Arquivo para agosto \31\UTC 2012

Nancy Vieira, de Cabo Verde

Uma das paixões musicais de minha vida foi Cesária Évora. Tive a honra de entrevistar pessoalmente a diva dos pés descalços num hotel, em São Paulo, na década de 90, e ganhar um CD autografado (Miss Perfumado, que abre com a famosa Sodade). Depois de sua morte, em 2011, andei meio órfão da música cabo-verdiana.

Andava, não ando mais. Minha filha me envia, de Portugal,  um CD de Nancy Vieira (No Amá, 2011) acompanhado do bilhete: “Pai, vi um show dela maravilhoso em Lisboa, você vai adorar!”

Adorei mesmo. A moça alia a suavidade das mornas de Cesária com a ginga das coladeiras, colocando aqui e ali um toque bossanovístico. Não à toa, o disco é produzido por José da Silva, o francês que, em 1988, redescobriu Cesária Évora e a convidou a gravar em Paris. Sinta a delicadeza da interpretação de Nancy Vieira em Maylen, seu maior sucesso:

Aqui, você pode conhecer um pouco mais sobre a cantora, além de apreciar lindas paisagens da ilha de São Nicolau, em  Cabo Verde.

 

 

 

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As novas sabinas

Uma irônica observação sobre a mudança do conceito de beleza através dos tempos. A moça que encara embevecida as curvilíneas sabinas retratadas por Rubens é vista de forma depreciativa pelos circundantes.

Para quem conheceu Lênio Braga,o desenho desperta outras lembranças…

Papo de Anjo

Altamiro chegou ao céu, e teve uma surpresa. São Pedro, apreciador de boa música, escalou o Poyares para recebê-lo.

– Rapaz, mas você está o mesmo!

– Ô Carrilho, aqui a gente não envelhece, pô!

– Como não? Estou com a cara toda amarrotada, espiei no retrovisor de um Boeing que estava passando!

– Depois eu que tenho fama de mentiroso…

– Ah, que é isso, tua fama lá na Terra é de grande flautista!

– Não maior que você, Carrilho. Aliás, vou te confessar: sempre tive uma pontinha de inveja de teu sucesso.

– Imagine! Tive mais sorte, rodei um pouco mais…

– Não seja modesto. Você toca de tudo um pouco, capaz de tocar até em canudinho de refrigerante furado!

– Bom, vou ser sincero. Realmente, acho que toquei mais variedade, música de concerto, e tal… Mas na roda de choro você era insuperável! Era… ou é? Como se diz por aqui?

– Continuamos na ativa. Aliás, eu sempre achei isso. Você era mais músico, nunca foi um cara só de choro. Mas tô aprendendo uns truques com o Benedito, logo te alcanço.

– Benedito Lacerda, meu mestre? Ele está aqui?

– Uai, e onde estaria? Tem roda de samba e choro toda noite, depois que São Pedro baixa a porta do boteco. É uma briga de flauta danada, tem o Copinha, o Dante Santoro, o Plauto Cruz, o Manezinho, o João Carrasqueira…

– Rapaz, a gente nunca admitiu, mas esse pessoal tocava pra caramba! Mas o Manezinho fez carreira no Rio de Janeiro. Essa história de ir pra São Paulo foi depois de velho.

– Ah, o povo inventava muita rivalidade de mentira, naquela época. Lembra que viviam falando da gente?

– Pois é, e mais de uma vez tocamos juntos!

– Mais de uma?!? Mais de dez!

– É mesmo. Só naquele disco, Pixinguinha de Novo, da Marcus Pereira, são 12 faixas do mestre.

– Aliás, gravei tanta coisa tua… Você tem valsa e choros lindos, que pouca gente conhece.

– Poyares, assim você me deixa sem jeito…

– No meu penúltimo CD, Uma Chorada na Casa do Six, gravei Minha Viagem, Sentimental, Misterioso... tinha mais uma, não estou lembrando agora!

Pé na Tábua! A melhor gravação que já ouvi de meu choro. Você foi insuperável, Poyares! Aliás, tem uma turma de São Paulo que gravou um CD inteiro com músicas minhas, fiquei super orgulhoso: o Grupo Ó do Borogodó.

