Os nazistas de São Paulo

O candidato José Serra declara que vê “nazismo” na militância do PT. Como disse um amigo, é incrível como essa triste figura da política brasileira projeta nos adversários os próprios pensamentos, que tenta esconder. Caso de psicanálise…

Moro em São Paulo há mais de 40 anos. Em virtude do meu trabalho, conheço cada região (embora confesse que ainda me perco na Zona Leste). De Parelheiros a S. Miguel Paulista, do Edifício Itália até as fronteiras de São Mateus, do Masp até o Campo Limpo. Sei que é uma cidade grande, cheia de problemas incontornáveis, com os defeitos de toda grande metrópole. Poluição, trânsito, filas…

O que me preocupa, de fato, é a mudança no comportamento das pessoas. Sou de um tempo em que jogava bola na rua até cansar. As crianças de Vila Mariana, onde cresci,  brincavam de pique-esconde até o anoitecer.

Muitas vezes fui a pé ou de bicicleta até o Parque do Ibirapuera ou o da Aclimação, com 11 ou 12 anos, e ficava lá a tarde toda. (Não existia celular, crianças, e nem por isso nossas mães ficavam desesperadas.)

A rua era um espaço de convívio, e não de conflito. O que mudou? Conheço outras metrópoles, e não ficaram tão frias, tão violentas, tão insensíveis. Tenho a maior inveja do Rio de Janeiro, com seus bares de mesas na calçada, aposentados jogando dominó e aquela vasta e democrática área de lazer que é a praia.

Passeei em janeiro deste ano em Buenos Aires, e o que mais fiz foi andar pelas calçadas, parar nos cafés que ficam abertos até altas horas, com toda aquela gente andando, conversando, brincando… sendo felizes! Que saudade me deu daquela São Paulo! A São Paulo de hoje se tornou uma cidade infeliz. Mais neurótica, mais agressiva (o comportamento dos motoristas é assustador), mais reprimida. E o exemplo, infelizmente, veio de cima.

O último governo que tentou criar um clima de convivência nessa cidade foi o de Marta Suplicy. Os CEUs, maior realização urbana da década passada, integram educação, lazer, esporte e cultura em espaços antes abandonados. No CEU de meu bairro, Butantã, há até ensaios sinfônicos da Osusp, além de eventuais peças, espetáculos de dança e de música. Muito menos do que poderia, a meu ver, mas o espaço existe. Felizmente, restam focos de resistência cultural, como o Morro do Querosene (veja post anterior) que arejam a vida comunitária da região. Ou alguém acha que vida comunitária é reunião de condomínio? Ou, talvez, pagar caro pra dançar num bar superlotado!

A Virada Cultural é um erro monumental. Concentrar uma verba gigantesca num único fim de semana é muito mais “evento” e muito menos “cultura”. Distribuir estas atividades nos CEUs, parques e outros espaços, por muito mais tempo, seria mais amplo, consistente e inteligente. Como é feito nas grandes metrópoles do mundo onde há uma política cultural de integração. Ah, mas dá menos manchete de jornal, esqueci…

As políticas públicas da era Serra-Kassab são marcadas pela violência, pela exclusão. Cracolândia e Pinheirinho são faces da mesma moeda. Ordens truculentas para tirar os mendigos da rua. Atirar antes de averiguar. Sair fuzilando motorista que ultrapasse a velocidade. Levar jovens negros para terrenos baldios e executá-los. Estimular a construção de condomínios com muros altos, arame farpado, câmeras de vigilância, guardas armados. O que é nazismo, mesmo?

Os maus governantes fizeram isso de São Paulo. Uma cidade lúgubre, amedrontada, discriminatória. E você, que não se conforma com essa situação, que quer novamente andar pelas ruas até de noite, brincar, sorrir, namorar, tornar a cidade melhor, mais humana e decente, cuidado! Ainda vai ser chamado de “nazista” pelos verdadeiros responsáveis por essa situação.

13 Responses to “Os nazistas de São Paulo”


  1. 1 Gerva Martins 21/07/2012 às 1:58 pm

    daniel expressou bem o sentimento de quem ve a cidade sendo pulverizada por interesses tão mesquinhos e norteados por uma visão tão curta.
    a cidade deixou de ser um espaço do cidadão, para se tornar lugar de especulação, com as ruas tomadas por politicas excludentes, apartadoras e policialescas.
    bom… daqui ha pouco, vamos escolher os administradores (prefeito e vereadores) da cidade. uma esperança de mudanças!

