Arquivo de junho \28\UTC 2013

Um brinde a Nello de Rossi

Nello

E lá se foi, no dia 26 de junho de 2013, um dos personagens mais carismáticos da cidade de São Paulo. O jovem ator Nello de Rossi, que participou de filmes de Rosselini e Victorio de Sica, veio para o Brasil em 1973, para administrar a cantina do irmão (Trastevere). Acabou criando a própria, na rua Antonio Bicudo, em Pinheiros, que virou um lugar lendário. Para mim, claro, que desde os anos 70 frequento aquele espaço cercado de pôsteres e cartazes de cinema. Minha cantina favorita, com a melhor lula à doré da cidade, além de massas inesquecíveis. Há quem diga que faz também o melhor filé a parmigiana do mundo, e é um dos introdutores do tiramisú no cardápio ítalo-brasileiro.

Dona Rina e os filhos (e filhas) continuam cuidando da casa. Aliás, ela é a grande chef, responsável por muito pratos. Mas o sorriso do velho Nello (91 anos, parecia uns 20 a menos) será sempre lembrado. A paixão pelo cinema prosseguiu, e acabou virando produtor (Cassiopeia, de 1996, disputa com Toy Story o título de primeiro filme de animação digital do mundo) e retomando a carreira de ator. Atuou no filme Festa, de Ugo Giorgetti, e virou figura nacional num comercial de TV, com o bordão “bonita camisa, Fernandinho!’.

A simples menção do nome Nello’s traz lembranças a paulistanos de várias gerações e origens. Cantina de preço justo e porções fartas, de gente interessante e de altos papos. Ali rolaram conspirações, comemorações, premonições, opiniões, criações e até algumas confusões. Neste ano, em plena crise do tomate (que era fogo de palha, afinal) foi o pioneiro em boicotar o rubro solanáceo. Você imagina uma cantina italiana sem molho de tomate? Pois estava lá o cartaz, na porta, explicando que o motivo era o alto preço. Voltaria ao cardápio duas semanas depois, mas a frequência do restaurante não caiu.

Nello de Rossi soube criar um lugar sagrado na cidade: um ponto de união, de convívio e de admiração pela sétima arte. E pela arte que antecede todas as outras: a culinária! Vamos lá, provar um nhoque Rina, com espinafre e ricota de búfala?

(A foto que ilustra este post é de Rogério Canella, da Folhapress)

Domingo, 23/06

 

Protestos

Vou fazer uma confissão, estranha para quem me conhece como aficionado e defensor da música brasileira. Um dos meus grupos favoritos de rock progressivo era o King Crimson, na adolescência. Um verso ficou ecoando em minha cabeça, nos últimos dias: “Confusion will be my epitaph”. Caminhei pela avenida Faria Lima na grande passeata dos mais-de-cem-mil, na semana passada. Testemunhei o movimento vitorioso do MPL, nos dias seguintes, ser perigosamente deturpado. Grupos nazi-fascistas, carecas, gente que não milita em nenhuma organização, sem nenhuma vontade de construir algo, apenas de destruir. Da classe A à classe D.

Atravessei Diadema à noite na sexta-feira, dia 21/6, e vi muita coisa nas 3 horas que ali passei. Não era Avenida Paulista, não apareceu na TV, não havia espetacularização nem vontade de ser visto. Fecharam a Imigrantes, ocuparam o centro da cidade, marcharam pelas ruas com frases contra os partidos e governantes. E lembrei de outra frase, de Rogério Sganzerla, do filme O Bandido da Luz Vermelha: Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha.”

Quando estudantes saem gritando na rua “Ei, PT, vai tomar…”, fica nítida a falta de politização do movimento. E politização não é palavrão, vem de “polis”, lá da Grécia, Joãozinho! Claro que o PT, governando o país há dez anos, simboliza o sistema, todos os partidos, a estrutura paquidérmica do Estado. Poderia ser PSDB, PQP, PMDB, qualquer partido que ocupasse o poder nesse momento. Mas é de assustadora burrice ignorar que muitos daqueles jovens estão estudando numa universidade graças aos esforços do… PT! E não falo só do ProUni.