– Ih, rapaz, esse não ouvi, a distribuição aqui em cima também é uma droga… Mas conheci aquele povinho, é gente batuta. Você vai ver o que a turma da velha guarda fala de você.

– Ué, velha guarda não somos nós?

– Somos garotos, perto deles. O Callado, o Patápio…

– Tá brincando!! Se eu encontrar esses caras eu morro de emoção!

– Não morre de novo, nem que queira. O Patápio adora ouvir você tocando Primeiro Amor.

– Você também era bamba nessa música.

– Ah, você é mesmo meu irmão! Espia só quem vem ali.

– Benedito! Não acredito!

– Ih, deu pra fazer rima agora? Olha só quem está com ele.

– Pixinguinha? Parece mais jovem…

– Quem mais? E olha, ele toca flauta pra caramba.

– Puxa, só conheci ele tocando sax…

– Aqui você escolhe a melhor idade, não é aquela frescura lá de baixo. E se prepare, meu irmão, porque o homem inventa uns negócios que deixa todo mundo engasgado!

E lá foram, nuvem afora, rindo e contando causos. Naquela noite as flautas tomaram conta da roda, deixando até o Jacó enciumado.

(publicado na Revista Música Brasileira, em agosto de 2012.)

 

 

 

 

Nove Histórias Mineiras

Eu estava na faculdade quando fui apresentado a um dos livros fundamentais da psicologia social brasileira, o clássico Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos, de Ecléa Bosi, lançado em 1979. Antes mesmo de compreender toda a dimensão científica da obra, explicitada com rigor nos capítulos iniciais, fui capturado pelo texto denso, coeso e até poético, que narra o envolvimento da autora com os personagens de sua pesquisa. De certa forma, é como se ela também se tornasse personagem do livro, interagindo com seus depoentes de forma delicada e atenta.

O caminho aberto por Ecléa Bosi rendeu vários frutos: teses, pesquisas, museus da memória. Em São Paulo, existe desde 1991 o Museu da Pessoa, dedicado a registrar… memórias! Não memórias de ilustres personalidades, mas gente de todo tipo, origem, raça, classe social, etc. Qualquer um – você! – pode deixar lá registrada a sua história, para a posteridade.

Estas lembranças (epa, também estou ficando velho!) afloraram quando ganhei, recentemente, o livro Nove Histórias Mineiras (Juizforana, 2012).  O autor, Bruno Fuser, foi meu contemporâneo na USP e hoje é professor de jornalismo na Federal de Juiz de Fora. Juntamente com Josimara Delgado, assistente social que trabalha com a memória, identidade e velhice da classe trabalhadora, hoje docente, produziu um ensaio acadêmico em 2009, sobre moradores de dom Bosco, bairro pobre de Juiz de Fora.

Daqueles depoimentos eles extraíram essas Nove Histórias Mineiras, mais coloquiais, trabalhadas de forma mais livre. São memórias de oito mulheres e um homem, todos de origem humilde, que compõem um recorte dos trabalhadores de baixa renda do Brasil nos últimos 80 anos. Alguns, informais a vida inteira, outros, operários mal remunerados.

Mas o que importa aqui não é a sociologia ou a psicologia, matérias nas quais nunca me aprofundei. Gostei mesmo do texto final de Bruno Fuser, que costura cada depoimento de um jeitão aparentemente simples, informal, aproximando a linguagem acadêmica da fala popular. Eu disse “aparentemente”, pois deve ter dado um trabalho danado!

Num dos capítulos, Bruno baixa a guarda e revela a alma. “Conheci pouco a Dorinha: coisa de trabalho, meio jornalista, meio pesquisador. Mas ela me ensinou muito.” É justamente esse o imenso patrimônio dos mais velhos, portadores da sabedoria e do conhecimento vivenciados, experimentados e consolidados. E muitas vezes não (d)escritos.

Mais ainda: é uma delícia ler as transcrições, sempre assinaladas em itálico, e ver que a dupla não cometeu o erro de tentar corrigir a fala dos depoentes. Estão lá expressões bem mineiras, algumas em extinção, e palavras saborosas como mucado (bocado), cumadi (comadre), panhar (apanhar), ponhar (por),  bailezim, paiolzinho, escureceu as vista...

