Um Dicionário da Língua Morta

            Os amigos mais próximos conhecem meu interesse por etimologia. A origem e formação das palavras. Como não sou poliglota, dedico-me a poucas línguas: o português, o nheengatu e o tupi-guarani.

            E não se espante ao detectar, aqui e ali, algum erro de português nos meus textos. Gostar de saber qual a origem das palavras não tem a ver com gramática, cipoal onde sempre me enrosco. Aliás, teimo em considerar – por conta própria – que o correto na frase anterior é “tem a haver”, embora os gramáticos me contradigam.

            Mas estou me divertindo com um livro delicioso: Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Morta, de Alberto Villas. O subtítulo é autoexplicativo: palavras que sumiram do mapa. Se bem que até a expressão “sumir do mapa” está em fase de extinção. Em breve será “sumir do Google”…

            O autor resolveu colecionar palavras em desuso, expressões esquecidas e gírias empoeiradas. Mineiro de origem, guardou na memória os vocábulos que ouvia na infância e juventude. Jornalista e escritor com várias obras publicadas, acrescentou os de uso corrente no Brasil dos anos 60, 70, 80, etc. Obrou um livro de 300 páginas. Mais que isso: traduziu cada verbete para o idioma contemporâneo, satisfazendo a curiosidade das novas gerações e dos desmemoriados.

            É o tipo de livro que vai receber uma enxurrada de contribuições, na próxima edição. Cada leitor, em cada canto do país, vai se lembrar de uma gíria regional, de uma locução típica, de uma palavra que durou um verão (lembram do verão da lata?).

            Na letra C, lembrei de um adjetivo corriqueiro em São Paulo nos anos 70: chacal. Mal feito, nas coxas, uma roubada. Não está no dicionário. “Nas coxas”, aliás, não tem conotação sexual. Refere-se àquele bilhete ou anotação escrita em cima da perna, que mais parece um garrancho. (Garrancho está no dicionário do Villas. Nas coxas, também).

            Algumas traduções me parecem inexatas. Villas acha que jardineira hoje é van. São coisas diferentes, embora ambas transportem passageiros mal acomodados. Traduz latrina por “banheiro”, mas sempre entendi como sinônimo de “privada”. Questões regionais, certamente.

            Enfim, é uma obra aberta, que nos faz pensar a cada verbete. E dou minha contribuição, ainda não dicionarizada: Cadê as expressões “deitar o cabelo”, “vitrola”, “colunável”, “pescar siri”, “violão”, “salto carrapeta”, “cinquenta pilas”, “emperiquitar”? (Villas registra emperequetar, forma que nunca ouvi pelas bandas meridionais do Brasil).

            Leitura divertida e polêmica. Vai render muito, pode dobrar o número de páginas na próxima edição se acatar todas as sugestões dos leitores. E mostra como a nossa língua é uma coisa dinâmica, viva, maleável e surpreendente, sempre criando novos vocábulos e acepções. Nossa língua ou nosso povo? Ah, não me complique a vida, vá catar coquinho! (Opa, esta também não está registrada. Tem catar milho, que é outra coisa!)

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