sou Daniel Brazil, com Z, de batismo. Nome herdado dos ancestrais. Meus bisavós nasceram num país que era escrito com Z, basta conferir as cédulas e selos do século XIX. Brazil era nome de árvore, como Carvalho, Nogueira, Oliveira, Pinheiro, etc. Cristão novo, provavelmente.

Se fizesse uma canção de protesto contra o prefeito de minha cidade, seria um sambinha. Soa mais brasileiro, mais popular, menos colonizado. Mas aplaudo a moçada blueseira, concordo com cada verso. O tal prefeito levou o título de “pior da História” este ano, mas creio que foi injusto. Ele não merece um primeiro lugar, no máximo segundo. Sofri com Pitta (argh!), Maluf (bleargh!), Jânio (horror!) e até Serra (ha ha ha!), o que assinou documento de permanência e não cumpriu.

Que componham blues, sambas, valsas, raps, rocks, maracatus, toadas, modas e funks contra esse edil preconceituoso, autoritário e anti-popular. Aplaudirei todos!