Sexo explícito? No, thanks!

O título deste post vai enganar muita gente, mas é uma síntese – quase um verbete – do conteúdo.

Em 1990 – faz tempo, garotos! – brincávamos de fazer vídeo, música e militância política por esse Brasil afora. A banda mineira Sexo Explícito já tinha um disco gravado, mas tentava ganhar espaço em São Paulo. O produtor Almir Almas descolou a gravação de um clipe no Anhembi, onde eu editava uns vídeos. Estávamos no governo de Luiza Erundina, que montou um caminhão equipado com videowall (novidade na época) para fazer uma TV de rua que dialogasse com o povo da periferia, das favelas, dos calçadões, furando o bloqueio da grande mídia. Não muito diferente de agora, com o agravante de que não havia internet…

O projeto era tocado por alguns malucos geniais, como o Freitas e o Cachoeira (os nomes estão lá nos créditos). Num dia de folga, pegamos o caminhão e gravamos o clipe, no estacionamento coberto do Anhembi. As palavras da canção (No, thanks!) me inspiraram um trocadilho visual com um evento que marcou nossa geração: o massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989. Um momento muito simbólico, que gerou uma das imagens mais marcantes do século XX, a de um homem (anônimo) que parou uma coluna de tanques apenas com uma bandeira nas mãos. No, tanks!

Os integrantes do Sexo Explícito não haviam pensado nessa acepção, mas gostaram. Houve até quem sugerisse colocar a imagem de uma mulher lavando roupa no tanque, mas iria aumentar a confusão. Ficamos apenas com a mensagem anti-belicista. As mulheres tem mais e melhores armas que um vídeo de uma banda chamada Sexo Explícito…

O videowall  era a menina dos olhos do engenheiro Carlos Freitas. Ele queria muito um clipe que explorasse as possibilidades da traquitana, que criasse uma linguagem própria. Os efeitos de ilha de edição são mínimos. Na maior parte do tempo o videowall foi filmado direto, com os monitores executando séries pré-programadas de animação. Tudo isso em S-VHS! Duas décadas depois, parece primitivo…

O produtor Almir Almas hoje é professor da ECA/USP. A banda se dissolveu pouco tempo depois, o vocalista virou Hare Krishna e foi para a Inglaterra. O ótimo guitarrista é mais conhecido hoje como o John, do Pato Fu. O engenheiro Freitas foi para a MTV, de onde já saiu faz tempo. Cachoeira é dono de uma produtora de eventos. O diretor Maciel virou publicitário em Sorocaba. Muita gente que trabalhou na produção está por aí, no mercado, e eu parei de editar vídeos no início deste século, nem sequer entrei na fase digital. Mas, ao rever estas imagens recuperadas pelo mestre Almir, deu até saudades… Ganhava-se pouco, mas era divertido!

13 Responses to “Sexo explícito? No, thanks!”


  1. 1 Pandora 12/09/2012 às 3:24 pm

    Na universidade a história do Brasil acaba por volta de 1970 então a gente sai de lá e pouco aprende sobre o século XX e seus sujeitos… Talvez por isso ache muito massa ler esse tipo de post, só assim aprendo um pouco sobre o século que mal acabou!

    • 2 Daniel Brazil 14/09/2012 às 10:16 am

      Obrigado pelo comentário gentil, Pandora! A história recente é sempre difícil de ser resumida. O que lemos nos livros é a história consolidada, sedimentada.

  2. 3 Almir Almas 12/09/2012 às 6:29 pm

    vc, como sempre, meu amigo Daniel Brazil, matando a pau e mostrando a cobra. eita, isso aqui não é sexo explícito!

  3. 4 Flor 12/09/2012 às 7:33 pm

    sensacional!

  4. 6 Katia Cruz 13/09/2012 às 1:42 am

    dá-lhe Jack Daniels!
    inda vou recuperar uma certa “vinheta do bagre”…🙂

  5. 8 Carlos Freitas 14/09/2012 às 4:00 am

    Gostei do “engenheiro” Carlos Freitas, tenho usado “consultor” por pura falta de diploma. Boas reflexões também, valeu, foi bom enquanto durou.
    Freitas🙂

    • 9 Daniel Brazil 14/09/2012 às 10:15 am

      Ha ha, para nós você sempre foi “o engenheiro”. Aliás, parabéns! Olha aí, moçada, hoje é o aniversário do Freitas!

    • 10 almir almas 14/09/2012 às 11:23 am

      Freitas, diploma? que isso? rsrsrsrs, vc é o nosso engenheiro, meu caro. e o cara que bolou essa traquitana com a qual a gente brincava de tecnologia avançada de TV.

  6. 11 rubs troll 12/01/2016 às 5:56 pm

    que mané Hare Krisna,que nada…

  7. 13 rogerdaros 12/01/2016 às 8:24 pm

    Daniel, que massa rever aqui o clipe! Na época, o caminhão do vídeo wall era algo revolucionário.Aquele paredão de muitos monitores era impactante. Levava as produções em video por vários pontos da cidade , sob o talento de muitas profissionais que, como nos, da banda, na epoca, tinham o maior tesão pra criar e tirava água de pedra na maior alegria. Os Coletivos existiam, mas não levavam esse nome. Bandas como a nossa, nadavam contra a corrente tentando ser sustentaveis com musica autoral na cidade, em um periodo em que o pop, o rock , o experimental nacional afundava pra dar passagem pra uma música baiana bem duvidosa. Mas o importante na epoca era fazer a coisa acontecer. E hoje rever essas “produções alternativas” me faz lembrar das soluções divertidíssimas que surgiam durante a elaboração do lance.
    Obrigado a todos que participaram com alegria daquele momento. E o resultado ta aí!


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