Em que creem os que não creem?

Morreu na última sexta feira o cardeal Carlo Maria Martini, aos 85 anos. Os jornais brasileiros noticiaram ligeiramente o desaparecimento de um líder progressista da Igreja, algumas vezes cogitado como papabile, um possível Papa.

                Mas porque estou falando disso aqui no Fósforo, onde religião nunca foi tema? Por que me importaria com a morte de um decano da vetusta e conservadora Igreja Católica, que tanto atraso causa ao mundo moderno com suas ideias antiquadas?

                Bem, confesso que o cardeal Martini ganhou o meu respeito desde que li, há alguns anos, um livro interessantíssimo: Em que crêem os que não crêem? (editora Record, 2000). Os benditos circunflexos estão na capa do livro, mantenho por fidelidade histórica.

                O livro é uma coleção de artigos escritos no período de um ano, como se fossem cartas, com questões cruciais e existenciais, publicados na revista italiana Liberal, entre 1995/96.  De um lado, Martini, um intelectual da Igreja. De outro, Umberto Eco, escritor de largo prestígio, acadêmico conceituado, especialista em São Tomás de Aquino (tema de sua tese de mestrado), estética medieval, arte de vanguarda e cultura de massa. E ateu.

                O debate entre os dois é muito rico. Questões fundamentais de nossa época (de todas as épocas, aliás) são colocadas na mesa: A existência/invenção de Deus, a cultura laica, os fundamentos da ética, as mulheres e o sacerdócio (essa é indefensável para Martini…), a engenharia genética, o aborto, a eutanásia, a esperança como noção comum a crentes e descrentes.

              O livro tem o acréscimo de comentadores, reunidos espirituosamente numa segunda parte chamada de Coro: dois filósofos, dois jornalistas, um extremista de esquerda e um ex-secretário do Partido Socialista Italiano. Faltou uma mulher, em minha opinião.

                 É claro que concordei com Eco, na quase totalidade do tempo. Mas a elegância, a inteligência e a disposição para o debate demonstradas pelo Cardeal Martini ganharam o meu respeito. Ah, se a Igreja Católica fosse governada por Martinis (sem trocadilhos etílicos, por favor)! Recomendo a leitura, seja você católico ou não, judeu, muçulmano, budista, xintoísta, umbandista, corintiano, etc. É uma homenagem à inteligência, à civilidade e ao diálogo, qualidades raras que devem ser aplaudidas em qualquer situação.

(Este post é dedicado à Jussara Xavier, que comenta livros com muito mais graça e sensibilidade no blog Palavras Vagabundas. Um beijo, prima!)

3 Responses to “Em que creem os que não creem?”


  1. 1 Jussara 17/09/2012 às 5:28 pm

    Dani, nem sempre passo por aqui toda semana…até porque gosto de vir aqui com calma! Gostei da resenha e não li o livro, apesar de já ter lido muitas referências. Vou catá-lo por aí.
    Aproveitando, como o mundo tecnológico muda tão rapidamente! Até hoje me lembro de quando vi um vídeo-wall a primeira vez, maravilha define, rs
    Achei os passeios do Marcelo em Lima tão Varga Llosa!
    bjs

  2. 3 Flávia 14/12/2014 às 12:13 pm

    Obrigada pela resenha do livro.
    Estou interessada em adquiri-lo e em pesquisas na net sobre a qualidade dele encontrei seu blog, que foi de grande ajuda para minha escolha em compra-lo.
    Abraços


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