A cebola de Neruda

Hoje, ao preparar o almoço de domingo, picando cebolas, me aflorou à memória um verso de tempos idos. “Redonda rosa de água, com escamas de cristal”.

Caramba, quando ouvi isso pela primeira vez? Talvez nunca tenha ouvido, apenas lido. E as cebolas não me trouxeram lágrimas aos olhos, mas nuvens marejadas de lembranças. Um verão na praia, no século passado? Nada menos proustiano que uma cebola, mas a “redonda rosa” me fez passar o resto do domingo pensando no poema original. E agora, fim de noite, quando as máquinas e os homens silenciam, conferi. O verso é outro, ou melhor, misturei dois versos. Não importa. A essência está aqui, nas palavras de Don Pablo:

ODE À CEBOLA – Pablo Neruda

Cebola
Luminosa redoma
pétala a pétala
cresceu a tua formosura
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra escura
se foi arredondando o teu ventre de orvalho.
Sob a terra
foi o milagre
e quando apareceu
o teu rude caule verde
e nasceram as tuas folhas como espadas na horta,
a terra acumulou o seu poderio
mostrando a tua nua transparência,
e como em Afrodite o mar remoto
duplicou a magnólia

levantando os seus seios,
a terra
assim te fez
cebola
clara como um planeta
a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa de água,
sobre
a mesa
das gentes pobres.

Generosa
desfazes
o teu globo de frescura
na consumação
fervente da frigideira
e os estilhaços de cristal
no calor inflamado do azeite
transformam-se em frisadas plumas de ouro.

Também recordarei como fecunda
a tua influência, o amor, na salada
e parece que o céu contribui
dando-te fina forma de granizo
a celebrar a tua claridade picada
sobre os hemisférios de um tomate.
mas ao alcance
das mãos do povo
regada com azeite.

6 Responses to “A cebola de Neruda”


  1. 3 dalila teles veras 24/09/2012 às 1:13 pm

    Poesia tem dessas coisas proustianas, resíduos da memória que vez por outra, cintilam. O seu verso (um micro poema), acredite, ficou bem melhor que o de Neruda (excessivo). Bom, sempre, passar por aqui e valer-me das iluminações deste Fósforo.
    dalila

    • 4 Daniel Brazil 24/09/2012 às 2:03 pm

      Tem razão, Dalila. Neruda às vezes abusa das imagens e perde a concisão, como nesse caso. O final populista “regado com azeite” é decididamente fraco. Mas há diamantes faiscando no meio do cascalho poético, com sempre. De modo torto, uma dessas fagulhas se cravou na minha memória…

  2. 5 Felipe 06/10/2012 às 9:31 pm

    Devia me agradecer por postar aqui, esse blog nunca teve tantos comentários!

  3. 6 Daniel Brazil 08/10/2012 às 8:47 pm

    Mais uma vez você demonstra ser desinformado. Tem post aí pra trás com mais de cem comentários. E olha que não estou atrás de audiência, pode ter certeza!


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