Arquivo para novembro \28\UTC 2013

Ouvindo árvores

Já pensou que som teria uma árvore? Não se trata do som do vento nas folhagens, nem de galhos se quebrando ou frutos caindo. O som terrível de uma árvore sendo derrubada na floresta é inesquecível, mas o que você vai ouvir aqui é outra coisa.

O alemão Bartholomäus Traubeck inventou um aparelho que “lê” as marcas do tempo em um tronco. Na verdade, em um disco de madeira (reflorestada, diz ele).  Num processo semelhante ao das antigas caixinhas de música, um feixe de luz varre a superfície da madeira, associando as manchas e irregularidades com sons de piano. A ideia pode parecer maluca, mas o cara lançou na Alemanha 12 álbuns com os sons obtidos, que batizou de Years. É, como ele define, a passagem do tempo nas árvores. Ou a memória do crescimento, com suas marcas e  (às vezes) traumas.

Deixe tua imaginação viajar, talvez pintem outras interpretações. Mas que é curioso (e belo), isso é!

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Praia do Sono, sem TV

Pastel flutuante

Fiz uma pequena viagem recentemente, que me proporcionou uma experiência interessante. Saí de São Paulo, passei dois dias em Ilhabela, quatro em Paraty e dois no Rio de Janeiro.  De carro, sem pressa, curtindo a paisagem do litoral e as boas conversas pelo caminho.

cinema na praia

Em Paraty ocorreu até uma aventura inesperada: pernoitar na Praia do Sono, após uma sessão de cinema na areia (aliás, o belo documentário sobre o Arnaldo Baptista, com uma plateia que misturava caiçaras e surfistas). O tempo virou, os barcos não saíam à noite, e no dia seguinte enfrentar as ondas de voadeira foi mais emocionante que muito brinquedo de parque de diversões.

CINEMANAPRAIA

Mas o que ficou da viagem (além de conhecer meu primeiro neto, João, no Rio) foi a gostosa sensação de ficar 8 dias sem televisão, sem celular e longe do computador. Admito até que vi uns e-mails em Paraty, mas foi coisa de alguns minutos.

Mal acompanhei as notícias das prisões de Genoíno e Zé Dirceu, assim como o escarcéu montado pela mídia em torno do STF. É incrível como o Brasil é melhor, mais generoso, mais bonito e acolhedor sem a televisão. A manipulação de informação, a descarada distorção de fatos, a ocultação ou minimização dos crimes dos “amigos” (tremsalão paulista), a imoral exploração da vergonha alheia, o auto-bajulamento incontido da rede Globo, tudo isso soa como uma excrescência social, uma degeneração de algo que deveria servir a todos: o direito à informação.

Sob uma legislação retrógrada, que data do início dos anos 60, os coronéis da informação estão em campanha declarada contra um partido, o PT. Que não é santo, óbvio, cometeu desvios e escorregões éticos, bem menos que os seus ferozes opositores. Cadê a sanha justiceira da (in)Veja, jornalões e redesglobos contra os muito mais vultosos desvios de Serra, Alckmin, Aécio et caterva? Taí o livro Privataria Tucana, cheio de documentos incontestáveis. Aliás, há inúmeras provas de que a redeglobo sonega impostos, suborna funcionários públicos e corrompe autoridades. Apoiou a ditadura e sabotou enquanto pode a volta da democracia. Porque acreditar nela?

E que figura lamentável se tornou o juiz Joaquim Barbosa! Em breve, depois de ter feito o serviço sujo, será descartado pelas mesmas elites que nunca o aceitarão entre seus pares. Terá tempo de se arrepender? Desejo a ele vida longa, muito longa, para que se envergonhe dos atos que fez, do mal que causou ao país alimentando o reacionarismo mais hipócrita.

Enfim, ficar sem TV por 8 dias foi um alívio. Não que ligue o aparelho em casa, longe disso. Um filme de vez em quando, e olhe lá. Mas conviver com gente de carne e osso, comunidades de pescadores, agitadores culturais, militantes ambientalistas e amantes da natureza foi muito mais agradável e produtivo. Fez bem pro corpo e pra alma. Tem um Brasil muito melhor por aí, que não está na televisão.

Paraty

Falando de música clássica

Dando uma repassada nos posts anteriores, percebi que faz tempo que não falo de música por aqui. Embora a recente viagem pela África tenha despertado tambores ancestrais em minha alma, outras sonoridades têm alimentado minha vida nos últimos anos.

A tal da música clássica. Que não é só clássica, mas renascentista, barroca, romântica, moderna e contemporânea. Chamamos de clássico o período que vai de Haydn a Beethoven, o período que surge na segunda metade do século XVIII e vai até o meio do século XIX. E que tem Mozart como o Messi da época.

