Arquivo de dezembro \17\UTC 2012

Uma homenagem a Dave Brubeck

Dave Brubeck (1920/2012)  foi um dos mais geniais inventores de ritmos e melodias da história do jazz. A notícia de sua morte, no dia 5 de dezembro, foi obscurecida, pelo menos aqui no Brasil, pela partida de Oscar Niemeyer no mesmo dia. Ambos construíram invenções do espírito, arquitetaram partituras, inscreveram música concreta na vida das pessoas.

Como ando numa fase meio passarinheira, lembrei desse filme, que serve como homenagem ao grande músico americano. Embora todos saibam que o tema é, na verdade, do seu grande parceiro,  o saxofonista Paul Desmond, o piano minimalista, o compasso 5/4, a beleza cristalina do arranjo levam a marca indelével do grande DB. E combinam com o seu humor, claro!

A vitória do polvo

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Reconheço, um tanto decepcionado comigo mesmo, que tenho publicado pouco aqui no Fósforo. Continuo escrevendo diariamente, pois esse é o meu ganha-pão, mas anda faltando inspiração para criar minhas croniquinhas eventuais. A Revista Música Brasileira, com a qual colaboro, também tem notado essa maré baixa…

E não é falta de assunto, pois os dias tem estado agitados. Eleições ali e ali, guerras iminentes, filmes memoráveis, livros provocantes, massacres lamentáveis, previsões maias inquietantes… Até culinária, assunto que pouco explorei por aqui, tem me rendido algumas alegrias e poucos textos.

Domingo passado fiz o melhor polvo ao forno de minha vida, elogiado pelos comensais. Rendeu tanto que virou cuscuz de polvo no dia seguinte, pelas mãos habilidosas da Carmen. Ouvimos muito a frase “o melhor cuscuz de polvo que já comi na vida”, embora desconfie de que ninguém ali havia provado antes tal iguaria. Eu também não, mas estava ótimo!

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Neste domingo em que escrevo, uma nação alvinegra espanta/encanta o mundo do esporte. Mais pela festa que pelo futebol, mas devo admitir que o técnico Tite tem algo de gênio. Um time com dois ou três craques, um monte de jogadores medianos e outros francamente ruins, chegar onde chegou, só pode ser mérito do treinador. Uma coisa é ser campeão com o Barcelona (modestamente, até eu!), outra com o Corinthians!

Discordo daqueles que dizem que a torcida fez a diferença. Passei a adolescência em São Paulo, convivendo com esta que é a maior e mais fanática torcida do estado, e mesmo assim a falta de campeonatos durou 21 anos. Ué, antes não fazia diferença, e agora faz?

Campeão

Enfim, foi divertido juntar um monte de amigos, convencer a Tita a abrir o Canto Madalena às 8 h de um domingo com café da manhã “de hotel”, torcer e vibrar feito um louco, ver a Vila Madalena fazer um carnaval alvinegro. Não se preocupavam com profecias maias, mas festejavam um guerreiro inca. A avenida Paulista então, teve até trio elétrico! Festa de todos os credos, partidos, raças ou classes sociais, coisa bonita de se ver. Só não é festa de todos os times, paciência.

 Enfim, deixei os temas do meio da semana de lado, e termino como iniciei: festejando o polvo e o povo. (Como você vê, a inspiração para trocadilhos também anda bem fraquinha…).

Fotografando pássaros, parte 2

Suiriri

A pedidos, coloco mais algumas aves aqui no Fósforo. São pássaros comuns, urbanos, sem nenhum lance aventureiro por trás das imagens. Apenas passeios pela USP em fins de tarde. Este aí de cima é um suiriri, o parente mais popular do popular bem-te-vi. O nome é onomatopaico, como o do primo famoso.

Bem-te-vi

Ainda não fiz uma foto legal do bem-te-vi. Foi legal pegar ele cantando, mas minha meta é pegar ele excitado (sexualmente falando). Um topetinho amarelo se ergue no alto do crânio (píleo), parece um moicano!

Quero Quero 1

O quero-quero talvez seja a ave mais conhecida da USP. Está sempre nos gramados, em campos de futebol, em aeroportos, qualquer área aberta. São sempre vistos na Praça do Relógio.  Este foi na única manhã de sábado que encarei em novembro, sob um sol escaldante.

Quero-queros

Semana passada registrei esse momento-família, também na Praça do Relógio, porém quase sem luz, finzinho de tarde, nos fundos da ECA. Havia três filhotes, e o pai me ameaçou seriamente: “Se der um passo a mais…”. Recuei, claro.

Urubu

Rá rá, pensou que ia ver só belezinhas? Tá aqui o cara mais  mal falado – injustamente – da cultura brasileira. Animal utilíssimo, a tal ponto que se não existisse a disseminação de doenças contagiosas seria multiplicada. Este não pousa na Praça do Relógio em horário de movimento, mas aparece no Morro da Coruja, lá pros lados da Física. Fiz algumas fotos, todas óbvias, e estava quase desistindo quando este urubu caminhou em minha direção. Tive de me beliscar pra ter certeza de que não estava morto…Pombão (asa-branca)

E pra terminar, em homenagem ao centenário do mestre Luiz Gonzaga, um retrato da famosa asa-branca. É uma ave migratória, só aparece aqui no verão. Quando esfria volta para o Nordeste, porque não é besta que nem a gente… Aqui elas (são quatro na foto) estão compartilhando a quirera com rolinhas, na Física. Ficou na dúvida? Então vai uma solo! É a maior pomba silvestre brasileira, também conhecida como pombão.

