Arquivo para janeiro \28\UTC 2014

Os contos de Consternação

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Troco ideias com Jadson Barros Neves há quase dez anos,mesmo sem nos conhecermos pessoalmente. Escritor sério e compenetrado, desenvolve em seus contos uma linguagem densa, coesa e inconfundível. Apesar de inventar cidades e personagens, o cenário é bem reconhecível: As pequenas cidades e vilas surgidas no garimpo, no sertão, no sul do Pará, norte de Goiás, Tocantins…

                Depois de ganhar prêmios nacionais e internacionais, Jadson lançou no fim de 2013 seu primeiro volume de contos: Consternação. Discuti com ele por causa do nome, preferia que fosse um dos contos (O Itinerário da Sombra, por exemplo). Talvez até no plural, O Itinerário das Sombras. Não é lindo? Mas Consternação chegou pronto em minhas mãos, e tratei de inaugurar as leituras de 2014 com ele.

                Já conhecia alguns contos, a maioria. Trocamos opiniões e conceitos há vários anos. (Jadson fez a primeira leitura “profissional” de meu romance Terno de Reis, com observações e correções valiosas). Mas reler agora o conjunto reunido em Consternação me deu outra visão de seu mundo ficcional.

                Primeiro, que o livro é quase um romance oculto, cujos desígnios só vislumbramos nas entrelinhas. Personagens de um conto reaparecem em outros, cenários e ações ecoam em várias páginas, e formam uma invisível teia literária que nos faz refletir, perplexos, em vários momentos. Certas imagens se repetem sem que pareça repetição, mas reiteração de um território finito no tempo, onde as coisas parecem girar em falso.

                Escritos durante um largo período de tempo, os contos transparecem uma evolução – ou melhor, uma decantação – de linguagem até a última página. Homens e mulheres parecem cumprir destinos inexoráveis, iniludíveis, e esse fatalismo está impregnado nas árvores, no canto dos pássaros, na noite estrelada, nas chuvas torrenciais.

                Jadson passou por quatro universidades, foi vendedor de secos e molhados no sul do Pará, revisor de jornal e professor. Mora em Guaraí-TO. Ou seja, conhece muito bem a região que descreve nos seus contos. Nasceu ali. (Sei que também morou em Fortaleza, mas aí é outra história). Jadson Barros Neves apresenta para o Brasil, com descrições poderosas e enredos inquietantes, um território pouquíssimo explorado na ficção. E supera o regionalismo elementar construindo com profundidade a psicologia de seus personagens. Não é pouco.

Vai aqui um trechinho, de aperitivo:

                “Foi numa noite sem lua que vimos as luzes pela primeira vez, na direção da serra. Olhamos, mas nada dissemos. Eram eles, os estranhos. Eu disse a seus irmãos, com mãos de vem-vem, que voltássemos para dentro.

                Você se lembra de um bando de pardais voando, do barulho que fazem voando de repente? Assim veio outra vez a neblina, veio e passou, mas sentíamos que havia algo diferente nela. Quando acabou o ruído, proibi seus irmãos de abrirem as janelas. Escutei gritos nas outras casas, vozes nas ruas, bater de portas. E então, naquela maneira de correrem, escutei veados assoprando e parando, e os canastras em disparada, e rasga-mortalhas lançando seu grito curvo e sem freios no ar.

                 A manhã chegou de tarde,  o dia estava invertido.”

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Ouvindo elepês

Quem tem mais de 40 anos certamente colecionou, ganhou, presenteou, pediu ou emprestou algum LP na vida. Crianças, LP é a sigla de long-playing, tá? Aquele discão de vinil, suporte ideal para capas artísticas, algumas desdobráveis, onde havia espaço para que a fotografia, o desenho, a pintura, as artes gráficas em geral, virassem uma atração complementar à música. E tem um som incomparável, quente, rico em timbres e frequências.

Tenho cerca de 800 elepês em casa, devidamente guardados num armário especial, com porta de vidro. Não sou um colecionador, apenas não me desfiz dos que já tinha antes da era digital. O infeliz do CD, além de matar as artes gráficas, comprimia o som, cortando agudos e graves, deixando tudo meio frio. A tecnologia avançou, a qualidade melhorou, mas tem muito fã de música que ainda defende a supremacia do LP sobre o CD.

No Natal de 2013 eu e a Carmen resolvemos nos dar um presente mútuo. Em vez de um presentinho pra cada um, um presentão para os dois. Um super-tocadiscos moderno, com entrada para USB, toca-fitas, CD, o escambau. O bicho copia LP para MP3, vejam só! O design retrô, com caixa em madeira, é um atrativo a mais. Quem quer  um abjeto objeto de plástico preto decorando a sala?

toca-discos

Tirei a poeira de meus elepês e me preparei para a estreia. Por várias questões, musicais e sentimentais, escolhi um disco da Joan Baez, o barra-cinco. Chamávamos assim porque o título original é Joan Baez/5. Meu pai ouvia muito este disco nos anos 60, enquanto pintava. Os primeiros acordes que tirei no violão foram deste disco. Não só, claro. Havia a generosa influência da música brasileira, a quem presto reverência até hoje.

