Pi e a arte da fabulação

Fabulação é a arte de contar coisas fantasiosas de modo que pareçam verdade. Na literatura as fábulas se caracterizam, desde seu surgimento, por encerrar um julgamento ou ensinamento moral.

                Talvez sejamos a última geração a tomar contato com a literatura por meio de fábulas. A exposição das crianças do século XXI ao bombardeio midiático, noticioso e publicitário, abre outras portas, despidas de fantasia e imaginação. Já é comum, infelizmente, não encontrar livros nas casas de muitas crianças, mas tablets, computadores e televisores. Nas famílias mais pobres, só os últimos.

                A próxima geração perderá a capacidade de fabulação? Só o tempo dirá. Mas percebo que adolescentes com quem converso já começaram a perder. Não se fala de livros (Harry Potter é uma estrondosa exceção. Conheço universitários que só leram este livro, além das obrigatórias leituras escolares). Não se fala de histórias em quadrinhos, de seriados de fantasia, de Julio Verne, da coleção Jovens de Todo o Mundo, de Monteiro Lobato…

                Foi através de Dona Benta e suas fábulas que aprendi o primeiro provérbio italiano de minha vida: si non é vero, é bene trovato. Por uma analogia fonética meio infantil (devia ter uns dez anos), achei que significava “Se não é verdade, é bem provável”. Algum tempo depois, já no colégio, aprendi a tradução correta: “Se não é verdade, é bem contado”.

                O ditado de Dona Benta me voltou à cabeça por definir com precisão o filme que inaugurou meu ano cinematográfico. Assisti ontem o belo As Aventuras de Pi, do cineasta sino-americano (nascido em Taiwan) Ang Lee. O cara é um craque, já demonstrou seu domínio sobre várias formas narrativas (realismo, naturalismo, fantasia). Mas aqui ele me fez sentir novamente como um menino deslumbrado lendo um fantástico livro de aventuras.

                Baseado num romance do canadense Yann Martel, que confessou ter se inspirado no livro Max e os Felinos, do brasileiro Moacyr Scliar, o filme traduz com poesia e competência uma história considerada infilmável. O uso do 3D é primoroso, não se atendo a efeitos espetaculares, mas muitas vezes sublinhando pequenos detalhes com sutileza e inteligência.

                A questão da fé é central na trama. O jovem Pi tem propensão a acreditar em todas as religiões. É hinduísta, muçulmano e cristão. Confessa sua admiração por um “budista feliz” e revela ligações com o judaísmo. O pai racionalista lhe diz que acreditar em tudo é o mesmo que acreditar em nada. Ele tem razão, mas o próprio fato do personagem Piscine ter adotado o nome de Pi, um número irracional, tem forte simbolismo. Ang Lee acredita numa boa história, e se Deus é uma boa história, por que não acreditar?

                A direção harmoniosa de todo o conjunto (história, atores e efeitos) é sensacional. Dizem os especialistas que a coisa mais difícil em cinema é dirigir criança, bicho e mar, pelo fato de serem meio imprevisíveis. Ang Lee respirou fundo, tomou fôlego e juntou os três de forma magnífica. Embora várias fontes apontem que o tigre Richard Parker seja um prodígio de computação, é inegável que foi baseado em animais reais.

                Mas a técnica é o que menos me interessa, desde que seja perfeita e invisível. A história é apaixonante, o prólogo é muito bom e o desenvolvimento é magistral. A engenhosa narrativa em dois tempos, rememorada por um excelente ator, já entrega de cara que o personagem sobreviveu. Mas… qual é a história real?

                No final, ele conta uma segunda versão, desmontando a primeira. Mais crua, mais realista, mais verossímil. A que entraria no noticiário de jornal da TV. A única a qual muitos jovens desprovidos de leitura teriam acesso. Que crime tantos pais praticam contra esta geração…

6 Responses to “Pi e a arte da fabulação”


  1. 1 Pandora 12/01/2013 às 2:56 pm

    Putz, antes dessa resenha, esse filme realmente não me chamou a atenção, o que prova que eu realmente não sei escolher o que vê no cinema sem a ajuda de uma pesquisa básica…

    A parte isso estou maravilhada com a ideia desse filme, preciso ver o mais rápido possível e fazia muito, mas muito tempo que eu não me identificava tanto com a descrição de um personagem como me identifiquei com a sua descrição de Pi rsrs… Exceto talvez pelo fato de há muito tempo eu ter escolhido ser cristão, o que realmente não me impede de amar outras crenças e investiga-las pelo simples prazer do descobrimento.

    • 2 Daniel Brazil 14/01/2013 às 12:43 pm

      Vale a pena assistir, Pandora! Mas, fala sério: você escolheu ou outros escolheram por você?
      Penso que a liberdade de escolha deveria ser total. Os jovens teriam aulas básicas sobre todas as religiões, e ao chegar a uma idade X, escolheriam uma (ou não). Sei que é uma utopia, as igrejas não deixariam que isso se realizasse…

      • 3 Pandora 15/04/2013 às 7:58 pm

        Daniel, essa semana eu finalmente assisti As aventuras de Pi e lembrei muito da sua resenha… Realmente me identifiquei demais com Pi, apesar de ter escolhido apenas uma religião sou fascinada pelas outras… Fiquei ambicionando um quadrinho que ele ler no principio do filme sobre Krishna, acho a história do deus que tinha o universo dentro da “garganta” maravilhosa… Fiquei rindo sozinha no final do filme lembrando de sua resenha e pensando que a experiencia de viver é uma só, mas existem muitas formas de interpretar e contar/narrar a vida.

        Adorei Pi… foi uma experiencia e tanto….

  2. 4 José Artur Medina 06/02/2013 às 11:44 am

    Filme fantástico, só não cheguei à conclusão do significado daquela ilha dos Lêmures que tirava durante a noite o havia ofertado durante o dia.

    • 5 Pandora 15/04/2013 às 7:59 pm

      A proposito, também tive esse dificuldade interpretativa Artur… Entendi que a Ilha foi uma referencia a primeira vez que ele encontrou com a namorada que ele deixou na Índia, mas ainda não consigo compreender qual a função dela na fabula… #Lentinha

      • 6 Daniel Brazil 16/04/2013 às 12:34 pm

        Pois é, aquela ilha é a coisa mas inusitada do filme. Dramaticamente, ela aparece quando a narrativa já esgotava as possibilidades menino-barco-tigre-mar. É uma “novidade”. Mas podia ser uma sereia, um disco voador, um navio de piratas, qualquer coisa…


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