Depois do fim

cidade abandonada

Os primeiros a ocupar a cidade foram os pássaros. Pousaram sobre os telhados e fiações, cautelosos, quebrando o silêncio com seus pios. Os mais urbanos – tico-ticos, cambacicas, rolinhas e sabiás – arriscavam os beirais de janela, espiando para o interior escuro das casas.

Pequenos roedores puseram a cabeça para fora das tocas e bueiros, e começaram a investigar o terreno. Alguns arriscaram pequenas corridas pelo calçamento, erguendo-se sobre as patas traseiras para olhar os arredores.

Os gambás vieram pouco depois das chuvas. Alguns se acomodaram nos carros amontoados pelas esquinas. As vitrines quebradas dos supermercados e padarias exalavam aromas complexos, misturas de doces, azedos e apodrecidos. Os ratos estavam tão à vontade que saíam gordos e satisfeitos pelas calçadas, caindo nas garras dos gaviões e corujas.

O mofo já coloria as paredes, e o mato surgia de todas das rachaduras, quando um casal de codornas decidiu fazer seu ninho na cama de Beatriz. Ela, que amava os pássaros, teria se divertido com a situação, se pudesse ter visto.

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