Coloquei o disco. Carmen expressou bem a sensação. “Ah, que saudade desse chiadinho!” Aquele ruído de fritura que antecede a entrada da música é algo que faz parte da cultura de grande fatia da humanidade. Algo como as batidinhas que o maestro faz com a batuta antes de iniciar o concerto. Ou as tossidinhas da plateia. Um ruído. Mas se não estiver lá, vamos sentir falta.

E então entrou a voz única de Joan, cantando There But for Fortune. E depois Stewball e It Ain’t Me Babe, de Bob Dylan. O gozo supremo chegou com as Bachianas Brasileiras no. 5. Joan acompanhada por oito violoncelos, voz-lâmina cortando o espaço azul. “Fresca como a água corrente, clara como a corrente da montanha”, diz a contracapa. Havia espaço para longos textos na contracapa, crianças, acreditem!

Em seguida ouvi Elizeth Sobe o Morro. Luz Negra, Pecadora, Folhas no Ar… E depois Paulinho da Viola, Beatles, Caetano, Gil, Dire Straits, Laurie Anderson, Milton, Mozart, Simon & Garfunkel, Elomar… Alguns mais riscados, outros quase intactos. A recuperação do sagrado, da imperfeição tão humana do registro. Nada da limpeza asséptica do CD, este objeto perecível e descartável.

Certa vez uma pessoa me perguntou qual era a vantagem do LP sobre o CD. Estava na casa dela. Peguei a caixinha do disco que escutávamos e ameacei jogar no chão. Ela se apavorou, disse que metade dos CDs dela estavam trincados, não fechavam direito, que plástico era um horror.

Bem, capas de elepês são de papelão. Caem e sobrevivem. Comportam dedicatórias derramadas, mensagens de amor, de carinho, cantadas, poemas, confissões. As de CD, coitadas, no máximo um “parabéns”, data e assinatura. E quebram…

Pelos meus cálculos, vou precisar de três anos para reouvir meu acervo. Jazz, clássicos, MPB, rock e inclassificáveis. Não é um bom motivo pra estar feliz, neste início de 2014?

Leituras de fim de ano

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Admito: li pouca ficção em 2014. Ensaios, artigos, hard news, internet, fakebook… Quem lê tanta notícia? Acaba roubando espaço do que realmente é permanente, duradouro. Mas pra não perder o costume, vou comentar algumas leituras de final de ano, sem a menor pretensão de ser antológico (pobre de mim!) ou árbitro de alguma coisa. Foi a parte que me coube nesse latifúndio cultural plurimidiático onde todos se perdem e tudo se apequena, cada vez mais.

Um romance americano – ora, vejam! – que li com certo atraso e que me interessou muito foi A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan. Presente de minha amiga Sandra Abrano, demorei para embarcar na leitura. Estilo coral, com várias vozes, em vários tempos, mas com um pique punk-rock, com tudo girando em torno de drogas, sexo e ansiedades destrutivas. Uns se salvam, outros se perdem, formando um marcante painel da juventude americana (quiçá mundial) contemporânea. Abordagem bacana, ousadia formal (há um capítulo só com powerpoints!), capricho detalhista na construção dos personagens.

O último livro de poesia que li em 2013 foi o belo Fotos do Espelho, de Ana Salvagni. Poesia na voz feminina, mistério que nós, homens, procuramos desvendar desde que morávamos em cavernas. Poesia que canta, perturba e provoca.

Mulheres são plenas de espaços

Arenas vales

Ânforas e tendas

Mulheres tendem a abrigos

Um vazio tangível

Um não entender-se.

Divagam e adoram

Creem no oco que descabe

No fosso das crateras

Banhados e cavas onde cabe tanta ilusão

E alguns homens

Por saberem esse vãos

Ocupam-se de ocupa-los

Bárbaros

Mansamente (…)

                 Outro poeta que perturbou minhas leituras de fim de ano foi o Airton Paschoa, com seus Poemitos (belo título!). O cabra foi meu colega de faculdade, tem vários livros publicados, cultiva uma prosa poética e trocadilhesca. Poemitos reúne poemas de juventude (se é que podemos determinar exatamente este estado de espírito). A chama provocadora, às vezes surrealista, deixa entrever o decantar das muitas leituras da pré-juventude. Ora Pessoa, ora Oswald, ora Cabral, ora (pro nobis) Drummond.

(…) Tu é pó, lodo,

Prefiro, e ao pó, ídolo.

Te faço de barro,

De flores, de asas ,vaso.

De astros, de naves,

Te faço de noite, capela.

Te faço de dia,

De frases, de fato, poema. (…)

                Só? Só. Estou falando dos últimos dias de 2013, claro. Fecho os olhos e tento vislumbrar, no meio da nuvem de informações, os pontos mais brilhantes do ano. Foi um ano de muito cascalho pra pouco diamante. Faísca na lembrança o livro de poesias/fados de Dalila Teles Veras, enfoque muito original que enlaça amorosamente música e poesia, Brasil e Portugal. Li uns poucos romances que não me entusiasmaram (Ondjaki, Daniel Galera, Ronaldo Correia de Brito), e é provável que eu não tenha captado todas suas qualidades. E continuo sem paciência para best-sellers…

A pior coisa do mundo é se tornar um mau leitor. Prometo melhorar em 2014!


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