Pombão (asa-branca)

O livro Aves no Campus (Edusp, 2002) registra 163 aves na USP. Ainda não cheguei a 20… Nomes óbvios como sabiá-laranjeira, pardal, canário-da-terra, coleirinho, cambacica, chupim (vira-bosta), rolinha e vários beija-flores passaram pela minha frente, mas não renderam boas imagens. Incompetência pura!

Fotografando pássaros

Periquito-rico

Há algumas semanas realizei um sonho de muito tempo: ter uma máquina fotográfica boa, não uma simples compacta. Um conhecido me vendeu uma com pouquíssimo uso, sem nem um risquinho, por metade do preço de nova. Aproveitei e arrematei uma tele de 300 mm.  Pronto, estou preparado para fotos maravilhosas nas próximas férias!

João-de-barro

Quero dizer, acho. A primeira reação foi de alegria. A segunda de medo. O manual da bicha tem mais de 230 páginas, em inglês. E lá fui eu tentar decifrar os mistérios da abertura versus velocidade versus profundidade de campo. Lembro de que estudei isso na faculdade, mas faz tanto tempo!

Cardeal-do-nordeste

Foto de paisagem é fácil. Gente também costuma colaborar. Pensei em algo mais difícil: pássaros. Sempre tive certa queda por biologia, contemplação da natureza, andar no mato, essas coisas. E os emplumados são ariscos, não param quietos, é um bom desafio para qualquer fotógrafo.

Sabiá-do-campo jovem

As primeiras tentativas foram horríveis, confesso. Passei o feriadão de novembro em Ilhabela e fiz trocentas fotos, das quais se aproveitam meia dúzia. Bendita era digital! Se fosse no tempo do filme, eu estaria falido.

Carrapateiro

De volta a São Paulo, aproveitei algumas caminhadas na USP para fotografar os tais seres alados. Um ou outro deu sopa, mas a maioria riu da minha cara. De longe. Os pequeninos são impossíveis! Vejo fotos por aí, mas acho que os autores têm de utilizar outros talentos, como hipnose, invisibilidade, onipresença ou magnetismo pessoal.

sabiá-do-campo

Fiquei sabendo que os fotógrafos premiados usam playback. Entram no mato com gravações de cantos e tocam até os carinhas aparecerem, curiosos ou indignados. Não cheguei a esses requintes ainda, acho meio esquisito. Creio que me sentiria enganando os bichinhos: “Tangará, sou uma fêmea no cio, apareça!”. Mais pra frente talvez eu perca os escrúpulos.

Pomba-de-bando

Enfim, é uma boa distração, mesmo numa metrópole como São Paulo. Durante as caminhadas penso em diversas coisas, resolvo problemas, crio histórias mirabolantes. Divido aqui com vocês algumas amostras deste primeiro mês de aprendizado!

Coruja-buraqueira

(Todas as fotos foram feitas no campus da USP, em novembro de 2012).

Um brinde a Décio Pignatari

decio coca
 
 

E lá se foi Décio Pignatari (1927/2012). Um dos pilares do Concretismo, poeta-tradutor-ensaísta-provocador-professor de muita gente. Deixou uma obra cheia de lances geniais, outros nem tanto. Não li sua experiência de ficção mais ambiciosa, confesso (o romance Panteros). Na sua ficção, me interessa a poesia. Na sua poesia, me interessa a ficção.

Lembro uma aula-palestra que tive com ele na ECA (Décio era professor da FAU-USP) em que magnetizou a classe com uma exibição admirável de inteligência e cultura. Elogiou Lenin (estávamos em 1980, estertores da ditadura militar), falou de Leminski, de Maiakovski, de Lima Barreto, de Oswald. Falou mal de Mário de Andrade – “O homem-que-falava-javanês do Modernismo brasileiro” – e fiquei um pouco implicado com isso, mas entendi o contexto.

Décio sempre quis estar na linha de frente das revoluções estéticas, sempre pronto para “épater la bourgeoisie”. Às vezes conseguiu. Ligado em música, detectou a urgência dos tropicalistas e defendeu todas as vanguardas. Algumas se demonstraram vãs guardas, mas isso não vem ao caso. Era mestre em design e linguagens visuais.

Por acaso, conheci Décio em relatos de minha mãe. Estudaram juntos no ginásio – primeiro grau – no velho Caetano de Campos, na Praça da República, em São Paulo. Ela me contou que ele vinha de bonde de Pinheiros (morava em Osasco), e tinha o apelido de Cyrano de Bergerac entre as meninas.

Retrato de uma época (anos 40): o ensino na rede pública era o máximo. Os apelidos exigiam certa cultura para serem entendidos (o personagem Cyrano era narigudo e poeta). Imagine se alguém der este apelido a um adolescente de 15 anos hoje, na rede pública ou privada! É capaz de nem o professor de literatura entender. Aliás, não existe mais “professor de literatura”…

O que ficou para sempre marcado no relato singelo de minha mãe não foi o nariz. Foi o fato de que o jovem Décio já conseguia se identificar como poeta. Não é qualquer um que consegue esse reconhecimento na adolescência e mantém pela vida inteira. Salve, Décio, hoje o brinde é para você! (Com cerveja, não com babe-cola).