Aí entra o dado da ignorância política (a pior de todas, como dizia Brecht). Mas entra também um dado novo, que é a criação de um ambiente virtual que facilita toda espécie de comunicação (inclusive a mentirosa): a internet. E a globalização de informações, proporcionada por este fantástico meio, vem sem filtro, errática, torrencial. Jovens ocuparam Wall Street. Jovens fazem a primavera árabe. Jovens ocupam praça na Turquia.

Ora, se jovens estão assumindo seu protagonismo em todo o mundo, por que não aqui? No sistema antigo, eu teria de participar de reuniões (ai, que chato!), sindicatos (nem profissão eu tenho, sou terceirizado!), associações (que coisa careta!), partidos (nem pensar, odeio política!). Mas postar uma gracinha no Facebook, ah, isso é comigo mesmo, fácil, fácil! Xingar alguém pela internet? Em vez de discutir, mandar à merda? Tranquilo, e não preciso pedir inscrição, organizar argumentos sólidos, me submeter à maioria. Falo a groselha que quiser, a hora que quiser. E vou juntar os amigos pra ir às ruas e xingar tudo isso que está aí. Isso é democracia, mano!

Parece correto? Para os idiotas, sim. E tem muitos por aí, servindo de estopim para ideias muito perigosas. Fascismo, pra começar. Quem não gosta de partido, queima bandeiras em praça pública e bate em trabalhadores, historicamente, são extremistas de direita. Os extremistas de esquerda gostam de partido, desde que seja o deles. E ambos estão errados.

O que ocorreu na Avenida Paulista, na quinta-feira, 20/6, foi lamentável. Agredir militantes de partido (qualquer partido), rasgar bandeiras, é coisa de fascista. E querer impedir sindicatos, centrais sindicais e movimentos populares de se manifestar é de uma estupidez absurda. Que movimento é esse que não quer trabalhador junto? Que manifesta ódio contra o MST, os sem teto, os sindicatos? Ouvi um amigo dizer que o “novo está nas ruas”. Infelizmente, o ódio e o preconceito são muito velhos, têm a idade da humanidade, e continuam nas ruas. E, vamos falar sério: quem sai às ruas de rosto coberto, é covarde ou mal-intencionado. A juventude dos anos 60, 70 ou 80 mostrava a cara. O pessoal do MPL não esconde o rosto. Anonymous virou sinônimo de covardia. Máscara vendida a 70 centavos em Porto Alegre, São Paulo, Brasília… isso não paga os custos, quem está financiando?

Anonymous

No Facebook, elogiei um prefeito mineiro que saiu do gabinete e foi conversar com a multidão. Pois não é que um cara me chamou de “tendencioso”, porque a notícia dizia que o prefeito era petista? Veja a que ponto chega a irracionalidade. Um gesto corajoso e digno é deturpado pelo partido que o cara representa. Como se não houvesse gente no PT que lutou pela democracia, pela liberdade e pela justiça social nesse país.

Votei na Dilma, como milhões de brasileiros, mas não sou petista de carteirinha. Minha cédula (virtual) contemplou 3 siglas nas ultimas eleições. Todas de esquerda ou centro-esquerda, claro. Respeito muito o valor de certas pessoas cuja trajetória de lutas acompanho de perto. Sei do esforço delas para superar os entraves partidários, burocráticos, governamentais. A máquina pública é lerda, burra e gastadora. Mas não é sem partidos que irá funcionar.

Achei de grande maturidade o MPL ter se retirado das ruas na sexta-feira. Perceberam que o arroz estava queimando, e que o cheiro não era bom. Grupos marchando com a bandeira do Brasil e gritando “Fora, PT!” ou ofendendo o Lula é mau sinal. E os velhos meios de comunicação (TVs e jornais) que estão aí são os mesmos que apoiaram o golpe de 64, que tentaram garfar o Brizola no Rio, que ignoraram o movimento das Diretas até o último momento, que manipularam as eleições de 89 pró-Collor. Golpistas que não se conformam em perder democraticamente nas urnas para essa “gentinha” que governa o país há dez anos. E que avançou muito mais que os governos e partidos apoiados pela velha mídia, por sinal.

Mas a juventude, ah, a juventude! Taí a geração que o PT ajudou a criar, depois que se descolou dos movimentos sociais e aderiu às práticas continuístas dos outros partidos. Uma juventude despolitizada, desmemoriada, egoísta e consumista. Que vê nas ruas a chance de ser protagonista de alguma coisa, qualquer coisa, o brilho fugaz da mediocridade. A nova classe média quer tênis de grife. A velha classe média não suporta a companhia destes intrusos. E A velha elite é o que sempre foi: elitista, excludente, racista, fascista e machista (não que a base da pirâmide não seja, mas por ignorância. O topo da pirâmide é conscientemente). Não se trata do “uso público da razão”, como dizia Kant. Está mais para o velho King Crimson dos anos 70: Knowledge is a deadly friend/ if no one set the rules./ The fate of all mankind I see/ is in the hand of fools. (Conhecimento é um amigo mortal/ Se ninguém estabelecer regras./ O destino de toda a humanidade/ está nas mãos de idiotas.)

King Crimson

E o verso final, repetido várias vezes: But I fear tomorrow I’ll be crying…                                                                                                                                                                                                          

Quinta, 20/06

Rede social

Foi bonita a festa, pá… Mas agora precisamos nos organizar. Participar das reuniões com a comunidade que realmente decidem o preço das tarifas, os rumos de nossa cidade, junto com (bleargh!) empresários, (argh!) igrejas, (ugh!) associações, (eca!) universidades, (puá!) sindicatos. E, para isso, precisamos escolher representantes. Mas como somos democráticos, isso será feito através de voto direto, lógico. E depois, quando sentirmos que os rumos da nação precisam de nosso oxigênio, de nossas ideias, de nosso sangue novo, vamos ter voz no Congresso Nacional. E aí, bem, temos de nos organizar. Voto direto, etc. Vai ser necessário formar um partido. Caramba, mas somos contra partidos! Lascou…

Segunda feira, 17

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Tenho a impressão de que esta segunda-feira ficará como um marco na história dos movimentos sociais, no Brasil. Mais de cem mil pessoas manifestando-se pacificamente e esparramando-se pelas avenidas de São Paulo, transformando 20 centavos em pretexto para milhares de reivindicações. Algumas utópicas, outras medíocres, e várias justas. Optei por chegar ao Largo da Batata, em Pinheiros, pelo metrô. Estação lotada, filas nas catracas, emergi à superfície exatamente às 17 horas. Seguranças do Metrô orientavam a multidão, mas não havia revistas nem policiais na estação.

Do lado de fora, alguns PMS fardados se postavam junto ao tapume das obras, à distância. Gente a perder de vista. Não lembro de ter visto tanta gente nas ruas em Sampa desde, sei lá, as Diretas Já. E olha que comemorei a conquista da Libertadores do Corinthians, ano passado, na Vila Madalena!

