Gilvan Samico, mestre da xilogravura

Samico1

A morte de Gilvan Samico, no dia 25 de novembro de 2013, mexeu mais comigo do que deveria. Afinal, não o conheci pessoalmente, nem sequer tenho uma obra sua nas paredes de casa.  Mas, por uma série de motivos, Samico é um dos artistas brasileiros que mais admiro, pela coerência, refinamento e fidelidade ao projeto estético que escolheu.

samico xilo sereias

Dedicar-se à xilogravura como forma de expressão, no Brasil,  é uma opção temerária. Mestres como Osvaldo Goeldi e Lívio Abramo provaram que era possível dialogar com a arte moderna usando um suporte tido como primitivo. Aluno de ambos, Samico desenvolveu uma linguagem própria, com forte influência dos artistas populares nordestinos. Graças a essa escolha conquistou reconhecimento internacional, tendo obras em museus europeus e americanos, além de ser premiado na Bienal de Veneza.

Quinteto Armorial

O ponto de virada em sua vida foi o convite de Ariano Suassuna para que participasse do Movimento Armorial, em 1971. E foi então que Samico entrou na minha vida. As fantásticas capas do Quinteto Armorial (de onde surgiu o extraordinário Antônio Nóbrega) foram, de fato, as primeiras obras do artista que eu tive em mãos. E a profunda relação entre as imagens e a música que eu ouvia era evidente: uma ligação viva, ao mesmo tempo cerebral e emotiva, ancestral e moderna, no sentido de reelaborar arquétipos.

capa-quinteto-armorial-1974

            Numa era em que a tecnologia, as novas mídias, o computador e suas manipulações digitais fazem a cabeça de todo aspirante a artista, debruçar-se sobre um pedaço de madeira e cavocar, cortar, burilar, descascar e colorir, como se fazia há centenas de anos, parece anacrônico. Artistas da geração seguinte, como Rubens Grilo, apontaram novos caminhos expressivos para a técnica ancestral da xilo, dando-lhe conteúdo político e abrindo espaço na mídia impressa.

Xilo Samico

Gilvan Samico é de outra estirpe. Sintonizado com os princípios armoriais, mergulhou nos mitos, lendas e histórias da cultura popular nordestina, a chamada literatura de cordel. Personagens bíblicos se juntam a entidades indígenas e caboclas, em justaposições de extraordinária beleza. O uso de cores chapadas, típico das gravuras populares, é sabiamente dosado, provocando alumbramentos no meio do tradicional branco-e-preto.

Samico3

Samico produziu pouco. Dizem que elaborava uma gravura por ano, nas últimas décadas. Nos último fim de semana ouvi o Quinteto Armorial (e também a Orquestra), e fiquei um longo tempo contemplando as imagens do mestre. É mais um pilar da cultura brasileira que se despede, restando a nós o espanto perante a banalidade vulgar da mídia globalizada e seus infinitos lugares-comuns.

Samico2

          Um brinde, mestre Samico!

3 Responses to “Gilvan Samico, mestre da xilogravura”


  1. 1 Rafael Vilanova 21/02/2014 às 5:22 am

    Bom dia. Há muito tempo que visito vosso blog e gostaria de parabenizar pelo conteúdo. Nessa postagem sobre Samico em especial, me impressionei muito com a imagem da figura humana entre pássaros e folhas, a última imagem que aparece depois do texto. Você saberia o nome ou teria mais referências dessa imagem? Gostaria de utilizá-la num trabalho acadêmico e para isso precisaria de alguma informação.
    Agradeço desde já!
    Rafael Vilanova

  2. 2 YASMIM 06/10/2014 às 2:56 pm

    PARABÉNS PELO BLOG ADOOOOREI

  3. 3 06/10/2014 às 3:04 pm

    ARASARAM NAS INFORMAÇOES


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