O livrinho ainda tem as ilustrações de Marlene Crespo, captando com sensibilidade o universo daquele povinho que resiste, contra todas as marés. E atenção: o diminutivo aqui é carinhoso, não depreciativo!

Um mistério

Por que jogador de futebol cospe tanto?

a)      Falta de educação.

b)      Burrice (desperdiça líquido corporal fazendo exercício intenso).

c)      Porquice (quando leva um pontapé, rola com gosto no cuspe dos outros).

d)      Todas as alternativas anteriores.

Um Dicionário da Língua Morta

            Os amigos mais próximos conhecem meu interesse por etimologia. A origem e formação das palavras. Como não sou poliglota, dedico-me a poucas línguas: o português, o nheengatu e o tupi-guarani.

            E não se espante ao detectar, aqui e ali, algum erro de português nos meus textos. Gostar de saber qual a origem das palavras não tem a ver com gramática, cipoal onde sempre me enrosco. Aliás, teimo em considerar – por conta própria – que o correto na frase anterior é “tem a haver”, embora os gramáticos me contradigam.

            Mas estou me divertindo com um livro delicioso: Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Morta, de Alberto Villas. O subtítulo é autoexplicativo: palavras que sumiram do mapa. Se bem que até a expressão “sumir do mapa” está em fase de extinção. Em breve será “sumir do Google”…

            O autor resolveu colecionar palavras em desuso, expressões esquecidas e gírias empoeiradas. Mineiro de origem, guardou na memória os vocábulos que ouvia na infância e juventude. Jornalista e escritor com várias obras publicadas, acrescentou os de uso corrente no Brasil dos anos 60, 70, 80, etc. Obrou um livro de 300 páginas. Mais que isso: traduziu cada verbete para o idioma contemporâneo, satisfazendo a curiosidade das novas gerações e dos desmemoriados.

            É o tipo de livro que vai receber uma enxurrada de contribuições, na próxima edição. Cada leitor, em cada canto do país, vai se lembrar de uma gíria regional, de uma locução típica, de uma palavra que durou um verão (lembram do verão da lata?).

            Na letra C, lembrei de um adjetivo corriqueiro em São Paulo nos anos 70: chacal. Mal feito, nas coxas, uma roubada. Não está no dicionário. “Nas coxas”, aliás, não tem conotação sexual. Refere-se àquele bilhete ou anotação escrita em cima da perna, que mais parece um garrancho. (Garrancho está no dicionário do Villas. Nas coxas, também).

            Algumas traduções me parecem inexatas. Villas acha que jardineira hoje é van. São coisas diferentes, embora ambas transportem passageiros mal acomodados. Traduz latrina por “banheiro”, mas sempre entendi como sinônimo de “privada”. Questões regionais, certamente.

            Enfim, é uma obra aberta, que nos faz pensar a cada verbete. E dou minha contribuição, ainda não dicionarizada: Cadê as expressões “deitar o cabelo”, “vitrola”, “colunável”, “pescar siri”, “violão”, “salto carrapeta”, “cinquenta pilas”, “emperiquitar”? (Villas registra emperequetar, forma que nunca ouvi pelas bandas meridionais do Brasil).

            Leitura divertida e polêmica. Vai render muito, pode dobrar o número de páginas na próxima edição se acatar todas as sugestões dos leitores. E mostra como a nossa língua é uma coisa dinâmica, viva, maleável e surpreendente, sempre criando novos vocábulos e acepções. Nossa língua ou nosso povo? Ah, não me complique a vida, vá catar coquinho! (Opa, esta também não está registrada. Tem catar milho, que é outra coisa!)

Jorge Amado e a música brasileira

No dia 10 de agosto comemoramos o centenário de nascimento de um dos maiores escritores brasileiros. Campeão de vendas em território pátrio (Paulo Coelho vendeu mais no mundo, mas perde no Brasil), é considerado um pioneiro em vários sentidos.

