Arquivo para maio \26\UTC 2013

Uma semana literária luso-brasileira

joao-apolinario-livro

Na semana que antecedeu a Virada Cultural, em Sampa, estive em dois lançamentos literários com pequenas coincidências. Na quarta-feira, fui até a PUC comprar o livro de críticas teatrais do João Apolinário, um português de sólida formação humanista de esquerda, que escreveu muito sobre o teatro brasileiro nos anos 60 e 70. Morreu em 1988, e os filhos organizaram uma coletânea de seus artigos e críticas. Sou amigo de pelo menos dois deles. Foi bacana o encontro no Tuca, estavam lá figuras respeitáveis do teatro paulista. A leitura surpreende quem não conheceu o autor. Análises poderosas, que provocam a reflexão do leitor mesmo décadas depois de terem sido escritas.

No dia seguinte, fui até Santo André para um lançamento na Alpharrabio, da poeta Dalila Teles Veras. Grande amiga, grande poeta, com vários títulos publicados, grande agitadora cultural da região do ABC paulista. E portuguesa da ilha da Madeira, vejam só!

Valeram as duas horas de trânsito pra chegar lá. Primeiro, pelo ambiente fraterno. O sebo-livraria Alpharrabio é um dos lugares mais interessantes de São Paulo. Um porto de cultura no ABC, de onde você sempre sai com mais do que entrou. Reencontrei vários amigos, dos tempos em que trabalhei no ABC. Segundo, o novo livro de Dalila, Estranhas formas de vida (Alpharrabio/Dobra, 2013), é fascinante.

Todos os poemas trazem epígrafes de fados clássicos, e a partir deles Dalila constrói uma visão de mundo universal. Como bem apontou o poeta Tarso de Melo, enquanto os fados traduzem uma dor pessoal, intransferível, Dalila reparte os fados de seus personagens com uma visão social e política de um Brasil bem contemporâneo. Poemas que são quase crônicas, sem perder a voltagem poética. Estão lá o assaltante que aceita um trocado, a solidão do homem-placa, o vizinho que reclama do casal que faz amor ruidosamente, o pai que esquece o bebê dentro do carro, os catadores de lixo, a jovem que fala sozinha no metrô e tantos outros seres que fazem parte da paisagem urbana brasileira.

Mas poesia não se explica em prosa. Poesia é assim, ó:

“Se pudesse contar

Toda gente veria

Quanto sou desgraçada”

(Que Deus Me Perdoe, de Silva Tavares/Frederico Valério)

romecleide, a diarista

arrimo de família, marido

bêbado e desempregado

sete filhos, agora cinco

enlouqueceu pela primeira vez

quando perdeu duas filhas

no passeio à praia grande

(afogamento)

 

pelos vizinhos evangélicos

confortada, rendeu-se à fé

e aos ditames canônicos

 

romecleide, a neopastora

(a casa transformada em templo)

prega

a fé que lhe foi ensinada

 

prega e esquece

esquece e prega

pregada que está

na segunda loucura

Dalila autografa

(foto feita pela Maninha, retirado do blog do Alpharrabio) 

 

 

 

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Uma árvore, muitos pássaros

Árvore com pássaros

Na USP, uma árvore cheia de frutinhos vira um restaurante self-service para sanhaços, bem-te-vis, sabiás-laranjeira, sabiás-barranco e sabiás-do-campo, entre outros. Fiz estas fotos ontem, durante uma caminhada (que acabou virando uma longa parada, depois que vi a cena). Pra quem gosta do assunto, esta semana tem o Avistar Brasil 2013, lá no Parque Villa-Lobos. Coincidiu com a Virada Cultural, vai ser difícil acompanhar tudo…

Os grandes rios

Polêsine2

Nunca estive nas margens do Nilo, do Ganges, do Tâmisa, do Araguaia, do Yangtzé, do Mississipi, do Tejo, do Danúbio e mais alguns.

Já estive nas margens do Amazonas, do São Francisco, do Sena, do Tibre, do Tapajós, do Tocantins, do Rio Doce, do Rio da Prata e mais alguns.

Isso não me torna melhor ou pior. Os rios que passam por minha aldeia estão cada vez mais poluídos. E dentre as imagens mais belas que persistem em minha memória, as dos remotos riachos da infância são maiores que as de grandes rios.


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