  2. 3 Mayra 21/07/2012 às 3:45 pm

    Então, Daniel, e os verdadeiros responsáveis por essa situação violenta, degradante e humilhante foram eleitos… Isso é o que me angustia mais no fim das contas: a aprovação dessa política fascista por boa parte da população paulista, e paulistana. Hj saiu a pesquisa mais recente: Serra com 30% das intenções de voto e Russomano com 26% – e a gente sabe quem é Russomano.Tô bem triste, e não vejo nenhuma virada miraculosa na campanha pela prefeitura, ao contrário, vem por aí mais do mesmo, isto é, a gente vai continuar com uma cidade maltratada e que só pode, consequentemente, maltratar seus habitantes.

  3. 4 Daniel Brazil 21/07/2012 às 8:01 pm

    Mayra, a campanha praticamente não começou. Índices não me preocupam, mas a consciência dos paulistanos. Os cidadãos estão amortecidos, alheios. Parece que só se ligam com a televisão, infelizmente. Em agosto começará a campanha, de fato.

  4. 5 Edu Maretti 22/07/2012 às 4:10 pm

    Assino embaixo o comentário de Daniel. O que mais importa, como comentei no meu próprio blog, é derrotar o projeto que atualmente vigora em São Paulo, contra a criatividade, contra a espontaneidade, contra a arte, contra a inclusão, contra a cidadania e contra a felicidade, o que o post que ora comento expressa muito bem.

    • 6 Daniel Brazil 22/07/2012 às 9:57 pm

      É isso aí, Edu. Legal a entrevista com o Haddad, no teu blog. Espero que ele mantenha o alto nível demonstrado até aqui. Faz bem pra democracia!

  5. 8 Daniel Brazil 23/07/2012 às 10:42 pm

    Está linkado também, Edu!

  6. 9 Julio 24/07/2012 às 12:02 am

    Bom, eu sou da turma que conheceu e brincou e andou de bicicleta no parque da aclimação no tempo em que (vê se pode) ele não era cercado. Podia-se ir lá a qualquer hora. Infelizmente também sou da turma dos desencantados que não acreditam numa saída – pelo menos não numa que eu vá ver. O grosso da população de São Paulo é conservadora, pra não dizer reacionária, e dificilmente vai eleger alguém muito diferente. Concordo que os maus governantes tornaram São Paulo uma cidade além de feia, triste. Mas como se mudam os governantes? Com eleições, óbvio. Mas pelos que tem sido eleitos nos últimos 12 anos, acho que a população está satisfeita com os governantes que temos tido. Será que não somos nós, os insatisfeitos, que estamos morando no lugar errado? To começando a achar que sim.

    • 10 Daniel Brazil 24/07/2012 às 11:20 am

      Penso um pouco diferente, Julio. A população paulistana pode ser conservadora, mas faz um interessante movimento pendular nas eleições. Depois de Jânio, elegeu Erundina. Depois de Pitta, Marta. Ou seja, depois de um período Serra/Kassab (pessimamente avaliado, aliás, como Pitta), a vontade de mudar volta a fazer cócegas no dedo do eleitor.

      • 11 Julio 25/07/2012 às 9:19 pm

        Oi Daniel.
        Concordo com relação à Marta, mas “disconcordo” com relação à Erundina. Ela foi eleita quando ainda não havia segundo turno. Ela foi eleita com 30 e poucos por cento dos votos. Ou seja, a maioria infelizmente não a queria. De qualquer forma, torço pra que você esteja certo e eu e meu desencantamento errados.

  7. 12 Jussara 25/07/2012 às 12:18 pm

    Dani,
    por aqui também não se anda tão à vontade assim à noite, mas quiosque de praia é ponto de convivência e no suburbio qualquer espaço é ponto de música.
    Passei meses em Bagé e digo, como é bom ir a um restaurante ou boteco e sair muito depois da meia noite e andar 6 quarteirões até o hotel sem medo nenhum! Muitas vezes sozinha.
    Gosto de São Paulo, mas a cada vez que ando por aí, só vejo piora, infelizmente…
    Texto mais que pertinente.
    bjs

  8. 13 Daniel Brazil 25/07/2012 às 12:32 pm

    Saudade daquela São Paulo onde convivemos, Jussara!


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