Nove Histórias Mineiras

Eu estava na faculdade quando fui apresentado a um dos livros fundamentais da psicologia social brasileira, o clássico Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos, de Ecléa Bosi, lançado em 1979. Antes mesmo de compreender toda a dimensão científica da obra, explicitada com rigor nos capítulos iniciais, fui capturado pelo texto denso, coeso e até poético, que narra o envolvimento da autora com os personagens de sua pesquisa. De certa forma, é como se ela também se tornasse personagem do livro, interagindo com seus depoentes de forma delicada e atenta.

O caminho aberto por Ecléa Bosi rendeu vários frutos: teses, pesquisas, museus da memória. Em São Paulo, existe desde 1991 o Museu da Pessoa, dedicado a registrar… memórias! Não memórias de ilustres personalidades, mas gente de todo tipo, origem, raça, classe social, etc. Qualquer um – você! – pode deixar lá registrada a sua história, para a posteridade.

Estas lembranças (epa, também estou ficando velho!) afloraram quando ganhei, recentemente, o livro Nove Histórias Mineiras (Juizforana, 2012).  O autor, Bruno Fuser, foi meu contemporâneo na USP e hoje é professor de jornalismo na Federal de Juiz de Fora. Juntamente com Josimara Delgado, assistente social que trabalha com a memória, identidade e velhice da classe trabalhadora, hoje docente, produziu um ensaio acadêmico em 2009, sobre moradores de dom Bosco, bairro pobre de Juiz de Fora.

Daqueles depoimentos eles extraíram essas Nove Histórias Mineiras, mais coloquiais, trabalhadas de forma mais livre. São memórias de oito mulheres e um homem, todos de origem humilde, que compõem um recorte dos trabalhadores de baixa renda do Brasil nos últimos 80 anos. Alguns, informais a vida inteira, outros, operários mal remunerados.

Mas o que importa aqui não é a sociologia ou a psicologia, matérias nas quais nunca me aprofundei. Gostei mesmo do texto final de Bruno Fuser, que costura cada depoimento de um jeitão aparentemente simples, informal, aproximando a linguagem acadêmica da fala popular. Eu disse “aparentemente”, pois deve ter dado um trabalho danado!

Num dos capítulos, Bruno baixa a guarda e revela a alma. “Conheci pouco a Dorinha: coisa de trabalho, meio jornalista, meio pesquisador. Mas ela me ensinou muito.” É justamente esse o imenso patrimônio dos mais velhos, portadores da sabedoria e do conhecimento vivenciados, experimentados e consolidados. E muitas vezes não (d)escritos.

Mais ainda: é uma delícia ler as transcrições, sempre assinaladas em itálico, e ver que a dupla não cometeu o erro de tentar corrigir a fala dos depoentes. Estão lá expressões bem mineiras, algumas em extinção, e palavras saborosas como mucado (bocado), cumadi (comadre), panhar (apanhar), ponhar (por),  bailezim, paiolzinho, escureceu as vista...

O livrinho ainda tem as ilustrações de Marlene Crespo, captando com sensibilidade o universo daquele povinho que resiste, contra todas as marés. E atenção: o diminutivo aqui é carinhoso, não depreciativo!

4 Responses to “Nove Histórias Mineiras”


  1. 1 Jussara 22/08/2012 às 4:50 pm

    Eu quero esse livro também!!! Eu simplesmente adoro o Museu da Pessoa, estou sempre por lá lendo ou pesquisando. É tão mais sincero.
    bjs

  2. 3 dalila teles veras 23/08/2012 às 4:36 pm

    Olá, Daniel,
    Interessantíssimo! Vou atrás!
    Lamentavelmente ainda não conheço o Museu da Pessoa, mas está na minha lista de prioridades. Obrigada pela valiosa (sempre) dica.
    abraço da
    dalila

    • 4 Daniel Brazil 23/08/2012 às 10:10 pm

      Pois é, Dalila, tenho uma relação sentimental com Juiz de Fora. Vivi lá por dois anos, aluno de colégio interno, entre 13 e 15 anos. Alguns nomes de bairros, ruas e avenidas citados nos depoimentos fizeram parte de minha passagem para a adolescência…


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