Campo de distorção da realidade

A biografia de Steve Jobs, escrita por Walter Isaacson, é o retrato de um ególatra arrogante e ambicioso que conseguia influenciar todos à sua volta. Os amigos entrevistados diziam que ele tinha uma aura, um “campo de distorção da realidade”, que atraía, magnetizava e fazia com que todos acreditassem piamente nos seus delírios e mentiras.

Obviamente Jobs foi brilhante em alguns aspectos, e por isso é idolatrado por milhões de nerds em todo o planeta. Mas não pretendo falar da vida do criador da Apple, e sim do tal “campo de distorção da realidade”.

Parece-me que José Serra tem um poder parecido. Com uma trajetória política tortuosa, egresso da esquerda estudantil dos anos 60 até abraçar o conservadorismo mais reacionário e obscurantista nos dias atuais, o homem que nunca cumpriu um mandato até o fim (isso não é incrível?) parece obscurecer a visão de gente que, normalmente (fora do tal campo), enxergaria com clareza.

Lula também possui um campo próprio de distorção da realidade, mas é bem menor. Poucos petistas o consideram santo, e cada vez mais adquire o status de raposa política, principalmente depois de raposices como a de tirar foto sorridente com Maluf. O povão ainda o idolatra, com bons motivos. José Serra é idolatrado por gente que faz qualquer coisa para não parecer “povão”, mas assume posturas semelhantes.

Muito menos carismático, Serra perdeu totalmente o pudor ao beijar pastores homofóbicos na última semana. E os progressistas, jornalistas, comentaristas políticos et caterva, que condenariam qualquer outro se fizesse isso, silenciam. Ou pior, acham “normal”! É o tal campo de distorção da realidade funcionando, levando até pessoas bem intencionadas para o suicídio político.

A história da bolinha de papel, em 2010, foi sintomática. Vi gente séria defendendo aquela farsa, e realmente acreditando que o homem tinha sido torpedeado por um míssil. O ex-ministro da Saúde (que no Youtube é visto dizendo que a gripe suína é causada pelo espirro dos porquinhos…) fez uma tomografia por causa de uma bolinha de papel. Belo exemplo para o SUS! Ainda bem que ninguém acreditou, senão o Estado quebraria. Aliás, corrijo: os que acreditaram (sob influência do tal “campo”, provavelmente), não precisam de SUS…

Ferreira Gullar causou espanto, em 2010, ao escrever em sua coluna jornalística que considerava Serra uma “figura impoluta”. Estaria gagá? Cego? Comprado? Não, infelizmente é o tal campo de força em ação. Uma rápida folheada no livro A Privataria Tucana, recheado de documentos registrados em cartório provando desvios e maracutaias do nobre ex-quase tudo da República faria o poeta maranhense cair na real.

E boa parte da imprensa caiu no campo de abdução da consciência provocado pelo renitente filho da Mooca. Destino trágico, shakespeariano: o ex-presidente da UNE, jovem idealista de esquerda, se alia ao que de pior existe na sociedade brasileira para atingir o poder. Destino fáustico, que poderia até ser visto com ironia e complacência pela elite intelectual desse país.

O fato de muitos destes apoiarem os desvarios de Serra é a maior prova da existência do campo de distorção da realidade.

* * *

2 Responses to “Campo de distorção da realidade”


  1. 2 Medina 24/10/2012 às 2:19 pm

    Daniel, quem tira 28 milhoes da miséria pode quase tudo.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s





%d blogueiros gostam disto: