Quinta-feira, 13

Vinha eu de São Bernardo para São Paulo, final de tarde, trânsito absurdo. Tudo travado, além da média, do suportável. Tenho ojeriza a filas, seja de banco, de pedágio, de supermercado. Deixei de entrar em muitos restaurantes na vida porque havia uma fila na entrada. Aquela sucessão de estômagos querendo digerir (em geral) carne me lembra a fila dos bois que vão para o matadouro. A cobra que morde a própria cauda.

Tergiverso. Vinha eu de São Bernardo, avenida Bandeirantes. Fumaça, barulho, furgões e vans poluentes fumaçando sem restrições (é uma piada o controle público dos poluidores! Quem multa? Quando? Quanto? Como?), e as notícias do rádio me sufocando. Mais uma vez Carmen me salvou, desta vez em forma de ópera. Foi ouvindo a obra de Bizet que resisti à tentação de fechar os olhos e acelerar até me espatifar no carrão importado à minha frente, tão inútil e impotente quanto o meu.

Polícia contra civis. A PM do Alckmin avançou contra uma manifestação até então pacífica com bombas, spray de pimenta e cassetetes. Os verdadeiros baderneiros estavam fardados. Os terroristas do Estado, sempre protegidos pelo biombo da impunidade. Essa excrescência do estado democrático chamada PM, entulho autoritário que a burguesia sustenta para se sentir segura. Bater em pobres, negros, índios, favelados, sem teto, sem terra, pode. Mas pode bater nos filhinhos da classe média?

Deu no que deu. Respeitáveis vozes da grande imprensa disseram “oh, que violência!”. Centenas de posts, e-mails, twiters, instagrans, o escambau, protestam contra o massacre oficial. Alguma coisa está fora da ordem mundial, certo, Caetano? A infeliz Falha de SP colocou na véspera uma manchete sobre os “baderneiros” brasileiros. Em chamada menor, no canto da página, sob uma foto em tudo semelhante, falou dos “ativistas” turcos. Hã, hã… Aqui é baderneiro, lá é ativista. E, no entanto, o cheiro de fumaça é igual.

Vi inúmeras imagens quando cheguei em casa. Gente ferida, profissionais da imprensa apanhando, spray de pimenta sendo jogado em cameraman, mulher sendo agredida por fardado, policial quebrando os vidros da própria viatura (!) para incriminar manifestantes, coisa de quadrilha fardada, estatal do crime, bandidos que sustentamos com nossos impostos.

Saímos do Facebook

Esta foto diz tudo. Petição on-line vale até certo ponto, mas serve de desculpa pra ativista de sofá, indignados de computador, revoltados de sessão de cartas de jornal. Vamos pra rua, moçada? Que tal morder a vida com força, raspar as unhas na experiência, bater a cabeça na realidade?

0 Responses to “Quinta-feira, 13”



  1. Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s





%d blogueiros gostam disto: