Leituras de fim de ano

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Admito: li pouca ficção em 2014. Ensaios, artigos, hard news, internet, fakebook… Quem lê tanta notícia? Acaba roubando espaço do que realmente é permanente, duradouro. Mas pra não perder o costume, vou comentar algumas leituras de final de ano, sem a menor pretensão de ser antológico (pobre de mim!) ou árbitro de alguma coisa. Foi a parte que me coube nesse latifúndio cultural plurimidiático onde todos se perdem e tudo se apequena, cada vez mais.

Um romance americano – ora, vejam! – que li com certo atraso e que me interessou muito foi A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan. Presente de minha amiga Sandra Abrano, demorei para embarcar na leitura. Estilo coral, com várias vozes, em vários tempos, mas com um pique punk-rock, com tudo girando em torno de drogas, sexo e ansiedades destrutivas. Uns se salvam, outros se perdem, formando um marcante painel da juventude americana (quiçá mundial) contemporânea. Abordagem bacana, ousadia formal (há um capítulo só com powerpoints!), capricho detalhista na construção dos personagens.

O último livro de poesia que li em 2013 foi o belo Fotos do Espelho, de Ana Salvagni. Poesia na voz feminina, mistério que nós, homens, procuramos desvendar desde que morávamos em cavernas. Poesia que canta, perturba e provoca.

Mulheres são plenas de espaços

Arenas vales

Ânforas e tendas

Mulheres tendem a abrigos

Um vazio tangível

Um não entender-se.

Divagam e adoram

Creem no oco que descabe

No fosso das crateras

Banhados e cavas onde cabe tanta ilusão

E alguns homens

Por saberem esse vãos

Ocupam-se de ocupa-los

Bárbaros

Mansamente (…)

                 Outro poeta que perturbou minhas leituras de fim de ano foi o Airton Paschoa, com seus Poemitos (belo título!). O cabra foi meu colega de faculdade, tem vários livros publicados, cultiva uma prosa poética e trocadilhesca. Poemitos reúne poemas de juventude (se é que podemos determinar exatamente este estado de espírito). A chama provocadora, às vezes surrealista, deixa entrever o decantar das muitas leituras da pré-juventude. Ora Pessoa, ora Oswald, ora Cabral, ora (pro nobis) Drummond.

(…) Tu é pó, lodo,

Prefiro, e ao pó, ídolo.

Te faço de barro,

De flores, de asas ,vaso.

De astros, de naves,

Te faço de noite, capela.

Te faço de dia,

De frases, de fato, poema. (…)

                Só? Só. Estou falando dos últimos dias de 2013, claro. Fecho os olhos e tento vislumbrar, no meio da nuvem de informações, os pontos mais brilhantes do ano. Foi um ano de muito cascalho pra pouco diamante. Faísca na lembrança o livro de poesias/fados de Dalila Teles Veras, enfoque muito original que enlaça amorosamente música e poesia, Brasil e Portugal. Li uns poucos romances que não me entusiasmaram (Ondjaki, Daniel Galera, Ronaldo Correia de Brito), e é provável que eu não tenha captado todas suas qualidades. E continuo sem paciência para best-sellers…

A pior coisa do mundo é se tornar um mau leitor. Prometo melhorar em 2014!

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