Mozart escreveu muito, apesar da vida curta e atribulada. O início de menino-prodígio é apenas uma curiosidade, não vai ficar para a história da música. Mas o conjunto da obra é coisa de gigante, de alguém da gangue do lobo que amava um deus (Wolfgang Amadeus).

A audição de suas 41 sinfonias é uma aventura particular na história da música. Começa a brilhar a partir dos dois dígitos, ganha estatura de gênio a partir de vinte-e-poucos. Mozart escreveu também concertos para vários instrumentos, como flauta, piano e violino. Mas o solitário Concerto para Clarineta em Lá menor, K622, é um assombro. Como um sujeito escreve algo tão cintilante para um instrumento e não tenta um bis? Talvez por ter noção de que alcançou a perfeição. Talvez por ter morrido cedo. Não importa. Experimente sem preconceitos essa versão com o jovem e brilhante clarinetista Julian Bliss.

Mas o concerto para clarineta de Mozart não é o único caso de concerto que é pedido no singular, sem números. Alguns anos depois, Beethoven também escreveu uma única peça para um instrumento, o semi-romântico Concerto para Violino em Ré Maior, Op. 61. É outro assombro. Maravilha de equilíbrio, invenção e harmonia, conjugado a melodias belíssimas, daquelas que ancoram em nossa memória para sempre. Ouço essa obra prima há algumas décadas, e não enjoo. Confira a versão com Ann-Sophie Mutter e a irrepreensível Filarmônica de Berlim, regida por Seiji Osawa. E se você achava que Ann-Sophie era somente uma queridinha do velho Von Karajan, preste atenção na cadência (improviso) aos 48’36”. Desconfio que mulheres conversam melhor com o instrumento ao coloca-lo sobre o ombro nu. Homem tem sempre a mediação de, no mínimo, dois tipos de pano: uma camisa e uma casaca. Quando não veste uma camiseta por baixo, para não suar… Sou a favor de que todos, homens e mulheres, devessem tocar nus. Ou só de calças!

Para corroborar minha tese, vamos ao maravilhoso Concerto para Violino de Mendelssohn, com a não menos maravilhosa Hilary Hahn, também de ombros nus, acompanhada pela Sinfônica da Rádio de Frankfurt. Gravação recente, de 2012, realizada na Coreia do Sul. Pretendo ouvir essa moça até o final dos meus dias!

Os poliglotas africanos

Aeroporto de Johannesburg

      Contei no post anterior que na África do Sul quase todos falam, no mínimo, três línguas. O que dizer então da Zâmbia, onde há mais de 70 línguas tribais?

       O motorista da van que nos levou até a fronteira do Zimbábue revelou que falava, fluentemente, 25 idiomas. E que entendia outros tantos. Argumentei que deviam ser parecidos. Respondeu com firmeza:

– Totalmente diferentes!

         No Brasil, um sujeito que fale 25 línguas tem emprego no Itamaraty, no mínimo. Lá é motorista…

         O guia Aaron, nascido no Zimbábue, disse que é comum haver diálogos multilinguísticos no mercado, no trânsito, na calçada. Fulano pergunta em uma língua, Sicrano responde em outra. Cada um entende o que o outro quis dizer, embora só fale a sua língua nativa. Um fenômeno de comunicação!

Livingstone, Zimbabwe

         Mais estranho que isso (para nós), só mesmo o troco. O Zimbábue é tão pobre que não tem moeda própria. As últimas cédulas que circularam eram da ordem de “milhões”. São vendidas como souvenir. Desistiram em 2009, quando a inflação bateu em 9.000.000 % ao ano, ou 98% ao dia. A última nota emitida foi essa:

Trillion dollars

Desde 2009, adotaram o dólar americano. Os salários são pagos em dólar. Circula pelo país as moedas dos países vizinhos, de economia mais forte.

         Em Victoria Falls, sob um calor obviamente africano, resolvemos comprar uma garrafa de água mineral de um camelô. Custava dois dólares. Carmen deu uma nota de dez. O sujeito enfiou a mão no bolso e puxou notas de várias cores e tamanhos. Separou uma nota de 5 dólares, duas de 20 rands (África do Sul) e umas moedas de kwatcha (Zâmbia). E agora?

         Impossível saber se o troco estava correto. É preciso ter uma calculadora financeira e uma conexão com o câmbio do dia. Como disse o Aaron, os espertos se dão bem, e os otários dançam. Respondi a ele que no Brasil, onde tem uma só moeda, também é assim…

Mercado Zâmbia