Quando o Samba Não Dá Samba

Minha dúzia de leitores fiéis deve saber que escrevo sobre música com certa frequência. São mais de 200 artigos publicados na Revista Música Brasileira nos últimos anos. Como não é um trabalho remunerado, me divirto comentando os discos que me agradaram, os artistas que me interessam, os shows que me emocionam. Não costumo perder tempo falando de um disco do qual não gostei.

Eventualmente, falo de um filme, de um programa de TV, de um livro. Desde que guarde relação com o tema da RMB, claro. E por isso encarei o romance Desde Que o Samba é Samba, do Paulo Lins.

O cara é o autor do aclamado Cidade de Deus. Não li, mas o impacto midiático da obra fala por si. O filme baseado no romance amplificou – para o bem e para o mal – a originalidade de um relato sobre uma periferia até então escondida do grande público, que ligava violência ao morro de forma automática. Cidade de Deus não é o morro, é pior. Dali não se avista o mar…

                Paulo Lins demorou quinze anos para escrever outro romance. Partiu para a pesquisa histórica, e resolveu falar sobre a década de 1920, quando surgiu a primeira escola de samba. Boa ideia, sem dúvida. Infelizmente, mal realizada. Além de confundir a história, faz uma mistura mal ajambrada de sexo, vadiagem e proselitismo religioso de terreiro. Algo como um Jorge Amado deslocado e desafinado.

                O cara inventa uns maneirismos sem sentido. Durante todo o romance, fala de Alfredo, João e Barbosa, superados representantes da velha guarda, cultores do maxixe e do choro. Os inventores do novo samba são Silva, Alves, Miranda, Bide e Lacerda, entre outros, que acabam criando a primeira escola de samba, a Deixa Falar. O culto Manuel leva Mário para conhecer a invenção.

                Reconheceu algum nome? A brincadeirinha besta – que não é explicada em nenhum momento – é que os “velhos” são Pixinguinha, João da Baiana e Sinhô. Que, aliás, não eram exatamente velhos na década de 20… Os “revolucionários” são Ismael (o tal Silva, que não tem o prenome citado uma única vez), Francisco Alves, Carmen Miranda, Benedito Lacerda… Bide é o único reconhecível pelo apelido.

                Faça-me o favor! Em que época, em que tempo, em que situação, alguém se referiu a Carmen como “Miranda”? E o Rei da Voz era “Alves” aonde? Soa falso, artificial. Manuel era mais conhecido como Bandeira que como Manuel, certamente. Mário é o de Andrade, mas Lins (ha ha ha, me vinguei!)  não declina em nenhum momento o sobrenome. Mas lá pelas tantas, quando surge em cena Prudente de Moraes Neto, o nome completo é pomposamente anunciado, mais de uma vez. Por que não só “Prudente”, para manter a coerência?

                Para piorar, Noel Rosa é citado apenas uma vez, de passagem. Como se ele não fosse um dos responsáveis pela reinvenção do samba naquela década! E não me venham falar que um romance é obra de ficção sem compromisso com a realidade, porque o cara coloca até ficha bibliográfica no final do livro, como se isso avalizasse o resultado. “Veja como eu pesquisei!”

                Enfim, detestei. E não só por isso, mas pela trama frouxa, mal costurada, chula em vários momentos. E essa história de proselitismo religioso quase me fez abandonar o livro nas primeiras 30 páginas. Ando injuriado com isso, até escrevi uma provocação na Revista Música Brasileira, espie!

Não é fácil falar mal de um romance brasileiro. Mas falar bem, nesse caso, seria pior.

3 Responses to “Quando o Samba Não Dá Samba”


  1. 1 Pandora 21/11/2012 às 12:27 am

    Tem um amigo meu que diz que meu pior pecadilho é ter um fraco por livro tipo Crepúsculo, mas eu acho que meu maior fraco é não conhecer satisfatoriamente a história da música brasileira. É lasca!!! E sim, se quem nada sabe sobre o tema se depara com um livro que explica mal a brincadeira e ainda tem referencia bibliográfica a coisa fica pior! #EuAcho

  2. 3 Jussara 29/11/2012 às 8:58 pm

    Dan,
    eu em geral não posto sobre livros que não gostei, mas quando fico indignada, lasco a boca, risos
    Esse não lerei!


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