Os contos de Consternação

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Troco ideias com Jadson Barros Neves há quase dez anos,mesmo sem nos conhecermos pessoalmente. Escritor sério e compenetrado, desenvolve em seus contos uma linguagem densa, coesa e inconfundível. Apesar de inventar cidades e personagens, o cenário é bem reconhecível: As pequenas cidades e vilas surgidas no garimpo, no sertão, no sul do Pará, norte de Goiás, Tocantins…

                Depois de ganhar prêmios nacionais e internacionais, Jadson lançou no fim de 2013 seu primeiro volume de contos: Consternação. Discuti com ele por causa do nome, preferia que fosse um dos contos (O Itinerário da Sombra, por exemplo). Talvez até no plural, O Itinerário das Sombras. Não é lindo? Mas Consternação chegou pronto em minhas mãos, e tratei de inaugurar as leituras de 2014 com ele.

                Já conhecia alguns contos, a maioria. Trocamos opiniões e conceitos há vários anos. (Jadson fez a primeira leitura “profissional” de meu romance Terno de Reis, com observações e correções valiosas). Mas reler agora o conjunto reunido em Consternação me deu outra visão de seu mundo ficcional.

                Primeiro, que o livro é quase um romance oculto, cujos desígnios só vislumbramos nas entrelinhas. Personagens de um conto reaparecem em outros, cenários e ações ecoam em várias páginas, e formam uma invisível teia literária que nos faz refletir, perplexos, em vários momentos. Certas imagens se repetem sem que pareça repetição, mas reiteração de um território finito no tempo, onde as coisas parecem girar em falso.

                Escritos durante um largo período de tempo, os contos transparecem uma evolução – ou melhor, uma decantação – de linguagem até a última página. Homens e mulheres parecem cumprir destinos inexoráveis, iniludíveis, e esse fatalismo está impregnado nas árvores, no canto dos pássaros, na noite estrelada, nas chuvas torrenciais.

                Jadson passou por quatro universidades, foi vendedor de secos e molhados no sul do Pará, revisor de jornal e professor. Mora em Guaraí-TO. Ou seja, conhece muito bem a região que descreve nos seus contos. Nasceu ali. (Sei que também morou em Fortaleza, mas aí é outra história). Jadson Barros Neves apresenta para o Brasil, com descrições poderosas e enredos inquietantes, um território pouquíssimo explorado na ficção. E supera o regionalismo elementar construindo com profundidade a psicologia de seus personagens. Não é pouco.

Vai aqui um trechinho, de aperitivo:

                “Foi numa noite sem lua que vimos as luzes pela primeira vez, na direção da serra. Olhamos, mas nada dissemos. Eram eles, os estranhos. Eu disse a seus irmãos, com mãos de vem-vem, que voltássemos para dentro.

                Você se lembra de um bando de pardais voando, do barulho que fazem voando de repente? Assim veio outra vez a neblina, veio e passou, mas sentíamos que havia algo diferente nela. Quando acabou o ruído, proibi seus irmãos de abrirem as janelas. Escutei gritos nas outras casas, vozes nas ruas, bater de portas. E então, naquela maneira de correrem, escutei veados assoprando e parando, e os canastras em disparada, e rasga-mortalhas lançando seu grito curvo e sem freios no ar.

                 A manhã chegou de tarde,  o dia estava invertido.”

1 Response to “Os contos de Consternação”


  1. 1 JÁDSON NEVES 29/01/2014 às 10:46 pm

    Muito obrigado, Daniel. Agora, com calma, agradeço por aqui. Abraço!  

    “Depressa: o tempo foge e arrasta-nos consigo: o momento em que falo já está longe de mim”. Nicolas Boileau


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