O bar dos sonhos

Cerveja

Num fim de tarde recente, saindo de uma reunião de trabalho na Vila Madalena, me vi preso pelo rodízio. Quem mora fora de São Paulo não sabe do que se trata, mas é um estratagema oficial para tirar 20% dos carros de circulação. Na segunda feira, placas com final 1 e 2 não podem circular nos horários de pico, entre 17 e 20 h. Na terça, 3 e 4, e assim por diante.

Já morei na Vila Madalena. Ali na rua Agissê, no quarteirão da Mercearia. Também passei um ano sabático na rua Girassol, no final de um casamento. Depois me mudei para a rive gauche do Rio Pinheiros, fugindo da bagunça e do trânsito. Mesmo assim, às vezes, sou obrigado a cruzar o bairro.

Resolvi dar uma volta pelas velhas ruas conhecidas. Muitos prédios onde antes havia casas, boutiques onde havia lojinhas, restaurantes onde havia botecos. A força da grana que ergue e destrói coisas belas. Mas uma porta diferente me chamou a atenção. Parecia um bar, mas discreto, quase uma passagem no meio de um muro coberto de heras. A plaqueta “aberto” pendurada na maçaneta me convidou a entrar.

Uma sala com cerca de dez mesas simples, arrumadas com bom gosto. O barulho da rua era imperceptível após fechar a porta. Mesmo um pedaço de jardim interno, a céu aberto, era tão forrado de plantas que quase dava pra se ouvir as estrelas. Ao fundo, um balcão onde um barman arrumava copos. Escolhi uma mesa, e mal havia sentado uma garçonete veio me servir, solícita. Pedi uma cerveja, e ela mostrou um cardápio com boas opções, algumas artesanais, com preços decentes.

Olhando em torno, reparei que não havia televisão. Pequenas caixas de som discretamente penduradas nos cantos tocavam um Tom Jobim em volume civilizado, permitindo conversas. Não que houvesse muitas pessoas, só um casal de namorados, que mais sussurrava que falava, no canto oposto do salão. Abri o cardápio e me surpreendi com a boa oferta de petiscos brasileiros de fina extração. De jiló frito à mineira até bolinhos de piracuí do Amazonas.

Outras pessoas chegaram. Estavam alegres, mas conversavam baixo, de forma discreta. Paulinho da Viola na caixa. No pedaço de céu surgiu uma lua-alfanje, que chegou a pratear o chão. O jiló frito estava no ponto, sequinho e crocante, passado na farinha de milho, como eu só havia provado em Ponte Nova. Um choro de Pixinguinha encheu o ambiente. Reparei, surpreso, que havia um pequeno aviso na parede sugerindo que os celulares fossem desligados. Foi quando percebi que havia algo errado em tudo aquilo.

Infelizmente, acordei…

8 Responses to “O bar dos sonhos”


  1. 1 violanatela 23/05/2014 às 5:19 pm

    Enquanto lia o já imaginava qual seria o meu comentário. Agora que li até o fim e o comentário já não faz mais sentido, comento dando uma dica.
    Lugares assim em São Paulo só em sonho mesmo. No interior, e não muito longe, venho me deparando com ambientes muito interessantes e inclusive bem sacados. O último deles foi no município de Monteiro Lobato, mais especificamente no Bairro do Souza. Lá há um recanto muito interessante chamado Na Beira do Riacho. Boa comida, boa bebida, boa música, boa gente, bom preço e o som do riacho. Esse é real.

  2. 3 Flor 24/05/2014 às 2:41 pm

    Desconfio que a tal passagem no meio do muro coberto de heras ia dar no seu quintal, e lá era o bar!

  3. 7 Medina 27/05/2014 às 11:45 am

    Cara, que bonito! “um pedaço de jardim interno, a céu aberto, era tão forrado de plantas que quase dava pra se ouvir as estrelas”; e o livro, publicado ou não me mande um pedacinho…
    Abraço de fã, agora bioquímico


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