Fotógrafo de rua (1)

            Acompanhando o trabalho de amigos fotógrafos (profissionais), me senti compelido a rever algumas imagens colhidas ao acaso nos últimos anos. Nunca saí às ruas com o objetivo de captar imagens específicas, com algum objetivo definido. Sempre fui um amador no sentido mais comum da palavra, ou seja, nunca vendi uma única foto.

Espiando uma página dedicada a fotógrafos de rua, profissionais ou amadores, percebo diferentes graus de interação entre o sujeito e o objeto, o autor e o fotografado, o observador e a paisagem. O que torna um olhar diferenciado, afinal?

Acadêmicos, teóricos, semióticos e críticos de artes visuais já exploraram muito esta questão. É claro que o quesito “originalidade” é cada vez mais abstrato, num mundo digital saturado de imagens multiplicadas ao infinito. Mais concretos são fatores como enquadramento, foco, tratamento tonal, ângulo ou composição.

Mas há algo que diferencia o olhar que inventa do olhar que apenas registra. Há alguns dias o moderador da página propôs o tema “tela urbana”. Tema aberto, propício a muitas leituras. Boa parte das imagens enviadas mostravam a superfície urbana como tela. Ou seja, grafites, cartazes, fachadas e pichações. Algumas curiosas, outras banais, algumas impactantes.

Mas o que é a fotografia de um grafite? Se não houver invenção (ou talento, sensibilidade, feeling, chame como quiser), soa como mero registro, ainda que eventualmente belo. Os exemplos abaixo estão nesse patamar.

VeronaVerona, Itália.

São Paulo, SP.

MontevidéuMontevidéu, Uruguai.

             Não se preocupe, não estou expondo o trabalho de terceiros à crítica desalmada. São fotos que fiz em viagens, às vezes de férias, às vezes a trabalho (não relacionado à fotografia, como expliquei). Registros que fazem parte de minha memória afetiva, mas que não se elevam à categoria de arte justamente por faltar a tal invenção.

            Um fotógrafo de verdade vê a parede pintada, prevê situações e calcula como pode maximizar o efeito gráfico inserindo outro elemento. É aí que entra o ser humano como contraponto irônico ou dramático. A foto deixa de ser registro, ganha autonomia estética. Ganha vida, podemos dizer.

Grafitti 3(autor: Miguel Côrte-Real Marias)

Grafitti 1(autor: Jose L .Vilar Jordán)

Grafitti 2(autor: Helvio Romero).

             Claro que isso não é uma fórmula. Há fotos lindas de grafites em contraponto com árvores, animais, nuvens brancas, céu carregado, reflexos na água, assim como há fotos óbvias de pessoas passando por grafites ou desenhando em paredes. Mas sem dúvida é um passo adiante quando captamos a paisagem como algo vivo, quando um cenário conta uma história, quando superamos o mero registro documental. A grande tela urbana que nos cerca oferece diariamente cenas memoráveis, ternas, terríveis, engraçadas, grotescas… É só clicar. (Mas não é só clicar!)

ElisRegina2010 010                                                                                                                                                                                                                       Praça Elis Regina, São Paulo.

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