Foi o primeiro romancista a colocar pescadores, barqueiros. capitães de areia e marinheiros como  protagonistas no romance brasileiro. Menino grapiúna, descreveu como ninguém as terras cacaueiras, no Sul da Bahia. Todos conhecem de cor o nome de suas famosas personagens: Gabriela, Dona Flor, Teresa Batista; muitos leram seus romances, com as aventuras de Pedro Arcanjo, Vadinho ou Pedro Bala.

Mas o assunto aqui é música popular, não literatura. Portanto, vamos nos ater á zona de intersecção entre estas duas fabulosas artes narrativas. E Jorge Amado deixou marcas definitivas nessa área, acredite..

Claro que poderíamos nos estender sobre as canções feitas a partir de sua obra. Afinal, seus romances viraram filmes e novelas, e trilhas sonoras foram encomendadas para embalar seus personagens. Quem há de negar a autoridade de um Tom Jobim, com sua bela Suíte para Gabriela? Maravilha universal, que encanta até hoje qualquer ouvinte.

Mas um autor tão identificado com o universo musical, que descreveu tão bem rodas de samba e serenatas, que criou personagens seresteiros, batuqueiros e cantores, não teria arriscado entrar na roda pra valer?

Sim, ele entrou, puxado pelo velho compadre Dorival Caymmi, companheiro de várias noitadas baianas e cariocas. Os dois babalorixás aprontaram bastante, talvez mais do que a História registra. Chegaram a gravar um disco em que Jorge fazia leituras musicadas por Caymmi: Canto de amor à Bahia e quatro acalantos de Gabriela, cravo e canela (Festa, 1958).

Outra heroína do escritor, Teresa Batista, mereceu uma parceria explícita:

Me chamo “Siá Tereza”
Perfumada de alecrim
Ponha açúcar na boca
Se quiser falar de mim

Flor no cabelo
Flor no xibiu
Mar e rio

(Modinha para Teresa Batista)

Outas canções surgiram das noitadas, como “Beijos Pela Noite” (Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carlos Lacerda), e “Cantiga de Cego”, interpretada pelo próprio Dorival, que virou tema de novela, também baseada em romance de Jorge Amado (Terras do Sem Fim). Um filho do compositor, Dori, também registrou uma parceria com o escritor (Alegre Menina).

Outro baiano ilustre, João Gilberto, compartilhou da rara honraria. A história é tortuosa, mas verdadeira. Não se espante: Jorge Amado foi padrinho de casamento de João com Astrud Gilberto!

Um italiano radicado em São Paulo, Alberto D’Aversa, resolveu filmar o romance Seara Vermelha., no final dos anos 50. O maestro Moacir Santos foi incumbido da trilha sonora, e musicou uma letra de Jorge, Lamento da Morte de Dalva na Beira do Rio São Francisco, mas o nome do escritor não saiu nos créditos. João Gilberto gostou da música e gravou como Undiú, no seu disco de 1973. Da letra original, sobrou apenas a palavra-título…

Os versos mais conhecidos de Jorge Amado estão na clássica canção praieira É Doce Morrer no Mar. Surpresa? Ouça o que disse o próprio Caymmi:

Nos anos 40, estávamos reunidos na casa do pai de Jorge, em Vila Isabel. Lá estavam o gaúcho Érico Veríssimo e outros intelectuais. Sugeri, então, de brincadeira, que fizéssemos um concurso para ver quem fazia a letra da canção. Acabei ganhando e usei dois versos de Jorge como inspiração.”

O autor de Tieta do Agreste (que mereceu canção-tema de Caetano Veloso) teve até parceiros eruditos. O paulista Francisco Mignone compôs “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua“, baseado em um belo conto (novela?) do baiano. Antes dele, o amazonense Claudio Santoro musicou a letra “Não Te Digo Adeus”, em 1956.

Jorge Amado e seus personagens foram muitas vezes tema de samba-enredo, (Império Serrano, em 1989), sem falar dos muitos blocos baianos que homenagearam o mestre. Aliás, o tema oficial do carnaval de Salvador em 1997 foi Tieta do Agreste, o que propiciou muitas citações aos personagens do octogenário escritor.

Claro: ele virou centenário agora, em 2012, com muita música nos terreiros, quadras, botecos, castelos (leia os romances do baiano para saber o que é isso), bataclans e praias desse Brasil que ele tanto amou. Salve, Jorge!

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira)


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