90% de jovens. Classe média A-B-C, alguns burguesinhos achando o máximo ir para as ruas, poucos negros, nenhum índio. Mas havia sinceridade nos refrões, nas maquiagens de guerra, nos cartazes. Vontade de dizer “eu existo”, primeiro e fundamental passo para a cidadania.  Quando começou a passeata, virou um Amazonas antropomorfizado. Fiquei mais de 20 minutos parado na esquina da Faria Lima com a Rebouças, e não parou de passar gente. E cantavam “Que coincidência, sem polícia não há violência!”. De fato, não se viu PM no percurso, e nem sombra do Batalhão de Choque.  A correnteza humana se dividiu, parte foi para a Paulista, parte para a Ponte Estaiada (onde fica a TV Globo) e parte para o Palácio dos Bandeirantes. Lá sim, a PM jogou bomba nos manifestantes, afinal estavam perturbando o sossego do desgovernador Alckmin…

Voltei pra casa às 22 h, a tempo de assistir boa parte do Roda Viva com os representantes do MPL (Movimento Passe Livre), Nina e Lucas, dando um banho de  preparo e agilidade de raciocínio em cima dos entrevistadores. Me deu pena do envelhecido e envilecido PT (embora tenha encontrado vários militantes históricos no ato), dos burocratas de esquerda, e me deu a certeza de que estes jovens não se identificam, de forma nenhuma com a truculenta direita demo-tucana. Nada a ver também com o conservadorismo-conservacionista representado hoje por Marina Silva. Enfim, um dado novo em um cenário estimulante, capaz de sacudir velhas certezas e inspirar toda uma geração. Avante, moçada!

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(Visão geral da Avenida Faria Lima, às 19 h).

Quinta-feira, 13

Vinha eu de São Bernardo para São Paulo, final de tarde, trânsito absurdo. Tudo travado, além da média, do suportável. Tenho ojeriza a filas, seja de banco, de pedágio, de supermercado. Deixei de entrar em muitos restaurantes na vida porque havia uma fila na entrada. Aquela sucessão de estômagos querendo digerir (em geral) carne me lembra a fila dos bois que vão para o matadouro. A cobra que morde a própria cauda.

Tergiverso. Vinha eu de São Bernardo, avenida Bandeirantes. Fumaça, barulho, furgões e vans poluentes fumaçando sem restrições (é uma piada o controle público dos poluidores! Quem multa? Quando? Quanto? Como?), e as notícias do rádio me sufocando. Mais uma vez Carmen me salvou, desta vez em forma de ópera. Foi ouvindo a obra de Bizet que resisti à tentação de fechar os olhos e acelerar até me espatifar no carrão importado à minha frente, tão inútil e impotente quanto o meu.

Polícia contra civis. A PM do Alckmin avançou contra uma manifestação até então pacífica com bombas, spray de pimenta e cassetetes. Os verdadeiros baderneiros estavam fardados. Os terroristas do Estado, sempre protegidos pelo biombo da impunidade. Essa excrescência do estado democrático chamada PM, entulho autoritário que a burguesia sustenta para se sentir segura. Bater em pobres, negros, índios, favelados, sem teto, sem terra, pode. Mas pode bater nos filhinhos da classe média?

Deu no que deu. Respeitáveis vozes da grande imprensa disseram “oh, que violência!”. Centenas de posts, e-mails, twiters, instagrans, o escambau, protestam contra o massacre oficial. Alguma coisa está fora da ordem mundial, certo, Caetano? A infeliz Falha de SP colocou na véspera uma manchete sobre os “baderneiros” brasileiros. Em chamada menor, no canto da página, sob uma foto em tudo semelhante, falou dos “ativistas” turcos. Hã, hã… Aqui é baderneiro, lá é ativista. E, no entanto, o cheiro de fumaça é igual.

Vi inúmeras imagens quando cheguei em casa. Gente ferida, profissionais da imprensa apanhando, spray de pimenta sendo jogado em cameraman, mulher sendo agredida por fardado, policial quebrando os vidros da própria viatura (!) para incriminar manifestantes, coisa de quadrilha fardada, estatal do crime, bandidos que sustentamos com nossos impostos.

Saímos do Facebook

Esta foto diz tudo. Petição on-line vale até certo ponto, mas serve de desculpa pra ativista de sofá, indignados de computador, revoltados de sessão de cartas de jornal. Vamos pra rua, moçada? Que tal morder a vida com força, raspar as unhas na experiência, bater a cabeça na realidade?