Ouvindo elepês

Quem tem mais de 40 anos certamente colecionou, ganhou, presenteou, pediu ou emprestou algum LP na vida. Crianças, LP é a sigla de long-playing, tá? Aquele discão de vinil, suporte ideal para capas artísticas, algumas desdobráveis, onde havia espaço para que a fotografia, o desenho, a pintura, as artes gráficas em geral, virassem uma atração complementar à música. E tem um som incomparável, quente, rico em timbres e frequências.

Tenho cerca de 800 elepês em casa, devidamente guardados num armário especial, com porta de vidro. Não sou um colecionador, apenas não me desfiz dos que já tinha antes da era digital. O infeliz do CD, além de matar as artes gráficas, comprimia o som, cortando agudos e graves, deixando tudo meio frio. A tecnologia avançou, a qualidade melhorou, mas tem muito fã de música que ainda defende a supremacia do LP sobre o CD.

No Natal de 2013 eu e a Carmen resolvemos nos dar um presente mútuo. Em vez de um presentinho pra cada um, um presentão para os dois. Um super-tocadiscos moderno, com entrada para USB, toca-fitas, CD, o escambau. O bicho copia LP para MP3, vejam só! O design retrô, com caixa em madeira, é um atrativo a mais. Quem quer  um abjeto objeto de plástico preto decorando a sala?

toca-discos

Tirei a poeira de meus elepês e me preparei para a estreia. Por várias questões, musicais e sentimentais, escolhi um disco da Joan Baez, o barra-cinco. Chamávamos assim porque o título original é Joan Baez/5. Meu pai ouvia muito este disco nos anos 60, enquanto pintava. Os primeiros acordes que tirei no violão foram deste disco. Não só, claro. Havia a generosa influência da música brasileira, a quem presto reverência até hoje.

Coloquei o disco. Carmen expressou bem a sensação. “Ah, que saudade desse chiadinho!” Aquele ruído de fritura que antecede a entrada da música é algo que faz parte da cultura de grande fatia da humanidade. Algo como as batidinhas que o maestro faz com a batuta antes de iniciar o concerto. Ou as tossidinhas da plateia. Um ruído. Mas se não estiver lá, vamos sentir falta.

E então entrou a voz única de Joan, cantando There But for Fortune. E depois Stewball e It Ain’t Me Babe, de Bob Dylan. O gozo supremo chegou com as Bachianas Brasileiras no. 5. Joan acompanhada por oito violoncelos, voz-lâmina cortando o espaço azul. “Fresca como a água corrente, clara como a corrente da montanha”, diz a contracapa. Havia espaço para longos textos na contracapa, crianças, acreditem!

Em seguida ouvi Elizeth Sobe o Morro. Luz Negra, Pecadora, Folhas no Ar… E depois Paulinho da Viola, Beatles, Caetano, Gil, Dire Straits, Laurie Anderson, Milton, Mozart, Simon & Garfunkel, Elomar… Alguns mais riscados, outros quase intactos. A recuperação do sagrado, da imperfeição tão humana do registro. Nada da limpeza asséptica do CD, este objeto perecível e descartável.

Certa vez uma pessoa me perguntou qual era a vantagem do LP sobre o CD. Estava na casa dela. Peguei a caixinha do disco que escutávamos e ameacei jogar no chão. Ela se apavorou, disse que metade dos CDs dela estavam trincados, não fechavam direito, que plástico era um horror.

Bem, capas de elepês são de papelão. Caem e sobrevivem. Comportam dedicatórias derramadas, mensagens de amor, de carinho, cantadas, poemas, confissões. As de CD, coitadas, no máximo um “parabéns”, data e assinatura. E quebram…

Pelos meus cálculos, vou precisar de três anos para reouvir meu acervo. Jazz, clássicos, MPB, rock e inclassificáveis. Não é um bom motivo pra estar feliz, neste início de 2014?

4 Responses to “Ouvindo elepês”


  1. 1 Carmen 22/01/2014 às 10:46 pm

    :)))))))))))))))))))))

  2. 2 valmir 23/01/2014 às 9:33 am

    esses pequenos prazeres, pegar uma manhã qualquer para limpar os vinis, coloca-los para tocar, deixar o dia fluir. sábado fui colocar alguns livros em ordem, ouvia alguma coisa pela internet, troquei meus vinis de lugar, tinha o habito de colocar matéria de jornal ou revista dentro da capa dura de plástico como um registro de quando o comprei, redobrei o desejo de comprar um toca discos e acho que farei isso.

  3. 4 dalila teles veras 18/02/2014 às 11:08 pm

    Um tanto quanto calada, mas não ausente. É sempre com redobrado gosto que leio seus saborosos textos, caro Daniel. Adquiri um desses “modernos” toca-discos com design retrô e curto muito também. Abraços da leitora


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