Prêmio São Paulo de Literatura 2012

Gosto de ler e escrever, não nego. A literatura é um de meus maiores prazeres, e certamente não seria quem sou sem as muitas horas que passei envolvido com livros, desde a infância.

Mas nunca tive interesse pelo lado mundano da literatura: festas literárias, cerimônias de premiação, noites de autógrafos. Às vezes apareço em alguma só porque o escritor é amigo, e gentil o suficiente para me enviar um convite.

Morei durante certo tempo ao lado de um dos templos alternativos da literatura moderninha de São Paulo: A Mercearia. No mesmo quarteirão, não precisava nem mudar de calçada. Mesmo assim, sempre evitei as noites apinhadas de escritores, pseudoescritores, candidatos a escritores e, claro, tietes.

Ontem ganhei um convite para o Prêmio São Paulo de Literatura. Evento chique, no belo Museu da Língua Portuguesa. Afinal, é o maior prêmio do gênero: 200 mil para melhor autor de romance publicado no ano passado, e 200 mil para autor estreante.

Li o neófito laureado de 2010, e não gostei muito. Está mais para literatura de entretenimento, se salva pelo final emotivo (Se Eu Fechar Os Olhos Agora, Edney Silvestre). O veterano de 2011 é mais bem escrito, maduro, um pequeno desafio literário (Passageiro do Fim do Dia, Rubens Figueiredo). Animado pelo último resultado, encarei o programa noturno de segunda-feira.

Acabei dando uma carona para a Mayra Pinto, autora do ótimo Noel Rosa: O Humor Na Canção, que já comentei aqui. Não, ela não concorria, o prêmio é só para ficção. Conferindo os concorrentes, vi que havia lido três obras estreantes e uma já publicada. É insuficiente para fazer uma avaliação justa da premiação.

A sala estava cheia, e aguentamos estoicamente os discursos oficiais e um deslocado grupo de contadores de histórias, que seria mais adequado a um público infanto-juvenil. A quantidade de cabeças brancas e cabelos pintados na sala sugeria outro tipo de “programação cultural”.

O coquetel, na sequência, mostrou um cenário curioso. Pequenos grupos de engravatados, alguns candidatos cercados pela sua comitiva pessoal, bufê mal dimensionado, pouco espaço para locomoção. Ficamos batendo papo com o Chico Lopes, estreante cheio de maturidade e humor, com o qual trocamos pequenas maldades sobre eventos oficiais, literários ou não.

De longe, vi o Bernardo Kucinski meio isolado, um peixe fora do ribeirão. Fui conversar com ele, declarei o quanto havia gostado de K, e ele me surpreendeu dizendo que havia lido TODOS os vinte concorrentes. “Nada como ter tempo na vida”, pensei, com certa inveja.

– E então, qual me recomenda?

– Há muitos temas repetitivos, sagas familiares, questões existenciais mal resolvidas. Senti falta de algo realmente original, mas gostei de Atado de Ervas.

Se existe uma obra realmente original entre os concorrentes, certamente é o próprio K, é inegável. Isso não me impede de recomendar com prazer a leitura de Fita Azul, do Edmar Monteiro Filho, e O Estranho no Corredor, de Chico Lopes. Já Dois Rios, de Tatiana Levy, achei fraco. Dizem que o primeiro romance dela é melhor, fica anotado: A Chave de Casa, prêmio de estreante em 2008.

Não encontrei o Edmar, mas ele estava dignamente representado por Ronaldo Cagiano, a quem fui apresentado. Conversamos sobre amigos virtuais comuns, como o contista Jádson Barros Neves, lá de Tocantins. Rimos, bebericamos e nos despedimos, sem ter uma avaliação precisa do valor literário dos premiados.

Bartolomeu Campos de Queirós, falecido no começo do ano, levou o prêmio principal. Para alguns soou como homenagem póstuma ao educador e ativista cultural mineiro. Suzana Montoro foi a estreante laureada, também pouco conhecida pelo que pude notar. Não faltaram insinuações de tucanismo sussurradas em torno, por causa do sobrenome.

Enfim, continuo não gostando desse tipo de evento. Prêmios são bons, estimulam novos valores, e quando são justos reconhecem o talento. O problema é o coquetel de vaidades que envolve tudo isso…

Concorrentes de 2012:

Melhor Livro do Ano
Adriana Lunardi – A vendedora de fósforos – (Rocco)
Bartolomeu Campos de Queirós – Vermelho Amargo (Cosac Naify)
Domingos Pellegrini – Herança de Maria (Leya)
Hélio Pólvora – Don Solidon (Casarão do Verbo)
Luiz Ruffato – Domingos sem Deus (Record)
Luiz Vilela – Perdição (Record)
Michel Laub – Diário da Queda (Cia. das Letras)
Paulo Scott – Habitante Irreal (Alfaguara)
Silvio Lancellotti – Em nome do Pai dos Burros- (Global)
Tatiana Salem Levy – Dois rios (Record)

Melhor Livro do Ano – Autor Estreante
Ana Mariano – Atado de Ervas (L&PM)
Bernardo Kucinski – K (Expressão Popular)
Chico Lopes – O Estranho no Corredor (Editora 34)
Edmar Monteiro Filho – Fita azul (Babel)
Eliane Brum – Uma duas – (Leya)
Júlian Fuks – Procura no romance (Record)
Luciana Hidalgo – O Passeador (Rocco)
Marcos Bagno – As memórias de Eugênia (Editora Positivo)
Susana Fuentes – Luzia (7 Letras)
Suzana Montoro – Os Hungareses (Ofício da Palavra)

3 Responses to “Prêmio São Paulo de Literatura 2012”


  1. 1 Felipe 06/10/2012 às 9:29 pm

    Não vai responder meus comentários?
    Acho que está tentando me evitar.

  2. 2 Daniel Brazil 08/10/2012 às 8:46 pm

    Sem dúvida quero te evitar. Não tenho interesse em conversar com quem defende algo moralmente indefensável.

  3. 3 Carlos 28/02/2013 às 2:07 am

    A leitura faz muito bem mesmo para a alma das pessoas, sobretudo quando essa obra é constituída por tradições e lendas de diversos continentes que acabam transformando-se em ensinamentos de vida para as pessoas.
    Por exemplo, quando o grande místico Hassan estava morrendo, um dos discípulos perguntou:
    — Mestre, quem foi o teu mestre?
    — Eu tive centenas de mestres – foi a resposta. — Se tivesse que dizer o nome de todos eles, levaria meses, talvez anos, e mesmo assim ainda terminaria esquecendo alguns.

    — Entretanto, não houve algum que marcou mais que os outros?

    Hassan pensou por um minuto e disse:
    —- Na verdade, existiram três pessoas que me ensinaram coisas muito importantes.
    Quem foram aqueles mestres que passaram os ensinamentos de vida para Hassan? Pois é esses ensinamentos estão nas Histórias para pais, filhos e netos, uma dica da somlivros.weebly.com
    Abraços


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