Uma pitada de gastronomia africana

Sempre fui curioso em relação a comida. Adoro experimentar novos sabores, texturas, aromas, conhecer os frutos típicos da terra, os pratos de resistência, os temperos. Carmen e Filipe, meus companheiros de viagem, também fazem parte desse time.

Nos primeiros dias em Cape Town provamos muitos frutos do mar e algumas carnes exóticas (hambúrguer de avestruz, por exemplo). Muitas lulas e camarões, que são servidos em três tamanhos: prince, queen e king. O primeiro momento de apreensão foi quando fomos apresentados à pimenta local, que recebe o inquietante nome de piri-piri. Sugestivo, não?

Peri-peri

No entanto, sob a forma de molho, a piri-piri (ou peri-peri) estava bem de acordo com o padrão a que estamos acostumados, no Sul do Brasil. Mais suave que um tabasco.  Um acarajé apimentado, na Bahia, é muito mais inclemente.

 Na segunda noite fomos ao Africa Cafe, um restaurante muito interessante onde provamos um menu temático. O cardápio diário é uma rodada-degustação com pratos típicos de vários países,  que muda conforme a estação. Uma espécie de pão frito de entrada (parecia tapioca), batatas recheadas do Malawi, verduras xhosa sul-africanas, camarões de Moçambique, carne de kudu de Botswana, arroz basmati (a influência indiana é significativa na costa leste da África), um frango de Ghana, lentilhas egípcias, um espinafre refogado com tempero congolês…

Africa Cafe

Devia ter fotografado os pratos antes de prová-los, mas a fome era tanta que só lembrei disso depois.  Uma boa carta de vinhos nativos, música típica no volume correto (aquele que permite uma boa conversa sem necessidade de elevar a voz) e garçonetes lindamente maquiadas completam o clima exótico. Recomendo!

Africa Cafe 2

 Depois de Cape Town, fomos para a região do Kruger, mais ao norte. Em três dias de safári, tivemos a oportunidade de provar várias carnes de caça. Kudu, impala, niala e warthog (mais conhecido como pumba, aquele javali do Rei Leão). Algumas churrasqueadas, outras cozidas. A impala pie é um prato característico, que tem pouco a ver com as tortas que conhecemos no Brasil. Uma espécie de omelete fofa recobre cubos de carne suculentos, cozidos como um goulash. Tá mais para uma versão africana da famosa venison pie.

Já na Zâmbia provamos gnu e crocodilo. Diferente de nosso jacaré, o croc tem a carne avermelhada, capaz de ser confundida com picanha, à primeira vista.  No Chobe Park, em Botswana, crocodilo na chapa era o prato principal de um bufê onde almoçamos.

Crocodilo na chapa

E foi ali que provamos a coisa mais estranha da viagem. Estávamos nos servindo de salada, quando topei com um prato quase intocado. Perguntei a uma atendente, que respondeu em um dialeto incompreensível. E agora? Um suíço de cabelos brancos que estava atrás de nós matou a charada. Olhar experiente, de quem sabe das coisas, sussurrou “caterpillar”. Olhei mais de perto. Lagartas. Prensadas e grelhadinhas, como camarões. Perguntei pro Filipe se ia encarar. Respondeu que na Tailândia havia provado escorpião e gafanhoto, quinze dias antes. “Vamos nessa!”

Salada de lagartas!

Experimentei uma. Parecia uma passa salgada, nada muito especial. Para tirar a dúvida, peguei uma porção e misturei com o tabule. Certamente foi a coisa mais esquisita que comi em solo africano. Como faço com camarões, retirei as cabecinhas com cuidado e coloquei de lado, mas vi que alguns comiam tudo. Até provei uma inteira, e não senti diferença.

Culturalmente não estamos acostumados a comer insetos. O sujeito aqui passa fome, mas não come essa fantástica fonte de proteínas, barata e abundante. No Brasil, creio que só a tanajura frita, do Vale do Paraíba, se tornou venerável. Monteiro Lobato adorava a iguaria, chamava-a de caviar brasileiro. Os indígenas da Amazônia gostam muito de certa larva de coqueiro, branca e gorda. Todo mundo já mordeu um bicho de goiaba, mas não admite. Alguns engolem mosca, de vez em quando…

Enfim, insetos serão a comida do futuro. Antes que finde o século XXI estarão no cardápio cotidiano. Que outra forma existe de alimentar 10 bilhões de humanos, número estimado para 2070?  Vegetais não darão conta, a terra agricultável vai se esgotar, o mar já está entrando em colapso. Prepare seu paladar pras coisas que vão pintar!

Jantar de despedida

Em Joanesburgo, na última noite, fomos a um restaurante “para turistas”, numa espécie de cassino-shopping center 24 horas só de alimentação, perto do aeroporto. Eu e a Carmen provamos a melhor carne de avestruz de nossa vida, um filé alto e suculento.  Aqui no Brasil só vemos o bicho congelado, cortado em bifes finos. Esqueça. Filipe pediu um combinado de 4 carnes de caça. Rapaz de coragem! O garçom, fanático por futebol brasileiro, contou orgulhoso que havia assistido na véspera um jogo do Kris-chi-ama. Hã? Demorou um pouco para identificarmos o Criciúma. Efeito do vinho e do mergulho na Devil’s Pool naquela manhã, certamente.

De volta ao Brasil, voltei a cortar carnes vermelhas de meu cardápio. Provar é uma coisa, consumir todo dia é outra…

2 Responses to “Uma pitada de gastronomia africana”


  1. 1 Carmen 27/10/2013 às 10:04 pm

    É impressionante o toque “familiar” no tempero da comida africana que provamos, em geral. Fica claríssima a influência cultural africana no nosso dia a dia. Embora provássemos coisas bem diferentes, tinha algo – o tempero, jeito de cozinhar, a apresentação, sei lá, que fazia com que nada fosse tão diferente assim… Adorei!


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