Arquivo para julho \12\UTC 2013

Empresa não vota

É uma verdade universal: pessoa jurídica não vota em eleições. E por que? Porque não tem interesses cidadãos. A lógica de uma empresa – qualquer empresa – é o lucro. Em tese, o lucro é incompatível com interesses da cidadania, como serviços públicos de qualidade, segurança, educação, transporte, saúde, cuidados com o meio ambiente, etc. O Estado não é feito pra gerar lucro.

Mas no Brasil as empresas financiam campanhas eleitorais. Alguém acredita que é por “interesse cidadão”? A conta é cobrada depois que o cara é eleito. O parlamentar (ou executivo) vira devedor da empresa, e defende os interesses dela para quitar as dívidas de campanha. E quem paga, afinal de conta, é dinheiro público. O meu, o teu, o nosso.

Foi lindo ver milhares de pessoas nas ruas bradando contra a corrupção. Em tese, todos são contra. Mas na hora de agir concretamente, a maioria se cala. Por exemplo, se mobilizando contra o financiamento privado de campanhas, mãe de todas as corrupções. O cidadão que foi pras ruas, indignado, provavelmente vota num sujeito que foi financiado por grandes empresas. Ora, ora…

Aí quando alguém fala em “financiamento público de campanha”, pula do sofá, revoltado. “Com meu dinheiro, não!”. Será que não desconfia que o “seu dinheiro” será pago com licitações viciadas, obras superfaturadas e isenções de impostos mal explicadas?

Financiamento público, já, para começar a moralizar a eleições. E bem restrito! Uma merreca pra cada candidato, um minuto no rádio e TV e… te vira! Terá de se defender no gogó, no discurso, com propostas reais. Cada partido organizado recebe uma bela verba oficial, certo? Pois que invistam nas campanhas essa verba, nem um centavo a mais. Ou saiam atrás de contribuições individuais, limitadas a, sei lá, 500 reais. Um valor que deve ser discutido e aprovado por todos, até mesmo através de plebiscito.

Garanto que o Congresso Nacional vai mudar muito de perfil. E, aliás, é bom considerar igreja como empresa. Igreja tem CNPJ, não título de eleitor. Tirar dinheiro dos fiéis para financiar candidatos também deve ser considerado crime. Exploração da boa fé alheia, no mínimo!

Nani

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A selva das cidades


Teia

Canario na selva

Depois do fim

cidade abandonada

Os primeiros a ocupar a cidade foram os pássaros. Pousaram sobre os telhados e fiações, cautelosos, quebrando o silêncio com seus pios. Os mais urbanos – tico-ticos, cambacicas, rolinhas e sabiás – arriscavam os beirais de janela, espiando para o interior escuro das casas.

Pequenos roedores puseram a cabeça para fora das tocas e bueiros, e começaram a investigar o terreno. Alguns arriscaram pequenas corridas pelo calçamento, erguendo-se sobre as patas traseiras para olhar os arredores.

Os gambás vieram pouco depois das chuvas. Alguns se acomodaram nos carros amontoados pelas esquinas. As vitrines quebradas dos supermercados e padarias exalavam aromas complexos, misturas de doces, azedos e apodrecidos. Os ratos estavam tão à vontade que saíam gordos e satisfeitos pelas calçadas, caindo nas garras dos gaviões e corujas.

O mofo já coloria as paredes, e o mato surgia de todas das rachaduras, quando um casal de codornas decidiu fazer seu ninho na cama de Beatriz. Ela, que amava os pássaros, teria se divertido com a situação, se pudesse ter visto.