Jorge Amado e a música brasileira

No dia 10 de agosto comemoramos o centenário de nascimento de um dos maiores escritores brasileiros. Campeão de vendas em território pátrio (Paulo Coelho vendeu mais no mundo, mas perde no Brasil), é considerado um pioneiro em vários sentidos.

Foi o primeiro romancista a colocar pescadores, barqueiros. capitães de areia e marinheiros como  protagonistas no romance brasileiro. Menino grapiúna, descreveu como ninguém as terras cacaueiras, no Sul da Bahia. Todos conhecem de cor o nome de suas famosas personagens: Gabriela, Dona Flor, Teresa Batista; muitos leram seus romances, com as aventuras de Pedro Arcanjo, Vadinho ou Pedro Bala.

Mas o assunto aqui é música popular, não literatura. Portanto, vamos nos ater á zona de intersecção entre estas duas fabulosas artes narrativas. E Jorge Amado deixou marcas definitivas nessa área, acredite..

Claro que poderíamos nos estender sobre as canções feitas a partir de sua obra. Afinal, seus romances viraram filmes e novelas, e trilhas sonoras foram encomendadas para embalar seus personagens. Quem há de negar a autoridade de um Tom Jobim, com sua bela Suíte para Gabriela? Maravilha universal, que encanta até hoje qualquer ouvinte.

Mas um autor tão identificado com o universo musical, que descreveu tão bem rodas de samba e serenatas, que criou personagens seresteiros, batuqueiros e cantores, não teria arriscado entrar na roda pra valer?

Sim, ele entrou, puxado pelo velho compadre Dorival Caymmi, companheiro de várias noitadas baianas e cariocas. Os dois babalorixás aprontaram bastante, talvez mais do que a História registra. Chegaram a gravar um disco em que Jorge fazia leituras musicadas por Caymmi: Canto de amor à Bahia e quatro acalantos de Gabriela, cravo e canela (Festa, 1958).

Outra heroína do escritor, Teresa Batista, mereceu uma parceria explícita:

Me chamo “Siá Tereza”
Perfumada de alecrim
Ponha açúcar na boca
Se quiser falar de mim

Flor no cabelo
Flor no xibiu
Mar e rio

(Modinha para Teresa Batista)

Outas canções surgiram das noitadas, como “Beijos Pela Noite” (Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carlos Lacerda), e “Cantiga de Cego”, interpretada pelo próprio Dorival, que virou tema de novela, também baseada em romance de Jorge Amado (Terras do Sem Fim). Um filho do compositor, Dori, também registrou uma parceria com o escritor (Alegre Menina).

Outro baiano ilustre, João Gilberto, compartilhou da rara honraria. A história é tortuosa, mas verdadeira. Não se espante: Jorge Amado foi padrinho de casamento de João com Astrud Gilberto!

Um italiano radicado em São Paulo, Alberto D’Aversa, resolveu filmar o romance Seara Vermelha., no final dos anos 50. O maestro Moacir Santos foi incumbido da trilha sonora, e musicou uma letra de Jorge, Lamento da Morte de Dalva na Beira do Rio São Francisco, mas o nome do escritor não saiu nos créditos. João Gilberto gostou da música e gravou como Undiú, no seu disco de 1973. Da letra original, sobrou apenas a palavra-título…

Os versos mais conhecidos de Jorge Amado estão na clássica canção praieira É Doce Morrer no Mar. Surpresa? Ouça o que disse o próprio Caymmi:

Nos anos 40, estávamos reunidos na casa do pai de Jorge, em Vila Isabel. Lá estavam o gaúcho Érico Veríssimo e outros intelectuais. Sugeri, então, de brincadeira, que fizéssemos um concurso para ver quem fazia a letra da canção. Acabei ganhando e usei dois versos de Jorge como inspiração.”

O autor de Tieta do Agreste (que mereceu canção-tema de Caetano Veloso) teve até parceiros eruditos. O paulista Francisco Mignone compôs “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua“, baseado em um belo conto (novela?) do baiano. Antes dele, o amazonense Claudio Santoro musicou a letra “Não Te Digo Adeus”, em 1956.

Jorge Amado e seus personagens foram muitas vezes tema de samba-enredo, (Império Serrano, em 1989), sem falar dos muitos blocos baianos que homenagearam o mestre. Aliás, o tema oficial do carnaval de Salvador em 1997 foi Tieta do Agreste, o que propiciou muitas citações aos personagens do octogenário escritor.

Claro: ele virou centenário agora, em 2012, com muita música nos terreiros, quadras, botecos, castelos (leia os romances do baiano para saber o que é isso), bataclans e praias desse Brasil que ele tanto amou. Salve, Jorge!

(Publicado originalmente na Revista Música Brasileira)

1 Response to “Jorge Amado e a música brasileira”


  1. 1 dalila teles veras 17/08/2012 às 11:39 pm

    Belíssima homenagem ao nosso centenário Jorge! Essa relação música-literatura no Brasil sempre deu e dará (muito) samba. Mestiçagem mais do que legítima e abençoada por todos os Orixás. Abraço grato da
    dalila


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